Selic em queda, bolsa em recorde e famílias mais endividadas do que nunca: o Brasil bifurcado de 2026
Agosto de 2026 expõe um Brasil de duas velocidades. De um lado, quem tem dinheiro para investir nunca viu tantas oportunidades ao mesmo tempo: Ibovespa batendo recordes sucessivos, Tesouro Direto pagando juros reais historicamente altos e uma Selic que, mesmo em queda, ainda remunera generosamente o capital aplicado. Do outro lado, 82% das famílias brasileiras estão endendividadas — o maior percentual da série histórica iniciada em 2010, segundo a Peic, da CNC. Como colunista, é difícil não enxergar nisso um retrato nítido de um país que aprendeu a conviver com juros de dois dígitos, mas ainda não aprendeu, no agregado, a lidar com crédito.
O ciclo de corte da Selic e o que vem por aí
O Copom reduziu a Selic para 14% ao ano na reunião de 4 e 5 de agosto, quarto corte consecutivo em 2026, em decisão unânime. A taxa segue restritiva — acima do que o Banco Central considera neutro — mas a trajetória é claramente de queda. O IPCA rodava em 4,44% em 12 meses até julho, dentro da banda de tolerância da meta, mas ainda acima do centro de 3%. O mercado, via Boletim Focus, projeta Selic em 13,75% no fim deste ano, recuando para 12% em 2027 e 10,5% em 2028. A próxima decisão do Copom sai em 15 e 16 de setembro, e o IPCA de agosto deve ser divulgado por volta do dia 10 do mesmo mês — dois termômetros importantes para quem tenta antecipar o ritmo dos próximos cortes.
Tesouro Direto: a janela que pode estar se fechando
Foi justamente esse pano de fundo de juros altos, mas com sinalização de queda, que produziu um episódio de forte estresse na curva em 14 de agosto. Nesse dia, as taxas dos títulos públicos dispararam, com o Tesouro IPCA+ de vencimentos longos oferecendo juro real acima de IPCA + 6,65% ao ano e prefixados de 2029 e 2031 encostando em 14,20%. O movimento coincidiu com saída de capital estrangeiro superior a R$ 11,9 bilhões só na primeira quinzena do mês e o dólar batendo R$ 5,24. Dias antes, o Tesouro IPCA+ 2037 chegou a pagar 7,80% de juro real — patamar considerado historicamente elevado. Vale o alerta técnico: quem já tinha títulos longos na carteira viu marcação a mercado negativa temporária no extrato quando as taxas subiram, mas quem trava taxas hoje, nesse patamar, garante rentabilidade real elevada por anos, independentemente de o Banco Central seguir cortando juros à frente.
Bolsa: recorde, mas com ressalvas
O Ibovespa acumulou uma sequência de recordes ao longo do ano, tendo fechado em fevereiro acima dos 191 mil pontos pela primeira vez, com alta acumulada de quase 19% até aquele momento. O quadro mudou de figura nas últimas semanas: em 25 de agosto, o índice fechou aos 174.576,80 pontos e, apesar da quinta alta seguida no pregão, ainda acumulava perda de 3,9% no mês — atrás do desempenho médio dos mercados emergentes, que subiam 3,2% no período. A alta de 34,29% da Petrobras em 2026 tem sido o principal motor sustentando o índice, mesmo em meio ao que já é considerado o maior volume de saída de capital estrangeiro desde que esse dado passou a ser acompanhado. É um sinal de que o rali brasileiro, por ora, depende mais de poucos nomes fortes do que de um movimento amplo de confiança externa.
Fundos imobiliários sob pressão, mas com yields atrativos
O IFIX segue penalizado pelos juros reais ainda elevados e pela proximidade do calendário eleitoral, com mais um mês negativo para o índice em agosto — mesmo com o alívio trazido pelo acordo entre Estados Unidos e Irã, que derrubou o petróleo, e pelo dólar cedendo para R$ 5,10. Julho já havia sido descrito por analistas como um mês difícil para o setor, marcado por estresse na curva de juros e eventos de crédito. A expectativa, no entanto, é de melhora gradual conforme a inflação desacelere no terceiro trimestre e o ciclo de corte da Selic avance. Entre os fundos mais citados por casas de análise para agosto está o Kinea Rendimentos (KNCR11), fundo de recebíveis com cerca de 592 mil cotistas na B3, seguido do XP Malls (XPML11) — não como recomendação, mas como retrato de onde o consenso de mercado está mirando no segmento de papel.
Criptomoedas: montanha-russa de dois dígitos
O Bitcoin resume bem a volatilidade do ano: começou 2026 perto de US$ 95 mil, caiu a US$ 80 mil durante a crise das tarifas, disparou a um recorde de US$ 125 mil e, em 27 de agosto, já rondava novamente os US$ 80 mil. Para o investidor brasileiro, esse sobe e desce ganha uma camada extra de complexidade: o real se depreciou cerca de 15% no ano, o que afeta diretamente estratégias com proteção cambial. Do lado da inovação, chama atenção o lançamento na B3 do OranjeBTC (OBTC3), primeiro ETF de “Bitcoin Treasuries” do mercado local — mais um sinal de que o produto cripto brasileiro está se sofisticando, ainda que a volatilidade extrema continue sendo a marca registrada da classe.
O andar de baixo: recorde de endividamento
Enquanto o mercado financeiro celebra recordes, a Peic, da CNC, mostrou que 82% das famílias brasileiras tinham algum tipo de dívida em julho — sexto mês consecutivo de alta e o maior nível da série histórica. Em abril, o endividamento total em relação à renda das famílias já havia atingido 49,9%: metade de tudo o que se recebe está comprometida com dívidas. O cartão de crédito segue como vilão principal, citado por 85% das famílias endividadas. E o fenômeno não é exclusivo da baixa renda — entre famílias com renda acima de dez salários mínimos, o endividamento saltou de 65,5% para 69,3% em um ano. Diante disso, o governo lançou em maio o “Novo Desenrola Brasil”, um mutirão de renegociação de dívidas para famílias, estudantes e pequenas empresas.
Educação financeira: o elo que falta
Um levantamento do Observatório Febraban mostra a raiz estrutural do problema: 55% dos brasileiros admitem entender pouco ou nada de educação financeira, mesmo reconhecendo a importância do tema. Entre os endividados, 77% dizem que a dívida afeta sua saúde emocional ou qualidade de vida. Investir bem, nesse contexto, não é só uma questão de escolher o produto certo entre Tesouro, bolsa, FIIs ou cripto — é, antes de tudo, uma questão de organizar as contas, entender o custo do crédito rotativo e, só depois, aproveitar a janela histórica de juros altos que o país atravessa antes que ela se feche de vez.
Conteúdo produzido com apoio de inteligência artificial, com curadoria editorial de Maickel.
— Maickel, colunista de finanças