Mercado em foco — perspectivas para 4 de setembro de 2026
A sexta-feira começa com a B3 operando normalmente — sem feriado nacional ou municipal para atrapalhar o pregão — mas com um calendário carregado de fatores que podem mexer com os ativos brasileiros ao longo do dia. Depois de uma quinta-feira de fortes ganhos em Nova York e de um Ibovespa que interrompeu uma sequência histórica de 11 altas seguidas, o dia promete ser decidido menos pelo humor externo e mais por dados domésticos e um evento internacional específico: o payroll americano.
Wall Street eufórica, mas Ibovespa andou na contramão
A véspera terminou com festa nos EUA. O Dow Jones subiu 1,18%, para 53.686,11 pontos; o Nasdaq avançou 1,40%, a 26.584,06; e o S&P 500 ganhou 1,06%, fechando aos 7.747,71 pontos. O gatilho foi a redução da probabilidade de alta de juros pelo Federal Reserve neste mês — a ferramenta FedWatch, do CME Group, mostrou queda de 63,2% para 50,4% nessa aposta. Na Europa, o clima também foi positivo, com CAC 40, DAX e FTSE 100 fechando em alta. Os Treasuries de 10 anos recuaram para 4,762% de rendimento, reforçando o alívio global.
O Ibovespa, no entanto, seguiu um roteiro próprio. Depois de 11 pregões consecutivos de ganhos, o índice fechou a quinta-feira com leve queda de 0,01%, aos 185.188,13 pontos, pressionado pela Petrobras. A oscilação intradiária foi ampla — de uma máxima de +1,99% a uma mínima de -0,26% — mas o volume ficou relativamente contido, em R$ 1,12 bilhão. No acumulado do ano, o índice ainda mostra ganho de 14,93%, e de 4,38% no mês. O contrato futuro fechou a noite em leve baixa, de 0,03%, o que sugere abertura próxima da estabilidade nesta sexta, com algum viés de repique dado o otimismo externo.
O grande evento do dia: payroll dos EUA
Às 9h30, horário de Brasília, sai o relatório de emprego americano de agosto, e ele tende a ser o principal catalisador do pregão. As projeções variam um pouco entre as fontes — de 45 mil a 56 mil novas vagas, com taxa de desemprego entre 4,1% e 4,2% — mas o pano de fundo é mais relevante que o número exato: diferentemente do padrão histórico, o mercado americano em 2026 tem discutido a possibilidade de alta de juros pelo Fed, não corte, diante de um quadro inflacionário mais preocupante. Dirigentes do Fed já sinalizaram nos últimos dias que veem o mercado de trabalho como uma preocupação secundária frente à inflação. Um payroll fraco, portanto, tende a reforçar ainda mais a queda nas apostas de aperto monetário — o que pode pressionar o dólar globalmente e, em tese, favorecer o real.
Câmbio, juros e a variável eleitoral
O dólar fechou a quinta-feira a R$ 5,10, em leve queda, mas com um pregão de idas e vindas — chegou a subir mais cedo, na contramão do enfraquecimento da moeda americana no exterior, num movimento atribuído à expectativa por nova pesquisa eleitoral. E essa pesquisa veio: o Datafolha, divulgado à noite, mostrou Lula com 38% das intenções de voto no primeiro turno, ante 33% de Flávio Bolsonaro, com Augusto Cury em 8%. Lula recuou 1 ponto ante a pesquisa anterior, de 21 de agosto. É um dado que deve continuar pautando o pregão de sexta, num momento em que o Ibovespa tem se mostrado mais sensível à corrida presidencial do que aos fundamentos internacionais — algo que a própria pesquisa Quaest já vinha antecipando, ao mostrar redução da vantagem de Lula num eventual segundo turno.
No mercado de juros futuros, o DI para janeiro de 2027 fechou a semana em trajetória de queda, refletindo expectativas mais construtivas sobre o ciclo de cortes da Selic. Vale lembrar que o Copom não se reúne hoje — a próxima decisão está marcada para os dias 15 e 16 de setembro —, mas o Focus já capta, pela primeira vez desde o início da guerra no Oriente Médio, uma aposta do mercado em corte adicional da taxa básica, que poderia fechar 2026 em 13,75% ao ano.
Carf favorece Petrobras e B3, disputa societária agita Arezzo e Soma
No radar corporativo, duas decisões do Carf chamaram atenção: a Petrobras teve uma autuação de R$ 3,4 bilhões afastada pelo conselho, enquanto a B3 viu anulada uma cobrança de R$ 2,2 bilhões — movimentos que ajudaram a sustentar as ações das duas companhias na quinta-feira, com a B3SA3 subindo 3,85%. Já a disputa societária entre Arezzo&Co, sob o Bloco Birman, e a Soma, sob o Bloco Jatahy, segue movimentando o papel, que disparou 11,28% na sessão anterior.
Entre outras notícias do radar: a Vale pagou R$ 8,6 bilhões em dividendos nesta semana; o PagBank sinalizou intenção de distribuir R$ 2 bilhões em proventos entre 2027 e 2028; e a Embraer comemorou a entrega da unidade 2.000 de seu E-Jet, consolidando a posição da empresa atrás apenas de Airbus e Boeing na aviação comercial. O Safra, por sua vez, atualizou sua carteira de dividendos para setembro, retirando Aura Minerals e Porto e incluindo BradSaúde e Caixa Seguridade, mantendo nomes como Petrobras, Vale, Itaúsa e Taesa.
Petróleo e minério seguem como pano de fundo
Brent e WTI continuam pressionados pela tensão prolongada entre Estados Unidos e Irã no Oriente Médio, com investidores monitorando o risco de novos ataques. Já o minério de ferro subiu 2,17% na quinta, para US$ 99,40 por tonelada, beneficiado por sinais de alívio nas restrições ao fornecimento de carvão de coque — fator que tende a repercutir positivamente em Vale.
Em resumo, o dia tem ingredientes para volatilidade concentrada em dois momentos: a divulgação do payroll pela manhã e a digestão contínua do resultado eleitoral de ontem à noite. O cenário externo é construtivo, mas o mercado brasileiro segue, há dias, mostrando um comportamento mais atrelado à política doméstica e a decisões pontuais como as do Carf do que ao humor de Wall Street — um lembrete de que, neste momento, o Ibovespa parece escrever sua própria história.
Conteúdo produzido com apoio de inteligência artificial, com curadoria editorial de Maickel.
— Maickel, colunista de finanças