Selic a 14%, ouro em correção e eleição à vista: o quebra-cabeça do investidor em agosto de 2026
Se tem uma palavra que resume o cenário para quem investe no Brasil neste fim de agosto de 2026, é ambiguidade. A Selic cai, mas segue altíssima. O ouro desabou 25% depois de bater recorde histórico. O bitcoin se recupera, mas ainda está bem longe do topo. E, no meio disso tudo, a corrida eleitoral já começa a mexer com o humor da bolsa. Vale a pena destrinchar cada uma dessas frentes, porque elas conversam entre si mais do que parece à primeira vista.
Juros em queda, mas ainda os mais altos do mundo em termos reais
O Copom cortou a Selic pela quarta vez seguida neste ciclo, levando a taxa a 14% ao ano na reunião dos dias 4 e 5 de agosto — decisão unânime, presidida por Gabriel Galípolo. O mercado acertou o tamanho do corte, mas foi surpreendido pelo tom mais duro do comunicado, sinal de que o Banco Central não está nada confortável em acelerar o afrouxamento. Faz sentido: o IPCA acumulado em 12 meses ficou em 4,44% em julho, acima do centro da meta de 3%, embora dentro da banda de tolerância. A próxima decisão sai em 15 e 16 de setembro, e o Focus já projeta a Selic fechando o ano em 13,75%.
Um detalhe que costuma passar batido no debate cotidiano, mas que é central: hoje a Selic é a maior taxa de juros real do mundo, descontada a inflação. Isso é ótimo para quem tem dinheiro aplicado e péssimo para quem depende de crédito — e ajuda a explicar por que o consumo e o crédito seguem tão sensíveis a cada decisão do Copom.
Do lado externo, o Fed manteve os juros americanos entre 3,5% e 3,75% pela quinta reunião seguida, já sob o comando de Kevin Warsh. Esse diferencial de juros entre Brasil e EUA é o que sustenta o real e trava um corte mais rápido da Selic: qualquer sinal de fuga de capital pressiona o câmbio e “importa” inflação de volta para cá.
O susto tributário que não vingou: LCI, LCA, CRI e CRA seguem isentos
Para quem guarda dinheiro em renda fixa isenta, 2026 começou com um alívio importante. Em 2025, o governo editou a MP 1.303 tentando cobrar 5% de IRRF sobre rendimentos de LCI, LCA, CRI, CRA e debêntures incentivadas emitidas a partir de janeiro de 2026 — e chegou a se falar em uma alíquota única de até 18% para unificar a tributação de aplicações financeiras. Nada disso avançou: a medida caducou em 8 de outubro de 2025, depois de ser retirada de pauta na Câmara e não ser votada dentro do prazo constitucional de 120 dias. Uma derrota clara para o governo.
Na prática, isso significa que LCI, LCA, CRI e CRA seguem isentos de Imposto de Renda para pessoa física em 2026, mantendo um benefício que existe desde 2004. Mas atenção: isento não significa dispensado de declarar. Quem já é obrigado a entregar a declaração do IR precisa informar qualquer saldo em LCI, LCA ou debênture que ultrapasse R$ 140 em 31 de dezembro. Vale lembrar que essa isenção nasceu para incentivar financiamento de setores como imóveis e agronegócio, e parte do mercado ainda questiona se o benefício não acabou concentrado em investidores de renda mais alta, sem cumprir plenamente seu propósito original — um debate que deve voltar à mesa em algum momento, mesmo com a derrota da MP.
Ouro: do recorde histórico ao tombo de 25%
Poucos ativos tiveram um 2026 tão dramático quanto o ouro. Em janeiro, o metal chegou a bater US$ 5.594 a onça-troy — recorde histórico, puxado por bancos centrais asiáticos comprando pesado e por um cenário geopolítico tenso. Só que, no dia seguinte ao pico, caiu 9% e depois deslizou até mínimas de US$ 4.400. No acumulado, a correção já passa de 25% frente ao topo de janeiro.
O motivo é quase irônico: o mercado esperava corte de juros nos EUA e passou a projetar o oposto — pelo menos uma alta do Fed até outubro. Como resume um estrategista citado na apuração, “o metal não paga juro nenhum”, então perde atratividade quando os títulos americanos voltam a render mais. Vale contextualizar a escalada: o ouro valia US$ 2.060 em 2024, subiu 65% em 2025 e ainda avançou 15% só no primeiro mês de 2026 antes da virada. Se essa correção é ponto de entrada ou o fim de um ciclo, é uma pergunta em aberto — e que exige cautela redobrada de quem pensa em se posicionar no metal.
Bitcoin em recuperação, mas ainda longe do topo
O bitcoin também vive uma montanha-russa. Em 27 de agosto, era negociado a US$ 79.987, com alta de 2% no dia — mas ainda 36,9% abaixo da máxima histórica de US$ 126.080. O índice de Medo e Ganância chegou a marcar “medo extremo” em 6 de agosto e reverteu rapidamente para ganância nas semanas seguintes, um sinal de como o sentimento do mercado cripto segue instável. Relatórios apontam que grandes detentores (as chamadas “baleias”) passaram de vendedoras a compradoras, o que ajuda a explicar a recuperação recente, ligada mais a fatores macroeconômicos do que a notícias específicas do setor.
Ibovespa nas máximas, mas com estrangeiro saindo
A bolsa brasileira também surpreende: mesmo com saída recorde de capital estrangeiro, o Ibovespa segue renovando máximas ao longo do ano, chegando perto dos 200 mil pontos em abril. Em 25 de agosto, fechou aos 174.576 pontos, quinta alta seguida, ainda que no acumulado do mês esteja negativo em quase 2%. Esse descompasso entre fluxo estrangeiro e desempenho do índice tem deixado investidores locais em dúvida sobre até quando a tendência de alta se sustenta.
O fator eleitoral entra no radar
2026 é ano de eleição, e isso já aparece nos preços. Segundo analistas, o principal canal de transmissão da política para o mercado é o fiscal — e o estresse em torno da sustentabilidade das contas públicas tende a se intensificar conforme a campanha avança. Pesquisas recentes mostram Lula na frente de Flávio Bolsonaro tanto no primeiro quanto no segundo turno, com vantagens que variam conforme o instituto. Movimentos nessas pesquisas já se refletiram na bolsa: em 20 de agosto, a redução da vantagem de Lula coincidiu com forte demanda por opções de compra no Ibovespa. É um lembrete de que, deste ponto em diante, cada nova pesquisa eleitoral pode se tornar tão relevante para os mercados quanto os próprios dados econômicos.
Conteúdo produzido com apoio de inteligência artificial, com curadoria editorial de Maickel.
— Maickel, colunista de finanças