Mercado em foco — 15 de agosto
Bom dia! Fechada mais uma semana de pregão no Brasil, e o retrato deixado pelo mercado nesta sexta-feira (14/08) não é dos mais animadores para quem acompanha de perto o humor dos investidores. O Ibovespa encerrou em queda de 0,1%, aos 166.934,20 pontos — o nono pregão seguido em território negativo, uma sequência que já preocupa quem observa o fluxo de capital estrangeiro saindo da bolsa brasileira. No acumulado da semana, o principal índice acionário do país perdeu 3,23%.
Dólar renova máxima e completa quinta alta seguida
Do lado cambial, o cenário reforça a cautela: o dólar avançou 0,61% e fechou cotado a R$ 5,2213 na venda, maior valor desde 30 de março. Foi a quinta sessão consecutiva de valorização da moeda americana frente ao real — a sequência mais longa desde dezembro do ano passado — e, na semana, o avanço acumulado chegou a 2,7%. Ainda assim, vale o contraponto: no acumulado de 2026, o dólar segue com desvalorização de quase 5% frente à moeda brasileira, um lembrete de que fotografias de curto prazo nem sempre contam toda a história.
JPMorgan reduz aposta no Brasil
Parte do nervosismo recente tem endereço certo: na terça-feira (11/08), o JPMorgan rebaixou sua recomendação para ativos brasileiros de “overweight” (acima da média) para neutro, encerrando um ciclo de otimismo que durava desde março de 2025. O banco também reduziu a projeção para o Ibovespa ao fim de 2026, de 190 mil para 185 mil pontos. Entre os motivos citados estão a proximidade do fim do ciclo de flexibilização monetária, sinais de desaceleração da atividade econômica, deterioração de crédito e, sobretudo, o aumento da volatilidade associado à corrida eleitoral de outubro. A instituição ainda projeta um último corte de 0,25 ponto percentual na Selic em setembro, seguido por uma pausa longa que deve se estender até o segundo trimestre de 2027.
Eleição já mexe com os preços
Falando em eleição: uma pesquisa CNT/MDA divulgada nos últimos dias mostrou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva com vantagem sobre Flávio Bolsonaro — 42,4% a 28,7% —, reforçando o favoritismo do atual mandatário a menos de três meses do primeiro turno. Cenários eleitorais mais definidos costumam ser lidos pelo mercado como redução de incerteza, mas o efeito colateral, por ora, tem sido o oposto: investidores preferem reduzir exposição e esperar mais clareza, especialmente diante da falta de um plano de contingência fiscal mais robusto para os próximos anos.
Lá fora, o clima é outro
O contraste com o exterior chama atenção. Wall Street também recuou na sexta-feira — o S&P 500 caiu 0,2%, o Dow Jones perdeu 107 pontos (também 0,2%) e o Nasdaq cedeu 0,3% —, mas o motivo foi bem mais ameno: um dado de vendas no varejo americano veio mais fraco do que o esperado, tirando os índices de máximas históricas recém-atingidas. Mesmo com a leve correção, as bolsas americanas fecharam a terceira semana seguida no positivo, a melhor sequência desde uma série de nove semanas de alta encerrada em maio. Ou seja: enquanto o mercado americano navega em zona de conforto e corrige de forma pontual, o brasileiro carrega um pacote mais pesado de incertezas locais — política, fiscal e monetária — que pesa no apetite por risco por aqui.
O que fica da semana
Nenhum desses movimentos, isoladamente, muda o quadro estrutural da economia brasileira. Mas a combinação de rebaixamento de recomendação por um banco global, dólar em alta persistente e ruído eleitoral crescente é o tipo de coquetel que costuma aumentar a volatilidade nos próximos meses — não só na bolsa, mas também no câmbio e nos juros futuros. Para quem investe com horizonte mais longo, momentos assim tendem a testar a paciência mais do que a estratégia. Vale menos tentar acertar o próximo movimento de curto prazo e mais garantir que a carteira está de fato alinhada ao perfil de risco e aos objetivos de cada um — sobretudo num ano em que a política vai, de fato, entrar na conta.
Até a próxima coluna.
Maickel