Eleição derruba dólar, Selic cai pela quinta vez e ouro desaba 26%: como ler a tempestade nos mercados
Outubro de 2026 está entregando em três semanas o que normalmente levaria um ano inteiro de pauta econômica. O primeiro turno das eleições presidenciais jogou a Bolsa a um recorde histórico e derrubou o dólar com violência. A Selic emendou o quinto corte seguido, mas segue em patamar que qualquer economista chamaria de restritivo. E o ouro, que tinha acabado de bater recorde atrás de recorde em janeiro, perdeu mais de um quarto do seu valor desde o pico. São movimentos que, à primeira vista, parecem desconexos. Olhados em conjunto, contam uma história só: a de um investidor que precisa reaprender a calibrar risco num ambiente em que praticamente tudo mudou de preço ao mesmo tempo.
O terremoto eleitoral
No dia seguinte à apuração do primeiro turno, que mostrou Flávio Bolsonaro (PL) à frente com 47,03% dos votos válidos contra 45,16% de Lula (PT), o dólar caiu mais de 4% e fechou abaixo de R$ 5, o menor nível desde maio. O Ibovespa disparou 7,70% e fechou aos 206.911,89 pontos, maior alta diária desde o auge da pandemia, em março de 2020. O giro financeiro daquele pregão, de R$ 79 bilhões, ficou entre os maiores da história da Bolsa brasileira. No acumulado do ano, o índice já subia 28,4% — e esse foi apenas o 13º recorde de uma sequência que começou em janeiro.
Vale lembrar que as pesquisas até véspera da eleição indicavam um cenário de empate técnico: a AtlasIntel apontava 50% a 50% no segundo turno, a Real Time Big Data mostrava 51% a 49%, e o Datafolha dava 48% a 45% para Lula, dentro da margem de erro. “O mercado já colocou no preço uma disputa competitiva, com chance real de alternância”, resume Julio Carelli, cofundador da consultoria Formadores de Mercado. A reação do dia seguinte foi, portanto, menos sobre o resultado em si e mais sobre a surpresa em relação ao que estava precificado.
Dias depois, porém, a euforia já mostra sinais de acomodação. Analistas recomendam cautela a quem não entrou no movimento inicial, argumentando que é preciso “deixar passar essa euforia para ver o que de fato é reprecificação, e o que é ruído”. Um sinal concreto dessa digestão: as taxas dos prefixados do Tesouro Direto, que haviam caído com a euforia, reverteram na tarde de quinta-feira (8), mesmo dia em que o Tesouro Nacional fez a maior venda de prefixados em leilão desde dezembro de 2020, R$ 33,3 bilhões. O Tesouro Prefixado 2029 oscilou de 12,47% para 12,33% — um lembrete de que títulos prefixados carregam risco de marcação a mercado justamente por reagirem a expectativas políticas, diferentemente dos pós-fixados.
Selic em queda, juro real nas alturas
A Selic está em 13,75% ao ano, após cinco cortes de 0,25 ponto entre março e setembro, vindo de 15% — o nível mais alto desde julho de 2006. Com a inflação em 4,22% nos últimos 12 meses até agosto, acima do centro da meta, o juro real segue em 9,14% ao ano, um dos mais altos do mundo. O Boletim Focus projeta a Selic em 13,50% até o fim do ano, mas agora as apostas de juros carregam um ingrediente novo: o cenário político pós-primeiro turno passou a entrar na conta dos analistas, ao lado de inflação e atividade. O próximo Copom, em 4 de novembro, deve ser lido com atenção redobrada por isso.
O paradoxo da renda fixa
Mesmo com cinco cortes consecutivos, o dinheiro no Brasil continua caro para quem toma emprestado e atraente para quem empresta. O Tesouro Direto captou recorde de cerca de R$ 40 bilhões, e os fundos de renda fixa receberam R$ 138 bilhões líquidos entre janeiro e agosto, 51% a mais que no mesmo período de 2025. Quase metade dessa procura, 46,9% em agosto, foi para títulos pós-fixados como o Tesouro Selic e o Tesouro Reserva — a escolha natural de quem não quer sobressalto com a volatilidade política.
O Safra, por sua vez, aponta os vencimentos intermediários como ponto de maior interesse no momento, com destaque para o Tesouro IPCA+ 2032, pagando a inflação mais 6,97% ao ano, além de manter o Tesouro Selic como peça de liquidez e proteção de carteira. Para quem considera CDBs, a Taxa DI em 13,65% ao ano serve de régua: papéis a 100% do CDI partem dessa referência bruta, e a 110% do CDI podem render perto de 15% ao ano, mantida a taxa estável.
Ouro: da euforia de janeiro à ressaca de outubro
O contraponto mais didático do mês vem do ouro. Em janeiro, o metal bateu recorde histórico de US$ 5.608,35, acumulando alta de mais de 90% em 12 meses e valorização de 22% só em 2026 — a prata embalou junto, batendo US$ 118 por onça-troy. Quem comprou perto do topo, perseguindo a alta, hoje sente o peso de ter entrado tarde: o ouro caiu mais de 10% nas últimas semanas e acumula recuo de 26% frente à máxima, cotado a US$ 4.112,71 em 7 de outubro.
A explicação está do outro lado do Atlântico: em 16 de setembro o Fed elevou os juros para a faixa de 3,75% a 4%, primeira alta desde 2023, com os mercados dando cerca de 70% de chance de nova elevação em dezembro. Como o ouro não paga juros nem dividendos, taxas americanas mais altas encarecem o custo de mantê-lo em carteira frente a títulos do Tesouro americano. É um lembrete valioso de que nenhum ativo é “seguro” o tempo todo — inclusive o ouro vive seus próprios ciclos de euforia e correção.
Ainda assim, seria simplista decretar o fim do movimento estrutural do metal. Bancos centrais compraram 289 toneladas líquidas só no segundo trimestre, alta de 62% ante igual período de 2025, e projeções de modelos macro globais apontam o ouro oscilando entre US$ 4.000 e US$ 4.300 no curto prazo, com estimativas de US$ 4.546,76 em 12 meses. Um salto mais forte exigiria um choque, como uma pausa inesperada do Fed ou escalada geopolítica.
O que fica da semana
Ibovespa em recorde, dólar em queda, Selic ainda elevada mesmo caindo, e ouro em correção depois de um rali histórico: são quatro movimentos que reforçam a mesma lição de sempre, só que mais evidente neste outubro — diversificação não é discurso de manual, é proteção prática contra a tendência humana de reagir tarde demais a qualquer euforia, seja ela política, de juros ou de metais preciosos.
Conteúdo produzido com apoio de inteligência artificial, com curadoria editorial de Maickel.
— Maickel, colunista de finanças