Bolsa nas máximas, gringo na saída: por que o mercado brasileiro já está precificando outubro
Há um paradoxo em curso na B3 que merece atenção de quem investe ou pensa em investir nos próximos meses. O Ibovespa passou boa parte de 2026 batendo recordes — chegou a 191.490 pontos em fevereiro e voltou a orbitar os 178 mil pontos em julho — e ainda assim acumula alta de 6,5% no ano até 26 de agosto. Só que, no mesmo mês de agosto, o investidor estrangeiro fez as malas em ritmo nunca visto: retirou R$ 15,63 bilhões da bolsa brasileira em apenas nove pregões, segundo levantamento da Elos Ayta Consultoria. É a maior saída mensal da série histórica desde janeiro de 2022, superando o recorde anterior, de R$ 13,28 bilhões, registrado em maio — que, vale lembrar, levou 21 pregões para chegar a esse número. Agosto fez o dobro do trabalho em menos da metade do tempo.
O CEO da Elos Ayta, Einar Rivero, resume bem a gravidade do movimento: com apenas sete pregões contabilizados na época da declaração, agosto já acumulava saída equivalente a 80% de todo o volume retirado em maio. Não é ruído estatístico, é uma virada de humor.
Do otimismo à fuga: como chegamos aqui
O ano começou como sonho de investidor estrangeiro. Janeiro, fevereiro e março tiveram entradas de R$ 26,31 bilhões, R$ 15,40 bilhões e R$ 11,66 bilhões, respectivamente, e mesmo julho fechou positivo, com R$ 2,56 bilhões líquidos. A virada veio em maio, quando a rotação global para papéis de tecnologia — leia-se, a corrida por ações ligadas à inteligência artificial nos Estados Unidos — drenou liquidez de mercados emergentes, Brasil incluído, e produziu o primeiro saldo mensal negativo do ano. Desde então, o fluxo não se recuperou, e agosto aprofundou a tendência de forma abrupta. No dia 11 daquele mês, quando o Ibovespa caiu 2,5% e tocou o menor nível desde janeiro (167.874,64 pontos), estrangeiros retiraram R$ 4,7 bilhões em um único pregão — a maior saída diária desde abril de 2021.
Esse detalhe importa porque revela como o mercado brasileiro ficou dependente do capital externo. Desde 2021, investidores estrangeiros respondem por mais de 50% da participação na B3, e em 2026 esse percentual chegou a 60,60% — enquanto pessoas físicas (10,90%) e institucionais (24,80%) perderam espaço. Na prática, o “gringo” hoje tem poder de fazer o índice balançar sozinho, para o bem e para o mal.
O downgrade que não passou em branco
Não é só uma questão de fluxo técnico. O JPMorgan revisou sua estratégia para a América Latina no segundo semestre e rebaixou a recomendação para o Brasil de overweight para neutra, citando uma combinação pouco animadora: crescimento mais fraco, deterioração do crédito, juros elevados por mais tempo e volatilidade crescente por conta das eleições de outubro. É um sinal que pesa, porque bancos globais influenciam decisões de alocação de fundos que movem bilhões.
O relatório que virou referência: Morgan Stanley e os dois cenários
Publicado em 24 de agosto, um relatório de 126 páginas do Morgan Stanley tenta dar contorno numérico a essa incerteza. A tese central do banco é que o que realmente vai mover os preços não é simplesmente quem ganha a eleição, mas se o próximo governo apresentar um programa fiscal crível. No cenário pessimista — sem mudança relevante na trajetória das contas públicas —, o banco projeta uma queda de até 25% no Ibovespa em reais e 35% em dólares. Já em um cenário de reformas e maior credibilidade fiscal, calculado em relatório anterior, a valorização do real poderia chegar a 30%, com o investimento no país subindo dos atuais 17% do PIB para cerca de 20% na próxima década. É uma distância enorme entre os dois cenários, e isso por si só explica boa parte da cautela — e da volatilidade — que se vê hoje nos preços dos ativos brasileiros.
Pesquisas, apostas e o “risco Selic” no meio do caminho
No campo eleitoral, a pesquisa CNT/MDA de 11 de agosto mostra Lula com 42,4% das intenções de voto no primeiro turno, contra 28,7% de Flávio Bolsonaro — 13,7 pontos de distância. No Polymarket, mercado de apostas, Lula aparece com 64% de probabilidade de vitória, contra 27% do adversário. Mas seria simplista atribuir a fuga de capital só à corrida eleitoral. Análise da Forbes aponta uma convergência de fatores: incerteza sobre a continuidade do ciclo de cortes da Selic, a concorrência por capital global com o boom de IA nos EUA, e riscos externos como o conflito no Oriente Médio, o petróleo e as decisões do Federal Reserve.
Esse ambiente de desconfiança fiscal-eleitoral já aparece nos preços da renda fixa. Um comentarista de mercado citado pela BM&C News resumiu bem o clima entre investidores de títulos públicos: “o nosso famoso título IPCA+, pagava-se IPCA mais 6%, mais 7%, mais 8%, pode ser mais… a percepção é que esse risco só vai continuar aumentando e pode se perpetuar.” Não é exagero: os prêmios pagos pelas NTN-Bs (Tesouro IPCA+) sobem justamente porque o investidor está cobrando mais para carregar risco brasileiro em um horizonte de vários anos, atravessando o resultado das urnas.
Selic, poupança e as alternativas de renda fixa
Para quem está fora do jogo institucional e só quer entender o que fazer com o próprio dinheiro, os números atuais são claros — sem que isso seja uma recomendação de compra ou venda de qualquer ativo específico. Com a Selic em 14% ao ano desde 5 de agosto — quarta redução consecutiva do Copom no ano, com corte de 0,25 p.p. e decisão unânime —, a poupança rende hoje cerca de 9,8% ao ano bruto (70% da Selic mais TR), bem abaixo do que entregam o Tesouro Selic ou CDBs equivalentes, próximos de 14% antes do IR. O Boletim Focus de 10 de agosto projeta a Selic terminando 2026 em 13,75%, sinalizando espaço para mais um corte de 0,25 p.p. até dezembro — mas o ritmo depende da inflação de serviços e da atividade econômica. O IPCA de julho, aliás, surpreendeu para cima (0,07% contra projeção de 0,01%), embora o acumulado em 12 meses tenha desacelerado de 4,64% para 4,44%, com o desvio concentrado em itens voláteis como higiene pessoal e alimentação no domicílio.
O que vem por aí
O calendário dos próximos meses ajuda a entender por que o nervosismo deve continuar. O IPCA de agosto sai por volta de 10 de setembro, o Copom se reúne nos dias 15 e 16 do mesmo mês para decidir os próximos passos da Selic, e em outubro o país vai às urnas no primeiro turno. Cada um desses eventos tem potencial de mexer no fluxo estrangeiro, no câmbio — que fechou recentemente perto de R$ 5,14 após cinco altas seguidas do Ibovespa — e no apetite por risco brasileiro. A história já mostrou como isso pode pesar: em 2002, a possibilidade de vitória de Lula levou o dólar a romper R$ 4,00 em meio a uma crise cambial, e entre janeiro e outubro de 2022 a moeda brasileira se depreciou mais de 15% num período de máxima incerteza eleitoral. Se o padrão se repetir ou não, é a pergunta que o mercado está tentando responder — e que, por ora, ninguém tem resposta definitiva.
Conteúdo produzido com apoio de inteligência artificial, com curadoria editorial de Maickel.
— Maickel, colunista de finanças