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Tokenização de ativos: a nova fronteira do mercado de capitais brasileiro

Enquanto boa parte do noticiário financeiro se concentra na abertura e no fechamento do pregão, uma transformação mais silenciosa vem ganhando corpo no mercado de capitais brasileiro: a tokenização de ativos. Nos primeiros seis meses de 2026, esse mercado movimentou R$ 4,84 bilhões em emissões no Brasil, um crescimento superior a 122% na comparação com o mesmo período do ano passado. É um número grande o suficiente para deixar de ser curiosidade de nicho e passar a exigir atenção de qualquer investidor que pensa em prazo mais longo.

O que é, afinal, um ativo tokenizado

Tokenizar um ativo significa representar digitalmente, em blockchain, o direito sobre algo que existe no mundo real ou no sistema financeiro tradicional: um recebível, uma debênture, uma nota comercial, uma cota de fundo, um imóvel ou até um crédito de carbono. Esses ativos são chamados de RWA — “real world assets”. Na prática, o token funciona como um registro de propriedade programável, que pode ser fracionado, negociado e liquidado com mais agilidade do que os instrumentos tradicionais, sem depender inteiramente da estrutura de custódia e liquidação que conhecemos hoje.

Não é criptomoeda no sentido especulativo que ficou popular há alguns anos. É, antes, uma mudança de infraestrutura: a forma como o direito sobre um ativo é registrado e transferido, não necessariamente o ativo em si.

Os números da virada de patamar

Alguns dados ajudam a dimensionar o momento. A CCB (Cédula de Crédito Bancário) tokenizada já responde por mais de R$ 1,04 bilhão em emissões no Brasil, cerca de um terço do mercado local. Fora daqui, o volume de ações tokenizadas cresceu 140% em 2026, saindo de US$ 814 milhões para perto de US$ 2 bilhões em capitalização ativa. Em escala global, projeções de bancos e consultorias apontam para um mercado de RWA que pode chegar a US$ 18,9 trilhões até 2033 — um salto que, mesmo com a margem de erro natural desse tipo de projeção, indica para onde o capital institucional está olhando.

No Brasil, o discurso mudou: a tokenização deixou de ser tratada como experimento de laboratório e passou a ser vista como infraestrutura complementar ao mercado de capitais, usada por originadores e tokenizadoras para captação, distribuição e rastreabilidade de ativos que antes ficavam restritos a investidores institucionais ou a estruturas caras de securitização.

A regulação ainda está sendo desenhada

É aqui que cabe um alerta de bom senso. A CVM criou uma divisão técnica dedicada ao tema e um grupo de trabalho específico de tokenização, com a missão de propor, ainda em 2026 e 2027, um regime regulatório experimental para valores mobiliários tokenizados. Entre os pontos em debate está a possível dispensa do agente fiduciário em algumas estruturas — uma simplificação que reduz custos, mas que também retira uma camada de proteção que hoje protege o investidor menos experiente.

Em outras palavras: a tecnologia já anda mais rápido do que as regras que vão cercá-la. Isso não é motivo para descartar o tema, mas é motivo para tratá-lo com a cautela que qualquer inovação de mercado em fase de maturação exige — inclusive porque nem toda “tokenizadora” ou plataforma que oferece esses produtos tem o mesmo nível de governança, custódia e transparência.

O que fica para quem acompanha o mercado

Tokenização não é uma classe de ativo — é uma forma de embalar e distribuir ativos que já existem, com potencial para reduzir custos de acesso, aumentar a liquidez de mercados historicamente ilíquidos (crédito privado, recebíveis, imóveis) e ampliar a base de investidores que consegue participar de operações antes restritas a grandes tíquetes. É uma tendência estrutural, não um modismo passageiro, e tende a se tornar cada vez mais presente em plataformas de investimento ao longo dos próximos anos.

Ao mesmo tempo, vale lembrar que “estar na blockchain” não torna um ativo automaticamente mais seguro, mais líquido ou mais rentável — a qualidade do crédito ou do ativo subjacente continua sendo o que determina o risco real da operação. A embalagem tecnológica facilita o acesso; não substitui a análise sobre o que, de fato, está sendo comprado.

Minha visão

Acompanho a tokenização como um dos temas mais relevantes de infraestrutura financeira desta década, no mesmo patamar de importância que teve a digitalização das corretoras nos anos 2000. Mas relevância estrutural não é sinônimo de urgência para o investidor individual. Faz sentido entender o tema, acompanhar como a regulação da CVM evolui e observar de que forma as plataformas em que você já investe vão incorporar esses produtos — sem pressa para migrar posições apenas porque a palavra “tokenizado” virou moda. Como em toda inovação financeira, o tempo separa quem constrói infraestrutura sólida de quem apenas surfa a narrativa. Vale a pena esperar essa separação ficar mais clara antes de aumentar exposição ao tema.

Maickel

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