Ibovespa bate recorde, juros caem e dividendos mudam de regra: o que fazer com o dinheiro agora?
O investidor brasileiro acordou neste sábado diante de um cenário raro: a bolsa nas máximas históricas, os juros em trajetória de queda consistente e, ao mesmo tempo, uma inflação que voltou a dar sinais de resistência. Some-se a isso uma mudança estrutural na forma como o Brasil tributa dividendos, e fica claro por que outubro de 2026 vai entrar para a lista de meses que todo investidor deveria entender em detalhes — não para seguir modismo, mas para não ser pego de surpresa.
O rali do Ibovespa tem nome, sobrenome e data de validade incerta
Na sexta-feira, o Ibovespa fechou aos 209.066 pontos, alta de 1,38% no dia e de 8,82% na semana — o melhor desempenho semanal desde março de 2020. Mais simbólico ainda: o índice, corrigido pela inflação, superou em 5 de outubro o recorde real que vinha desde maio de 2008, ficando cerca de 3% acima daquele patamar. No ano, a alta acumulada já é de 29,7%.
É tentador tratar isso como puro fundamento econômico, mas os próprios gestores ouvidos nas apurações recentes são francos: o movimento tem relação direta com a expectativa em torno do segundo turno da eleição presidencial e com o fato de que investidores locais e estrangeiros estavam pouco alocados em ações brasileiras — ou seja, parte do rali é gente voltando para uma festa que não frequentava, não necessariamente gente descobrindo fundamentos novos. A isso se soma a queda dos juros futuros, que tira um pouco do brilho da renda fixa e empurra capital para a bolsa. Small caps e imobiliário, mais sensíveis a esse fluxo, dispararam ainda mais que o índice principal.
Vale o alerta de colunista: rali impulsionado por expectativa política tende a ser mais volátil que rali impulsionado por resultado de empresas. Não custa lembrar.
Juros caem, mas a inflação não colaborou em setembro
A Selic já caiu de 15% para 13,75% em cinco reuniões seguidas do Copom ao longo de 2026, com a próxima decisão marcada para 4 de novembro. É um ciclo relevante, que reduz o custo de oportunidade de ficar fora da bolsa. Só que o IPCA de setembro veio em 0,82%, bem acima da expectativa de mercado de 0,73%, puxado principalmente pela energia elétrica residencial — que subiu quase 8% após o fim do Bônus de Itaipu nas faturas — além de passagens aéreas e combustíveis. A inflação em 12 meses foi a 4,58%. Isso não muda o ciclo de corte da noite para o dia, mas é o tipo de dado que pode deixar o Banco Central mais cauteloso nas próximas reuniões — um contraponto que o mercado de ações, nesse momento eufórico, parece estar ignorando.
Ouro bate recorde, bitcoin ainda não recuperou o seu
Entre os ativos de proteção, as trajetórias divergiram bastante nos últimos 12 meses. O ouro teve o melhor ano desde 1979 em 2025 e ultrapassou US$ 5.000 por onça em fevereiro deste ano, embora tenha corrigido desde então e opere agora entre US$ 4.130 e US$ 4.200. Já o bitcoin segue cerca de 32% abaixo da máxima histórica de outubro de 2025, cotado hoje em torno de R$ 415 mil, com os ETFs americanos de bitcoin spot registrando a primeira saída líquida relevante no fim de setembro — sinal de que o apetite institucional arrefeceu depois do pico. É um bom momento para desconstruir a ideia simplista de que cripto é “o novo ouro digital”: neste ciclo, os dois ativos contaram histórias bem diferentes.
A mudança que mais afeta o bolso: fim da isenção de dividendos
Se o rali da bolsa é a notícia mais vistosa, a Lei 15.270/2025 é provavelmente a mais importante para quem vive de renda de ações. Desde 1º de janeiro, dividendos pagos a pessoas físicas acima de R$ 50 mil no mês passaram a sofrer retenção de 10% — e o detalhe que pega muita gente de surpresa é que, ao ultrapassar o limite, todo o valor do mês é tributado, não só o excedente. A boa notícia é que esse imposto funciona como antecipação, virando crédito na declaração anual, não um custo definitivo. Dividendos aprovados até 31/12/2025 ficam de fora da nova regra mesmo que pagos depois. JCP também ficou mais caro, com alíquota subindo de 15% para 17,5%. Para quem concentra patrimônio em ações pagadoras de proventos, vale revisar a estratégia com um contador — a conta mudou de verdade.
Entre euforia na bolsa, juros em queda, inflação teimosa e uma nova regra tributária em vigor, o investidor tem muito mais variáveis para acompanhar do que o manchete do dia sugere. Vale acompanhar com atenção — e sem pressa.
Conteúdo produzido com apoio de inteligência artificial, com curadoria editorial de Maickel.
— Maickel, colunista de finanças