Selic em queda, ouro em ressaca e bitcoin capenga: o ano em que o brasileiro aprendeu a fugir da poupança
Tem ano que serve de divisor de águas para o jeito como as pessoas enxergam dinheiro. 2026 está sendo um desses. Enquanto o Copom conduz um dos cortes de juros mais consistentes das últimas décadas, o ouro passou por um rali histórico seguido de uma correção pesada, o bitcoin ainda tenta se recuperar de uma queda de mais de 30% em relação ao próprio recorde, e a poupança — aquele porto seguro que todo brasileiro aprendeu a usar desde criança — está sangrando dinheiro como nunca. Tudo isso ao mesmo tempo, e tudo isso conectado.
O corte de juros que muda a conta
Vale lembrar de onde viemos: a Selic passou quase um ano inteiro, entre junho de 2025 e março de 2026, grudada em 15% ao ano, o maior patamar em quase duas décadas. De lá para cá, o Copom cortou a taxa em praticamente todas as reuniões do ano — 15,00%, depois 14,75%, 14,50%, 14,25%, 14,00% e, na última decisão, em setembro, 13,75% ao ano. A próxima reunião está marcada para 4 de novembro, e o mercado já vive na expectativa do próximo corte. No acumulado até outubro, a Selic rendeu 10,55%, bem perto do CDI — enquanto a poupança entregou 6,86% no mesmo período. É essa diferença, simples e aritmética, que está por trás de boa parte do que vou contar a seguir.
Ouro: da euforia histórica à ressaca
Poucos ativos resumem tão bem a ansiedade do investidor global em 2026 quanto o ouro. Em janeiro, a onça troy rompeu pela primeira vez a barreira de US$ 5 mil e chegou a bater US$ 5.326, recorde histórico, embalada por um coquetel de incertezas geopolíticas — da captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro a tensões envolvendo o regime iraniano, episódios que analistas como Rodolpho Sartori, da Austin Rating, apontaram como gatilhos de um movimento clássico de fuga para segurança. Em doze meses, o metal acumulou alta de mais de 90%. Bancos como Bank of America e Goldman Sachs correram para revisar suas projeções para cima, falando em US$ 5.000 e até US$ 5.400 a onça.
Só que o rali não durou. Em 2 de outubro, o ouro fechou cotado a US$ 4.162,30 a onça — uma queda de cerca de 25% frente à máxima histórica, dentro de uma banda de 52 semanas que foi de US$ 3.890,70 a US$ 5.626,80. No varejo brasileiro, a grama do ouro 24k oscilava entre R$ 694 e R$ 703 no início de outubro. O episódio é um lembrete de que proteção contra incerteza não é sinônimo de ativo sem risco: quem entrou perto do topo já sente o solavanco.
Bitcoin: um ano depois do recorde, ainda devendo
O bitcoin viveu enredo parecido. A criptomoeda bateu sua máxima histórica em outubro de 2025, perto de US$ 126 mil. Um ano depois, opera na faixa de US$ 83 mil a US$ 87 mil — entre 31% e 33% abaixo do pico. A recuperação recente, batizada de “Uptober”, foi puxada por fluxos de ETFs e por um relatório de emprego americano que mostrou alta no desemprego, o que paradoxalmente anima o mercado cripto por sinalizar espaço para afrouxamento monetário nos EUA. Ainda assim, os números mostram cautela: os ETFs spot captaram US$ 6,34 bilhões só no terceiro trimestre, mas o total líquido de 2026 segue abaixo de US$ 1 bilhão, bem distante do apetite institucional do ano anterior. As previsões de janeiro — JPMorgan falando em US$ 170 mil, QR Asset Management alertando para um “ano desafiador” — mostram como o mercado estava dividido, e os fatos de outubro parecem ter dado razão aos mais cautelosos.
A fuga silenciosa da poupança
Enquanto ouro e bitcoin ocupam manchetes, uma mudança mais discreta e talvez mais estrutural acontece no bolso do brasileiro comum. Em 2025, a poupança teve saída líquida de R$ 85,56 bilhões, cinco vezes mais que em 2024, segundo o Banco Central — o maior resgate já registrado. O saldo total caiu para R$ 961,4 bilhões. Do outro lado, o Tesouro Direto emplacou recordes de adesão, com 3,47 milhões de investidores ativos em abril. Dados da Anbima mostram a tendência de forma nítida: em cinco anos, a fatia da poupança entre os investimentos dos brasileiros caiu de 75% para 61%, enquanto CDBs e LCIs saltaram de 8% para 20%, e fundos foram de 9% para 14%. Hoje, 60,6 milhões de brasileiros — 36% da população adulta — têm algum dinheiro aplicado fora da caderneta tradicional.
A explicação técnica é direta: com a Selic acima de 8,5% ao ano, a poupança trava em 0,5% ao mês mais TR, resultando em algo entre 6% e 8% ao ano — número que não compete nem de longe com o Tesouro Selic, hoje em 13,75% bruto. A questão em aberto é se esse movimento vai se sustentar conforme os juros continuarem caindo, ou se parte desse dinheiro volta para a poupança assim que o diferencial de rentabilidade encolher. Por ora, os números de 2026 sugerem que o brasileiro aprendeu, ainda que à força, a comparar rentabilidade real antes de guardar dinheiro embaixo do colchão digital da caderneta.
Conteúdo produzido com apoio de inteligência artificial, com curadoria editorial de Maickel.
— Maickel, colunista de finanças