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Ouro a US$ 4.200 ou Selic a 13,75%: o dilema do investidor brasileiro em meio à corrida pelo metal

Enquanto o mundo corre atrás de barras de ouro como se 2026 fosse um ano de colapso iminente, o investidor brasileiro vive um dilema peculiar: tem em casa um dos juros reais mais altos do planeta. A pergunta que fica é simples de formular e difícil de responder — vale a pena abrir mão da renda fixa turbinada pela Selic para correr atrás de um ativo que já subiu mais de 65% em um único ano?

A disparada do ouro não tem precedentes recentes

O movimento começou a ganhar corpo em 2024, quando a onça do metal orbitava os US$ 2.060. Em 2025, veio o salto: mais de 65% de valorização, com recordes sucessivos sendo quebrados ao longo do ano, incluindo a marca histórica de US$ 4.100 em outubro, puxada por tensões comerciais entre EUA e China e pela expectativa de cortes de juros do Federal Reserve. Mas foi em janeiro de 2026 que o mercado assistiu a algo realmente inédito: o ouro rompeu a barreira dos US$ 5.000 por onça, acumulando 15% de alta só nos primeiros 30 dias do ano. Por trás disso, um coquetel de fatores: mudanças bruscas na política do governo Trump, que alimentaram incerteza geopolítica, e uma corrida de bancos centrais — China e Índia à frente — para diversificar reservas e reduzir a dependência do dólar.

Mais recentemente, em outubro de 2026, o contrato futuro de ouro fechou em US$ 4.220,30, após alta de 1,52% no pregão, com a faixa de 52 semanas variando de US$ 3.890,70 a US$ 5.626,80 — sinal de que, apesar de alguma correção desde o pico, o metal segue muito acima dos patamares de poucos anos atrás. Um gatilho pontual chama atenção: o preço disparou após a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelos EUA e a ameaça de Trump contra o regime, mostrando como eventos geopolíticos específicos continuam movendo o mercado de metais quase em tempo real.

As projeções de bancos grandes não deixam dúvida sobre o otimismo predominante. A Société Générale já apostava nos US$ 5.000 para 2026. O Goldman Sachs elevou sua estimativa para US$ 5.400, e o diretor de investimentos do Bank of America, Michael Hartnett, chegou a falar em um pico acima de US$ 6.000. Vale a ponderação: são projeções, não certezas, e o histórico recente do próprio ouro — com voos e correções dentro do mesmo ano — mostra que a trajetória está longe de ser uma linha reta.

Como o brasileiro tem acessado essa alta pela B3

Para quem quer exposição ao ouro sem sair do mercado local, a B3 já oferece pelo menos quatro ETFs. O GOLD11, pioneiro lançado em 2020 pela XP Vista Asset Management, investe a maior parte do patrimônio em cotas do iShares Gold Trust, replicando o índice LBMA Gold Price, com taxa total aproximada de 0,55% ao ano. Em março de 2026, sua cota estava em R$ 28,77, com variação de +69,94% no ano — um número que ajuda a explicar por que a liquidez do fundo passou de R$ 35 milhões diários. Já o GOLB11, da BTG Pactual, chegou em 2025 como o primeiro ETF de futuro de ouro da bolsa brasileira, cotado a R$ 116,55 em abril. Há ainda o OURO11, que replica o mercado futuro local, e o GLDX11, atrelado ao Solactive Gold Spot Index.

O outro lado da moeda: a Selic ainda paga muito

É aqui que mora o verdadeiro dilema. O Banco Central vem cortando juros de forma consistente em 2026, mas de um patamar extremamente elevado: a Selic ficou em 15% entre junho de 2025 e março de 2026, o nível mais alto desde julho de 2006. Desde então, o Copom reduziu a taxa em seis reuniões seguidas, sempre em passos de 0,25 ponto, até chegar aos atuais 13,75% em setembro, decisão tomada por unanimidade. A ata reconheceu evidências mais robustas de desaceleração da economia, confirmadas pelo PIB do segundo trimestre e pelo enfraquecimento do crédito mais sensível aos juros.

Mesmo assim, com o IPCA acumulado em 4,22% em 12 meses, o juro real brasileiro ainda roda em torno de 9,14% ao ano — um dos maiores do mundo. Na prática, R$ 1.000 aplicados em CDB ou Tesouro Selic renderiam cerca de R$ 112,61 em 12 meses, contra apenas R$ 82,63 da poupança, que segue penalizada pela regra da TR quando a Selic supera 8,5%. O Boletim Focus, aliás, não vê novos cortes até dezembro: o mercado trabalha com a Selic fechando o ano nos mesmos 13,75%.

E o Bitcoin, o outro “porto seguro” da moda?

Vale o contraponto: nem todo ativo tratado como proteção se saiu bem em 2026. O Bitcoin, que chegou a ser projetado pelo JPMorgan para os US$ 170 mil, opera hoje cerca de 32% abaixo de sua máxima histórica de US$ 126.080. Em 11 de outubro, era negociado a US$ 83.017, com queda acumulada de 2,1% na semana, mesmo após um breve repique batizado de “Uptober”. A comparação ajuda a relativizar a narrativa simplista de que “ativos alternativos” caminham sempre juntos — o ouro brilhou, as criptomoedas, não.

O que fica para o investidor

A decisão entre manter a carteira pesada em renda fixa ou abrir espaço para o ouro como seguro geopolítico não tem resposta pronta, e qualquer um que ofereça uma sem considerar o perfil, prazo e tolerância a risco de cada investidor está simplificando demais um problema complexo. O que os números deixam claro é que o Brasil, mesmo em ciclo de corte de juros, ainda remunera generosamente quem fica na renda fixa — enquanto o mundo lá fora aposta cada vez mais pesado contra a confiança nas moedas tradicionais. A reunião do Copom marcada para 3 e 4 de novembro deve dar a próxima pista sobre até onde esse ciclo de cortes vai, e é um bom ponto para observar se o apetite por ouro dos brasileiros continua crescendo mesmo com o juro real ainda nas alturas.

Conteúdo produzido com apoio de inteligência artificial, com curadoria editorial de Maickel.

— Maickel, colunista de finanças

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