Bolsa nas alturas, dólar em queda: como o “trade eleitoral” virou o novo termômetro do mercado
Faz tempo que o investidor brasileiro não precisava acompanhar tantas variáveis se movendo ao mesmo tempo. Nesta reta final de 2026, temos Selic em trajetória de queda, inflação surpreendendo para baixo, Ibovespa em rali histórico e, por trás de tudo isso, uma eleição presidencial cada vez mais apertada ditando o humor dos mercados. É um quadro raro, e vale a pena entender cada peça antes de tirar conclusões precipitadas sobre onde alocar o próximo real.
O ciclo de corte de juros continua, mas o ritmo diminui
A Selic começou 2026 em 15% ao ano — maior patamar em quase duas décadas, mantido desde junho de 2025 — e vem cedendo de forma consistente: 14,75% em março, 14,50% em abril, 14,25% em junho e 14% em agosto, essa última decisão marcada por um comunicado considerado neutro pelo mercado. A próxima reunião do Copom acontece nos dias 15 e 16 de setembro, e o Boletim Focus mais recente já precifica um corte de 0,25 ponto, levando a taxa a 13,75%. A boa notícia é que esse deve ser o último movimento do ano: analistas esperam a Selic estacionada em 13,75% até dezembro, com nova rodada de cortes só em 2027, quando a taxa deve chegar a 12%, e a 10,5% em 2028. Ou seja, ainda é cedo para declarar o fim do ciclo de juros altos — mas o alívio gradual já é uma realidade que muda o cálculo de quem monta carteira de renda fixa.
Inflação surpreende, mas a meta ainda está longe
O IPCA-15 de agosto caiu 0,40%, resultado bem melhor do que o esperado pelo mercado (queda de 0,30%), levando a inflação em 12 meses para 4,24%, ante 4,52% no período anterior. Parte relevante dessa melhora tem explicação pontual: a energia elétrica residencial caiu 6,25% no mês por causa da incorporação do Bônus de Itaipu nas contas de luz de agosto, um efeito que não necessariamente se repete adiante. Habitação, transportes e alimentação também contribuíram para o resultado. Ainda assim, a projeção do Focus para o IPCA fechado de 2026 subiu para 5,01%, bem acima do centro da meta de 3% perseguida pelo Banco Central — um lembrete de que a desinflação, embora real, segue incompleta.
Ibovespa dispara — mas por que política pesa tanto quanto fundamento
O Ibovespa vive um momento de euforia pouco comum. Em 2 de setembro fechou aos 185.205 pontos, alta de 3,05% no dia e 11ª sessão consecutiva de valorização, colocando o índice novamente no radar da máxima histórica de 199.354 pontos. No acumulado da semana a alta chegou a 2,31%, com 11,54% de valorização no ano. Bancos já reiteram projeção de 200 mil pontos para o Ibovespa até o fim de 2026. Setores como mineração, petróleo, energia e bancos lideram os ganhos — o Banco do Brasil, por exemplo, subiu mais de 5% em um único pregão. Mas aqui vale uma dose de ceticismo saudável: boa parte desse movimento tem menos a ver com resultados corporativos e mais com expectativa política, o que naturalmente aumenta o risco de reversões bruscas caso o cenário eleitoral mude de figura.
O “trade eleitoral” entrou de vez na equação
Esse é o ponto que qualquer pessoa de olho no mercado precisa monitorar até outubro. Uma pesquisa Quaest mostrou Lula com 42% das intenções de voto no segundo turno contra 41% de Flávio Bolsonaro — um empate técnico que era diferença de oito pontos em julho. A reação do mercado foi imediata: o dólar caiu 0,91% no dia 2/9, fechando a R$5,1065, menor valor desde 7 de agosto, e acumula queda de quase 7% no ano. Gestores são francos ao explicar o motivo: a redução da vantagem do petista reforça, entre investidores, a aposta em uma eventual troca de governo em 2027, associada a maior disciplina fiscal. Um fator adicional de ruído entrou no radar nesta semana: as revelações sobre a relação entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master — instituição que teve liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central —, tema que tem Flávio Bolsonaro como um dos críticos mais ativos de Moraes.
Petróleo e geopolítica também empurram o índice
Parte do rali também vem da Petrobras, com PETR3 e PETR4 subindo mais de 4% em sessões recentes, embalada pela alta do petróleo internacional e pelo anúncio de reajuste no preço do querosene de aviação. A produção brasileira de petróleo bateu recorde de 4,5 milhões de barris por dia em julho, segundo a ANP. Mas há um risco geopolítico relevante no radar: os preços do petróleo têm subido também por causa da escalada de tensões no Estreito de Ormuz, após ataques militares dos Estados Unidos a alvos no Irã — um fator externo que pode reverter parte do otimismo se a situação se agravar.
O que isso significa para quem tem dinheiro na mão
Não existe fórmula mágica diante de tantas variáveis simultâneas. Juros ainda em dois dígitos seguem sustentando o apelo da renda fixa pós-fixada e prefixada de prazo médio. A bolsa, por sua vez, embute um prêmio de expectativa política que pode não se confirmar — o segundo turno só será decidido em outubro, e qualquer mudança no quadro eleitoral tende a se refletir rapidamente em bolsa, câmbio e juros futuros. Do lado do crédito, uma notícia positiva: os juros do rotativo do cartão caíram para 436,2% ao ano em julho, e os do parcelado para 189,3% — ainda patamares altíssimos, mas em queda. Já quem recebeu a restituição do Imposto de Renda no último lote, pago em 31 de agosto a mais de 521 mil contribuintes, tem uma oportunidade concreta de repensar a alocação desse dinheiro à luz desse cenário mais dinâmico. O conselho mais sensato, nesse contexto, é o de sempre: diversificação, paciência e desconfiança de qualquer narrativa — inclusive a eleitoral — que pareça garantia de retorno fácil.
Conteúdo produzido com apoio de inteligência artificial, com curadoria editorial de Maickel.
— Maickel, colunista de finanças