Eleição, bolsa nas alturas e novo IR sobre dividendos: o combo que vai redefinir seu bolso em 2026
O brasileiro que acompanha o noticiário econômico nas últimas semanas tem boas razões para se sentir meio tonto. É eleição decidindo rumo de governo, Ibovespa quebrando recorde atrás de recorde, Selic em trajetória de queda depois de passar quase um ano em 15% ao ano e, para completar, o fim de uma era de três décadas em que dividendo não pagava imposto no Brasil. Isoladamente, cada um desses movimentos já mudaria a conversa sobre investimentos. Juntos, formam um quadro que exige atenção redobrada de quem tem dinheiro aplicado — ou pretende aplicar.
O efeito eleição no mercado
O país caminha para o segundo turno da eleição presidencial, marcado para 25 de outubro. No primeiro turno, em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro liderou com 47,04% dos votos válidos, contra 45,15% de Lula. Às vésperas da nova votação, os mercados de previsão — aquelas plataformas de apostas que viraram termômetro político nos últimos anos — davam a Flávio 88,1% de chance de vitória, contra 11,5% para Lula, segundo dados de 10 de outubro. É difícil separar onde termina a leitura política e começa a leitura financeira: boa parte da euforia recente da bolsa está diretamente ligada à expectativa de um resultado eleitoral favorável à consolidação fiscal, na leitura de parte do mercado. O risco óbvio é a reversão: se o cenário mudar entre agora e domingo, o rali recente pode ser testado.
Bolsa em território inédito
Os números da bolsa neste outubro são de fato extraordinários. No dia seguinte ao primeiro turno, o Ibovespa disparou 7,70% em uma única sessão, fechando aos 206.911,89 pontos — nova máxima histórica, nominal e real, e a maior alta diária desde março de 2020, auge do pânico da pandemia. O giro financeiro daquele pregão, de R$ 79 bilhões, também entrou para a lista dos maiores da história. Dias depois, novo recorde: 209.066 pontos no fechamento de 9 de outubro, com ganho semanal de 8,82%, o terceiro maior desde 2020. Um dado que ajuda a dimensionar o momento: a maior pontuação do Ibovespa corrigida pela inflação datava de maio de 2008, e esse patamar foi superado agora, com o índice cerca de 3% acima do recorde real de 2008 — mesmo com um dado de inflação pior que o esperado saindo na mesma semana. No acumulado do ano, a alta já chega a 28,4%. Vale notar que o movimento não foi parelho: exportadoras, caso da Vale, sofreram com a forte queda do dólar frente ao real, o que limitou um rali que poderia ter sido ainda mais intenso.
O contraponto da inflação
Enquanto a bolsa comemorava, o IPCA de setembro trouxe um sinal amarelo: alta de 0,82% no mês, acima da projeção de mercado de 0,73%, levando o acumulado em 12 meses a 4,58% — já estourando o teto da meta de 4,5% e o maior patamar desde março. Parte da pressão veio do fim do Bônus de Itaipu, desconto que os consumidores tinham na conta de luz em agosto. O Focus já havia piorado a projeção para o fim de 2026, de 4,92% para 4,99% em uma atualização e para 5,01% em outra mais recente. É um lembrete de que o cenário não é só de otimismo: o juro real no Brasil segue elevado, e essa combinação de bolsa em máxima com inflação resistente tende a pautar a discussão sobre alocação de carteira nos próximos meses.
Selic: cortes graduais, sem pressa
Depois de quase um ano em 15% ao ano — o maior patamar em quase duas décadas —, o Copom emendou cortes consecutivos: para 14% em agosto e para 13,75% em setembro, por unanimidade, na quinta redução seguida de 0,25 ponto percentual. A ata mais recente, porém, é cautelosa: reforça a continuidade dos cortes graduais, mas não abre espaço para acelerar o ritmo. O Banco Central também reconheceu sinais mais claros de desaceleração da economia, confirmados pelo PIB do segundo trimestre e pelo enfraquecimento do crédito livre, especialmente nas linhas mais sensíveis a juros. Um detalhe de bastidor que mereceria mais atenção: o colegiado do Copom chegou a operar desfalcado, com dois mandatos de diretoria vencidos desde o fim de 2025 sem indicação de substitutos enviada ao Congresso.
O que muda na renda fixa do dia a dia
Com a Selic em 13,75%, a conta da poupança segue perdendo força: como a regra trava o rendimento em 0,5% ao mês mais TR sempre que a Selic supera 8,5% ao ano, a caderneta rende cerca de 8,22% ao ano — bem abaixo de alternativas que acompanham o CDI de perto. Uma simulação ilustra a diferença: R$ 1.000 aplicados por 12 meses renderiam cerca de R$ 1.082,63 na poupança contra R$ 1.112,61 em um CDB de 100% do CDI ou no Tesouro Selic, uma diferença de quase R$ 30 por mil reais em um ano — que cresce proporcionalmente com valores e prazos maiores. No Tesouro Direto, o Tesouro Selic rende perto de 13,75% ao ano antes do IR, o IPCA+ entre 14% e 15% e o prefixado entre 13% e 14%, cada um com perfil de risco distinto diante de oscilações de juros e inflação.
O fim da isenção de dividendos
Talvez a mudança mais estrutural de todas seja silenciosa perto do barulho da bolsa e da eleição: pela primeira vez desde 1995, dividendos pagam imposto no Brasil. A Lei nº 15.270/2025, sancionada em novembro e em vigor desde janeiro de 2026, instituiu retenção de 10% de IR na fonte sobre distribuições de lucros que superem R$ 50 mil mensais por fonte pagadora. Há uma regra de transição para lucros apurados até 2025, condicionada à formalização da deliberação societária dentro de um prazo prorrogado pelo STF — as fontes consultadas não são unânimes sobre a data final exata, e esse é um ponto que ainda merece confirmação oficial. Para remessas de lucros e dividendos ao exterior, a alíquota de 10% vale para qualquer valor, sem piso.
A mesma lei trouxe o contrapeso: ampliou a isenção de Imposto de Renda sobre salários até R$ 5 mil e reduziu o imposto para quem ganha até R$ 7.350, beneficiando diretamente mais de 16 milhões de brasileiros, com aplicação automática na folha desde fevereiro. A renúncia fiscal, estimada em R$ 25,84 bilhões em 2026, é parcialmente compensada por uma tributação mínima para quem ganha acima de R$ 600 mil por ano, que pode chegar a 10% de alíquota efetiva no ajuste anual.
Para quem investe em ações pagadoras de dividendos, a mudança já aparece como tema de conversa entre planejadores financeiros: reorganizar a forma de receber proventos, atentar ao piso de R$ 50 mil por fonte pagadora e entender o novo cálculo de retorno líquido passam a ser parte do planejamento, especialmente diante de um Ibovespa em máximas históricas e de um cenário de juros ainda em dois dígitos. O dilema entre buscar retorno na renda fixa pós-fixada ou manter exposição à bolsa — agora com dividendos tributados — ganha urgência justamente na reta final de uma eleição que pode redefinir o rumo dos próximos quatro anos.
Conteúdo produzido com apoio de inteligência artificial, com curadoria editorial de Maickel.
— Maickel, colunista de finanças