Ativo Certo

Educação financeira e investimentos para decisões mais seguras

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Entre a eleição, a Selic e o fim da isenção: como o investidor brasileiro navega o rali e o risco de 2026

Se 2026 fosse resumido em uma palavra, seria “virada”. O ano começou com a Bolsa em festa, o dólar em queda livre e a Selic ainda travada em patamar de duas décadas. Agora, em setembro, o cenário é outro: a política entrou de sopetão na equação do investidor, o Banco Central segue cortando juros com cautela redobrada, e uma mudança tributária de peso está reescrevendo a lógica de quem vive de dividendos. Como colunista que acompanha esse tabuleiro há anos, arrisco dizer que dificilmente um único ano trouxe tantas frentes simultâneas de decisão para quem tem dinheiro aplicado.

O ciclo de juros que não acabou, só desacelerou

A Selic começou 2026 em 15% ao ano, nível que já vinha sendo mantido havia meses — o maior patamar em quase 20 anos. O Copom iniciou os cortes em março e, desde então, tem seguido um ritmo de 0,25 ponto por reunião, sempre repetindo o mantra do presidente Gabriel Galípolo de que “não há porta fechada nem seta dada” para os próximos passos. Depois de sucessivas reduções, a taxa chegou a 14% ao ano na reunião de 5 de agosto, a quarta baixa consecutiva. A próxima decisão sai nos dias 15 e 16 de setembro, e o mercado deve ficar atento: os dados fracos do PIB do segundo trimestre reforçaram a leitura de que a atividade perde ritmo, o que abre espaço — mas não garante — novos cortes até dezembro. Na prática, isso significa que a renda fixa pós-fixada ainda paga um prêmio relevante, mas esse prêmio tem prazo de validade.

Ibovespa: do recorde histórico ao “trade eleitoral”

Os primeiros meses do ano vão para os livros de história da B3. Só em janeiro e fevereiro, o Ibovespa acumulou dez recordes de fechamento, quase um terço de todos os recordes registrados em 2025 inteiro. O combustível foi claro: entrada líquida de estrangeiros de R$ 26,3 bilhões apenas em janeiro, mais do que todo o saldo positivo do ano anterior. Em abril, o índice rompeu os 195 mil pontos, embalado também por um cessar-fogo no Oriente Médio que derrubou o dólar ao menor nível em dois anos.

Mas o segundo semestre trouxe um personagem novo para dominar o humor do mercado: a corrida eleitoral de 2026. Em 1º de setembro, o Ibovespa buscava recuperação após meses de lateralização. No dia seguinte, deu um salto de 3,05%, aos 185.205 pontos, o maior patamar em cerca de quatro meses — movimento atribuído a uma pesquisa Quaest que mostrou empate técnico entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro. É um dado que chama atenção: hoje, uma pesquisa eleitoral mexe mais com a Bolsa do que um dado de PIB ou uma decisão de juros. Isso é um sinal de que o mercado já precifica cenários políticos para 2027, e tende a operar com mais nervosismo — e mais oportunidade de volatilidade — até lá.

Câmbio: dólar deixou de ser uma via de mão única

O real também teve seu ano de destaque, com o dólar caindo a R$ 5,0626 em abril, menor nível desde 2024. Mas, em setembro, a moeda voltou a rondar a faixa de R$ 5,10 a R$ 5,19, reagindo tanto à pauta eleitoral quanto a sinalizações do Federal Reserve. Para quem pensa em dolarizar parte da reserva de emergência ou investir no exterior, o recado é: a tendência de queda do dólar em 2026 não foi linear, e apostar em uma direção única tem se mostrado um exercício arriscado.

Bitcoin: a virada de agosto e o dinheiro institucional

Depois de bater máxima histórica em outubro do ano passado, o Bitcoin passou boa parte de 2026 em correção, chegando a operar perto de US$ 79-80 mil em setembro. O detalhe mais interessante é o que aconteceu em agosto: a moeda subiu quase 25% no mês, um movimento puxado quase inteiramente por fundos institucionais, enquanto o investidor de varejo vendia. Os ETFs à vista de Bitcoin nos Estados Unidos captaram US$ 3,52 bilhões só em agosto — depois de terem perdido mais de US$ 5 bilhões entre janeiro e julho. É um contraste que vale reflexão: o “dinheiro grande” muitas vezes entra justamente quando o público em geral está desanimado.

O fim de quase 30 anos de isenção nos dividendos

Talvez o assunto mais concreto para o bolso do brasileiro comum seja a Lei nº 15.270/2025, sancionada em novembro passado, que encerra quase três décadas de isenção de Imposto de Renda sobre dividendos — regra que vinha desde 1995. A partir de agora, incide 10% de IR retido na fonte sobre lucros e dividendos pagos a pessoas físicas quando o valor ultrapassa R$ 50 mil por mês, por CNPJ pagador. Um detalhe técnico que gera muita confusão merece destaque: ao estourar esse limite, o imposto recai sobre o valor total distribuído no mês, não apenas sobre o excedente.

Foi criado também o IRPFM, uma espécie de piso mínimo de tributação anual para quem recebe mais de R$ 600 mil por ano, com alíquotas que vão de 0% a 10%, mas essa parte só valerá na declaração de 2027, referente aos rendimentos de 2026. Há ainda disputa jurídica em aberto envolvendo o Simples Nacional, já que a Receita defende aplicação universal da nova regra, enquanto especialistas questionam se uma lei ordinária pode se sobrepor à Lei Complementar do Simples.

É importante colocar a mudança em perspectiva: o limite de R$ 50 mil por mês por fonte pagadora deixa a esmagadora maioria dos pequenos investidores de fora do novo imposto. Quem vive de FIIs ou de uma carteira modesta de ações pagadoras de dividendos dificilmente sentirá o impacto direto. O alvo da lei são grandes acionistas, sócios de empresas e estruturas patrimoniais mais sofisticadas — mas o efeito psicológico de encerrar quase 30 anos de isenção total é real, e deve influenciar como family offices e assessorias reorganizam estruturas societárias daqui para frente.

No fim das contas, 2026 está deixando uma lição clara: não existe mais um único fator dominando as decisões de investimento. Juros, câmbio, eleição e tributação se entrelaçam, e cabe a cada investidor entender onde se encaixa nesse quebra-cabeça antes de qualquer movimento.

Conteúdo produzido com apoio de inteligência artificial, com curadoria editorial de Maickel.

— Maickel, colunista de finanças

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