Com Bolsa em recorde e dólar a R$ 4,98, mercado já precifica Flávio Bolsonaro — mas risco de reversão é real
O mercado financeiro brasileiro entrou na reta final da eleição de 2026 com um veredito provisório já dado pelos preços. Depois do primeiro turno, em que Flávio Bolsonaro (PL) surpreendeu ao tirar mais de 2,2 milhões de votos de frente de Lula (PT), o Ibovespa emendou recordes sucessivos e o dólar despencou. Na sexta-feira, 9 de outubro, a moeda americana fechou a R$ 4,985, acumulando queda de 4,43% na semana — a maior retração pós-primeiro-turno desde o Plano Real, em 1994. No mesmo dia, o Ibovespa bateu novo recorde histórico, aos 209.066,90 pontos. As pesquisas mais recentes para o segundo turno, marcado para 25 de outubro, davam a Flávio 52% das intenções de voto contra 48% de Lula.
O dinheiro estrangeiro comprou a eleição — o brasileiro, nem tanto
Um dos números mais expressivos do período: só na segunda-feira seguinte ao primeiro turno, o capital estrangeiro injetou R$ 10 bilhões na Bolsa brasileira em um único dia, o maior fluxo intradia já registrado na B3, superando o recorde anterior de abril. No acumulado de 2026, o fluxo externo está positivo em R$ 40 bilhões, enquanto as pessoas físicas seguem negativas em R$ 354 milhões — um contraste que mostra o investidor institucional estrangeiro apostando no resultado, enquanto o pequeno investidor brasileiro segue cauteloso. Vale um adendo técnico: esse indicador de fluxo da B3 mede o saldo entre compras e vendas de estrangeiros no mercado acionário, não necessariamente dinheiro novo entrando no país — é um detalhe que evita simplificações sobre “capital estrangeiro invadindo o Brasil”.
Parte do otimismo tem endereço certo: um relatório do JPMorgan apontou potencial de valorização de até 28% na Bolsa em caso de vitória de Flávio Bolsonaro, e o Goldman Sachs trabalha com uma faixa de câmbio entre R$ 4,50 e R$ 4,80 em cenário considerado favorável aos mercados.
O outro lado da moeda: quanto pode doer se a aposta errar
Nem tudo é euforia. Consultores vêm montando cenários de estresse caso o resultado final não confirme as apostas atuais. Um deles, da ZERO Markets Brasil, projeta queda de até 25% do Ibovespa, dólar entre R$ 5,50 e R$ 6 e juros longos entre 14% e 18% ao ano nesse cenário adverso — números de estresse, não uma projeção de consenso. A observação mais importante aqui talvez seja conceitual: a velocidade com que a Bolsa subiu e o dólar caiu depois do primeiro turno mostra como os preços reagem rápido a mudanças de expectativa, mas isso não garante continuidade. A pergunta que todo investidor deveria se fazer não é só “quanto ainda posso ganhar”, mas “o retorno potencial compensa o risco de perder se o cenário não se confirmar”.
Por trás da volatilidade, uma conta fiscal que não fecha
O pano de fundo econômico é pesado. Com 58% da dívida pública atrelada à Selic, a política monetária tem efeito direto sobre o custo do endividamento público. As projeções para 2027 já divergem fortemente: o governo prevê superávit primário de R$ 18,6 bilhões, enquanto a Instituição Fiscal Independente estima déficit de R$ 86,1 bilhões — uma diferença que, em outra leitura, chega a R$ 104,8 bilhões, bastante explicada pelas premissas distintas de crescimento do PIB (2,5% do governo contra 1,8% da IFI).
As propostas dos candidatos divergem na forma de atacar o problema. Flávio Bolsonaro promete um “tesouraço” de R$ 250 bilhões inspirado em Javier Milei, com enxugamento da máquina pública, redução de ministérios e retomada de privatizações. Lula aposta na manutenção do arcabouço fiscal atual, com controle do crescimento de despesas, revisão de isenções tributárias e maior progressividade na arrecadação. Um economista ouvido pelo jornal O Povo resumiu o ceticismo reinante: não haveria hoje “aposta certeira” em nenhum dos dois candidatos quanto à disposição real de fazer um ajuste fiscal consistente — e o custo da dívida, da ordem de R$ 1,2 trilhão em juros, segue pressionando espaço para investimentos em saúde e educação.
O que fazer com a carteira neste momento
Para quem já tem posições montadas, o conselho recorrente entre especialistas é evitar movimentos bruscos: controlar o risco dos ativos existentes e considerar realização de lucro onde o resultado já foi expressivo, em vez de tentar acertar o timing eleitoral. Quem ainda não está na Bolsa pode avaliar uma entrada gradual, desde que com horizonte de pelo menos cinco anos — não como aposta de curto prazo.
Sobre o tamanho de uma eventual exposição tática ao tema eleitoral, o consenso entre gestoras é de moderação: a AW Capital sugere limitar essas apostas a cerca de 5% do patrimônio para investidores já estruturados; a Privatto detalha por perfil — 3% para conservadores, 5% para moderados e 7% para agressivos, com o ETF BOVA11 concentrando a maior parte dessa fatia.
Relatórios de bancos como o BTG já desenham carteiras para cada desfecho: um resultado lido como positivo pelo mercado favoreceria instituições financeiras como B3, XP e BTG Pactual, além de Rede D’Or, Cyrela, Petrobras e Motiva; uma vitória petista, por sua vez, beneficiaria nomes como Cury, Embraer, WEG e o próprio BTG. O Itaú aparece citado pelo Santander como alternativa mais “defensiva” ao ciclo eleitoral, dado seu porte e resultado recente — o banco reportou lucro líquido recorrente de R$ 12,4 bilhões no segundo trimestre de 2026. Fica o registro, sem qualquer recomendação de compra: são leituras de mercado, não certezas.
Renda fixa: o porto seguro tem letras miúdas
Para quem prefere ficar fora da aposta eleitoral, a renda fixa pós-fixada segue como alternativa de menor volatilidade, com a Selic em 13,75% ao ano. Mas vale entender a mecânica: a incerteza eleitoral pressiona os juros futuros para cima, porque o mercado exige prêmio de risco maior para financiar a dívida pública — e isso afeta diretamente títulos como Tesouro IPCA+ e Tesouro Prefixado, que sofrem marcação a mercado quando as taxas sobem. Um exemplo ajuda a dimensionar o risco: um investidor que tenha comprado Tesouro IPCA+ 2035 a uma taxa real de 6,2% ao ano pode ver o preço do papel cair cerca de 4% no mercado secundário se o prêmio de risco subir 50 pontos-base — em R$ 30 mil aplicados, uma perda potencial de R$ 1.200 caso precise resgatar antes do vencimento. Quem leva o título até o fim recebe exatamente o combinado; o risco é só para quem precisa de liquidez no meio do caminho.
Para comparação estrutural, vale lembrar a diferença entre as aplicações mais populares entre brasileiros: a poupança rende entre 6% e 6,5% ao ano, contra 13,5% a 14% do Tesouro Selic — ambos com liquidez rápida, mas com tributação diferente, já que a poupança é isenta de Imposto de Renda e o Tesouro segue a tabela regressiva, de 15% a 22,5%.
O Copom, em sua última reunião, em 16 de setembro, reduziu a Selic de 14% para 13,75% ao ano, no quinto corte consecutivo. Com o segundo turno batendo à porta, dia 25 de outubro, o recado dos especialistas converge para um único ponto: calibrar exposição, entender os riscos de cada ativo e evitar decisões movidas por euforia ou pânico de curto prazo.
Conteúdo produzido com apoio de inteligência artificial, com curadoria editorial de Maickel.
— Maickel, colunista de finanças