Mercado em foco — 12 de agosto
Ibovespa tem o pior fechamento em quase sete meses
O pregão de terça-feira (11) escancarou o nervosismo que já vinha se acumulando na bolsa brasileira. O Ibovespa fechou em queda de 2,50%, aos 167.874 pontos — o pior nível de fechamento desde 20 de janeiro. Não foi um tropeço isolado: a sessão reuniu de uma vez só os ingredientes que mais incomodam o investidor local, da alta dos juros futuros a um alerta sobre a inflação de serviços, passando por pesquisas eleitorais para a Presidência da República que voltaram a mexer com o apetite por risco.
Entre as ações, RD Saúde e BTG Pactual figuraram entre as maiores quedas do dia, arrastando o índice para baixo em um movimento que combina fundamentos específicos das companhias com o humor mais amplo do mercado. Quando o cenário macro já está desconfortável, papéis com múltiplos mais esticados ou setores mais sensíveis a crédito tendem a sofrer primeiro — e foi mais ou menos isso que se viu ontem.
Dólar também sobe e reflete a aversão a risco
O real acompanhou o desconforto. O dólar encerrou o dia em alta de cerca de 1%, cotado perto de R$ 5,16/R$ 5,17, depois de ter aberto a sessão bem mais comportada, na casa dos R$ 5,10. O contrato futuro da moeda para setembro, hoje o mais líquido da B3, subiu ainda mais forte, 1,06%, para R$ 5,1875 — sinal de que parte do mercado já está posicionada para um dólar mais caro adiante, não apenas reagindo ao susto do dia.
É o tipo de combinação — juros futuros subindo, câmbio depreciando e bolsa caindo junto — que costuma aparecer quando o mercado reprecifica risco fiscal e risco político ao mesmo tempo. Pesquisa eleitoral mexe com prêmio de risco tanto quanto dado de inflação, e ontem os dois vieram juntos.
Lá fora, o clima é de cautela morna
Wall Street, em contraste, não viveu um dia dramático. O S&P 500 recuou apenas 0,1%, a 7.753 pontos, ainda perto de máximas históricas; o Nasdaq cedeu 0,3% e o Dow Jones, 0,1%. O petróleo Brent oscilou bastante ao longo do pregão — chegou a furar os US$ 90 pela manhã e fechou perto de US$ 88,66, alta de 1,1%. O grande foco por lá agora é a divulgação do CPI de julho nos Estados Unidos nesta quarta-feira, seguida pelo PPI na quinta: dados que devem ajudar a definir se o Federal Reserve mexe nos juros já em setembro. O mercado futuro precifica essa decisão como algo próximo de uma moeda ao ar — o que por si só já é motivo de cautela para qualquer mesa de operações.
O que fica da sessão
Nenhum desses fatores, isoladamente, explicaria uma queda de 2,5% no Ibovespa. Juntos, formaram um coquetel que lembra algo importante: em mercados emergentes, o prêmio de risco não é abstrato — ele aparece rápido no câmbio, nos juros longos e no preço das ações quando incerteza política e incerteza de inflação se sobrepõem. Vale menos tentar adivinhar o próximo movimento de curto prazo e mais entender por que ele aconteceu, porque esse tipo de sessão tende a se repetir enquanto essas duas fontes de incerteza — eleição e inflação — não derem sinais mais claros.
Como sempre, isto não é recomendação de compra ou venda de nenhum ativo específico — é leitura de contexto para você formar sua própria opinião com mais informação.
— Maickel