Eleição, Selic e fim da isenção de dividendos: o tripé que vai decidir sua carteira até dezembro
Outubro de 2026 está entregando, em poucas semanas, material suficiente para reescrever o manual de finanças pessoais de qualquer investidor brasileiro. De um lado, a bolsa vive um rali histórico puxado pela disputa presidencial. De outro, uma lei que encerra quase 30 anos de isenção sobre dividendos muda definitivamente a conta de quem vive de renda de ações ou é sócio de empresa. E no meio disso tudo, o Banco Central segue cortando juros a um ritmo que parece não se intimidar com o barulho político. Vamos por partes.
O rali eleitoral e o risco de embarcar atrasado
O Ibovespa não andou, correu. Depois do primeiro turno, com Flávio Bolsonaro (PL) terminando à frente de Lula (PT), o índice disparou 7,70% em um único pregão, 5 de outubro, rompendo os 200 mil pontos pela primeira vez. A semana seguinte confirmou o movimento: alta de 8,82%, a melhor desde março de 2020, levando o Ibovespa a 209.066,90 pontos — recorde histórico, com giro financeiro de R$ 56,5 bilhões na sexta-feira (9/10). No acumulado, outubro já marca 12,2% de alta e o ano fecha em 29,7%. O dólar fez o movimento espelhado, caindo de R$ 5,22 para menos de R$ 5, embora tenha fechado a R$ 5,0289 em 14 de outubro, ainda acumulando queda de 2,82% no mês.
Chama atenção que o apetite não ficou restrito às blue chips: o índice de small caps (SMLL) subiu 20,14% na semana e o setor imobiliário (IMOB) avançou 20,77%. Magazine Luiza (MGLU3) sozinha saltou 19,22% no dia e acumula mais de 55% só em outubro — um retrato de como o varejo doméstico reage rápido à perspectiva de juros menores e consumo mais aquecido. Fernando Siqueira, da Eleven Financial, resume bem o pano de fundo: o mercado brasileiro estava “muito pouco alocado em ações”, tanto por locais quanto por estrangeiros, e isso explica parte do movimento além do fator eleitoral puro. O Banco Central confirma: entrada líquida de US$ 4,127 bilhões pelo canal financeiro só entre 5 e 9 de outubro.
Aqui entra o ponto que todo colunista de finanças tem obrigação de levantar: rali forte não é sinônimo de aposta segura. Há cenários de estresse sendo discutidos — uma análise da ZERO Markets chega a cogitar queda de até 25% no Ibovespa, dólar entre R$ 5,50 e R$ 6 e juros longos entre 14% e 18% caso o quadro eleitoral se inverta até o segundo turno, em 25 de outubro. Não é previsão de consenso, é cenário de estresse, mas ilustra a dimensão do risco binário que o mercado está precificando. Para quem ficou de fora da alta e sente a tentação de “recuperar o tempo perdido” com uma entrada grande e única, o consenso entre educadores financeiros é claro: construir posição de forma fracionada e recorrente tende a ser mais prudente do que apostar tudo num único preço, especialmente às vésperas de um evento binário como uma eleição.
Selic em queda, mas sem pressa
Enquanto a bolsa faz história, o Copom segue seu roteiro sem sobressaltos. A Selic caiu de 14% para 13,75% em 16 de setembro, quinto corte consecutivo de 0,25 ponto desde março, depois de passar quase um ano em 15% — o maior patamar em duas décadas. Não há reunião em outubro: a próxima decisão só sai em 4 de novembro, já com o resultado do segundo turno decidido. A ata de setembro trouxe um dado relevante para quem acompanha o ciclo de perto: o colegiado reconheceu sinais mais robustos de desaceleração da atividade, confirmados pelo PIB do segundo trimestre e pelo enfraquecimento do crédito livre. Mesmo assim, o texto reforça cortes graduais de 0,25 ponto, sem espaço para acelerar o ritmo — e isso apesar do Focus mais recente mostrar o mercado elevando a projeção de inflação para 2026 a 5,22%, acima do teto da meta de 4,5%.
Para quem monta carteira de renda fixa, o momento ainda favorece títulos indexados à inflação de médio e longo prazo. O Tesouro IPCA+ chegou a entregar mais de 14% de valorização só com o resultado do primeiro turno — um bom exemplo prático de marcação a mercado para quem ainda confunde “título seguro” com “título sem oscilação de preço”.
O fim da isenção de dividendos muda o jogo
Se o rali eleitoral é o tema do mês, a Lei nº 15.270/2025 é o tema da década para quem investe em ações ou é sócio de empresa. Sancionada sem vetos em novembro de 2025 e aprovada por unanimidade na Câmara e no Senado, ela encerra quase 30 anos de isenção sobre dividendos, com efeitos desde 1º de janeiro de 2026. Duas engrenagens merecem atenção. Primeiro, a retenção mensal na fonte: 10% de IR sobre dividendos que uma mesma empresa paga a uma mesma pessoa física quando o total mensal ultrapassa R$ 50 mil — limite apurado por CNPJ pagador e CPF beneficiário. Segundo, o imposto mínimo anual (IRPFM) para quem tem base de cálculo acima de R$ 600 mil por ano, com alíquota progressiva até 10% entre R$ 600 mil e R$ 1,2 milhão, e fixa em 10% acima disso.
Um detalhe técnico que costuma passar batido: dividendos não entram automaticamente nessa conta. Eles só integram a base do imposto mínimo se o contribuinte ultrapassar o teto de renda e se os valores distribuídos estiverem dentro do lucro efetivamente apurado pela empresa. Lucros apurados até 2025, devidamente formalizados, ficam protegidos pela regra de transição e não entram nessa base em nenhuma hipótese. Há ainda um teto pensado para evitar bitributação: a soma da carga como pessoa jurídica e pessoa física não pode superar 34% do valor dos dividendos (45% para financeiras). Do outro lado da régua, a reforma trouxe isenção de IR para quem ganha até R$ 5 mil por mês e redução para quem ganha até R$ 7.350 — a contrapartida que viabilizou o apoio unânime no Congresso.
O que fica para quem investe
Diversificação segue sendo, como resume Leonardo Morales, da SVN Gestão, “o único almoço grátis que a pessoa física tem”: renda variável e renda fixa combinadas, prefixado e IPCA convivendo, alguma exposição em dólar. Vale também o alerta sobre risco político específico — gestores recomendam limitar exposição a estatais a algo como 10% da carteira para quem não quer carregar risco de manchete, e diluir aportes em ações ao longo de vários meses em vez de concentrar tudo antes do segundo turno. Para quem já embolsou ganhos expressivos no rali recente, a realização parcial de lucros ganha relevância justamente pela incerteza eleitoral ainda em aberto. E para o longo prazo, independente de quem vencer em 25 de outubro, manter entre 15% e 25% da carteira em ativos dolarizados segue sendo uma régua razoável de proteção patrimonial — desde que não se confunda isso com aposta tática de curto prazo no câmbio, terreno abertamente desaconselhado para quem não é investidor profissional.
Conteúdo produzido com apoio de inteligência artificial, com curadoria editorial de Maickel.
— Maickel, colunista de finanças