Mercado em foco — 4 de agosto
A sessão de segunda-feira (3) na B3 resumiu bem o momento do mercado brasileiro: cautela por fora, mas sustentação por dentro. O Ibovespa fechou praticamente estável, nos 178.000,24 pontos, incapaz de embarcar no rali forte das bolsas americanas, mas também longe de ceder às pressões externas. No ano, o índice já acumula alta de 10,47% — um desempenho que segue chamando atenção mesmo com o cenário de juros ainda elevados.
Cabo de guerra entre commodities e economia doméstica
O pregão de ontem foi marcado por um embate claro dentro do próprio índice. De um lado, Petrobras e Vale puxaram o Ibovespa para baixo, penalizadas pela queda nos preços de commodities. De outro, papéis ligados à economia doméstica ganharam fôlego à tarde, favorecidos pelo fechamento da curva de juros. O resultado foi um índice que oscilou entre 176.783 e 178.556 pontos ao longo do dia, com volume financeiro de R$ 18,9 bilhões, até fechar sem grandes sustos. É o tipo de sessão que não entra para a história, mas que diz muito sobre o equilíbrio de forças atual entre exportadoras e ativos domésticos.
No câmbio, o dólar seguiu a mesma toada de estabilidade com viés de leve queda, negociado na casa de R$ 5,06 a R$ 5,07, refletindo um investidor mais cauteloso do que eufórico às vésperas de uma decisão de política monetária importante.
Wall Street não teve a mesma cautela
Enquanto o Brasil operava em compasso de espera, os Estados Unidos viveram uma das sessões mais fortes dos últimos meses. O Dow Jones avançou 1,32% e bateu recorde, aos 53.178,41 pontos; o Nasdaq disparou 2,13%; e o S&P 500 subiu 1,48%. O gatilho foi a queda no preço do petróleo, impulsionada pelo anúncio de retomada do diálogo entre Estados Unidos e Irã, somada a resultados corporativos mais animadores do que o esperado. É um lembrete de como o humor externo continua sendo um vetor relevante para os nossos ativos — mesmo quando, como ontem, a bolsa local não segue o movimento na mesma intensidade.
Copom na mira: o corte que o mercado já precifica
Se o pregão de segunda-feira foi de espera, é porque a verdadeira notícia da semana está por vir. O Copom se reúne nesta terça e quarta-feira, com decisão anunciada na noite de amanhã, e a expectativa amplamente majoritária é de um corte de 0,25 ponto percentual na Selic, hoje em 14,25%, para 14,00% ao ano. O movimento ganhou força depois que o IPCA recente veio abaixo do esperado, sinalizando perda de ritmo da inflação.
O Boletim Focus divulgado ontem pelo Banco Central reforça essa leitura: pela quinta semana seguida, o mercado reduziu a projeção de inflação para 2026, agora em 5,03%, e passou a enxergar a Selic terminando o ano em 13,75% — ou seja, mais um corte além do que se espera para amanhã. É a primeira vez desde março que as projeções de juros para o fim do ano recuam, um sinal de que o mercado está, aos poucos, ganhando confiança de que o ciclo de aperto ficou para trás.
O que fica de lição
O que mais me chama atenção neste início de agosto não é o nível do Ibovespa nem a cotação do dólar isoladamente, mas a mudança de tom nas expectativas. Depois de meses em que o mercado só revisava a Selic para cima, ver a primeira revisão para baixo desde março é um marco simbólico. Não significa que o corte de juros vá resolver todos os desafios fiscais e de crescimento do país, mas indica que o pior do aperto monetário pode, de fato, ter ficado para trás — algo que tende a beneficiar gradualmente os ativos mais sensíveis ao ciclo doméstico, sem que isso precise se traduzir em euforia precipitada. Segue valendo o de sempre: entender o ciclo, respeitar o horizonte de cada investimento e não confundir uma sessão de estabilidade com falta de coisa importante acontecendo por trás dos números.
Maickel