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Entre o “trade eleitoral” e o índice do medo: como o mercado se posiciona para o 2º turno

O mercado financeiro brasileiro passou as últimas semanas fazendo o que faz de melhor: precificando incerteza em tempo real. Na segunda-feira seguinte ao primeiro turno, com Flávio Bolsonaro (PL) à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o Ibovespa disparou 7,70%, fechou aos 206.904 pontos e rompeu pela primeira vez a marca histórica dos 200 mil pontos. O dólar, no mesmo dia, caiu 4,12%, para R$ 5,0010, depois de chegar a tocar R$ 4,9530 durante o pregão. Foi a leitura mais pura de que o mercado considerou real a possibilidade de alternância de poder.

Só que entusiasmo de segunda-feira raramente dura até domingo de eleição. O Ibovespa encerrou a terça-feira seguinte em queda firme, com realização de lucros após os recordes da semana anterior, e a tensão só cresceu conforme a votação de 25 de outubro se aproximava. Na quinta-feira, véspera do fechamento desta coluna, a bolsa recuou 1,15%, aos 204.120 pontos, chegando a se aproximar dos 203 mil no pior momento do dia. “A bolsa cai hoje por diversos fatores. Temos uma tensão eleitoral pré-segundo turno com os candidatos muito próximos nas pesquisas e uma aversão ao risco vindo do mercado internacional que contamina a bolsa brasileira”, resumiu Josias Bento, sócio da GT Capital, à CNN Brasil. Já o estrategista-chefe da Krivo Capital, Marco Saravalle, credita boa parte da queda mais aos fatores externos do que propriamente às urnas — um lembrete de que nem todo mundo lê o mesmo gráfico da mesma forma.

O “trade eleitoral” e o índice do medo

Vale explicar ao leitor que não acompanha o mercado de perto: cada nova pesquisa virou, na prática, um ativo que se negocia. O Ibovespa futuro já chegou a saltar 1,25% logo na abertura de um pregão, batizado pelo mercado de “trade eleitoral” — os papéis brasileiros reagem a cada pesquisa como se estivessem precificando de antemão o resultado das urnas. Uma pesquisa Real Time Big Data mostrou Flávio Bolsonaro com 48% contra 45% de Lula, margem de erro à parte; dias depois, um levantamento Indexa/Broadcast trouxe o quadro bem mais apertado, com 45,2% a 44,1%. A oscilação entre pesquisas ajuda a entender por que o chamado “prêmio de risco eleitoral” segue embutido nos preços dos ativos domésticos.

Um termômetro menos conhecido do público em geral merece atenção: o S&P/B3 Ibovespa VIX, o “índice do medo” da bolsa brasileira, que mede a incerteza numa escala de 0 a 100. Segundo reportagem do Correio Braziliense, o indicador nunca havia superado os 30 pontos antes desta eleição. O padrão histórico, segundo analistas, é esse índice bater máxima na reta final da campanha e despencar assim que o resultado é confirmado — o clássico “comprar o boato, vender o fato” das salas de operação.

230 mil pontos ou correção?

A InfoMoney resume a dúvida que paira sobre o pregão de segunda-feira: o segundo turno pode ser o gatilho que tira o Ibovespa da lateralização atual, levando-o aos 230 mil pontos, ou pode abrir espaço para uma correção mais dura, dependendo de como as urnas e os investidores reagirem. A mesma reportagem lembra que o dólar tende a se recuperar e o Bitcoin já testa os US$ 80 mil nesse cenário de cautela — um sinal de que a tensão eleitoral brasileira conversa com um apetite por risco global que também está nervoso por conta própria.

Selic em queda, inflação em alta: o dilema que sobra para depois do domingo

Enquanto o mercado olha para a urna, o Banco Central segue com a própria agenda. Em 16 de setembro, o Copom cortou a Selic pela quinta vez consecutiva no ano, para 13,75% ao ano, decisão unânime entre os membros do comitê, incluindo o presidente Gabriel Galípolo. A taxa havia ficado em 15% — o maior patamar desde julho de 2006 — entre junho de 2025 e março de 2026. A próxima reunião está marcada para 4 de novembro, dez dias depois da eleição, e o Boletim Focus mais recente projeta a Selic fechando o ano em 13,25%.

O problema é que a inflação não está colaborando com o espaço para novos cortes. O IPCA de setembro veio em 0,82%, acima da expectativa do mercado (0,76%), levando o acumulado em 12 meses a 4,58% — já acima do teto da meta, que é 4,5%. A alta foi puxada por Habitação, que subiu 2,31% no mês, com a energia elétrica residencial avançando quase 8% após o fim do crédito do Bônus de Itaipu nas contas de luz. É o tipo de dado que deve pesar na cabeça do Copom em novembro, independente de quem for eleito.

O que fazer com o dinheiro até domingo

Para quem já está na bolsa, a recomendação mais repetida por especialistas é evitar movimentações bruscas e esperar o resultado para rebalancear a carteira, como defende Leonardo Mendes, da Manchester Investimentos. Para quem pensa em entrar agora, a ressalva é ter horizonte de pelo menos cinco anos. Na renda fixa, o pós-fixado — Tesouro Selic e CDBs atrelados ao CDI — segue como o abrigo da vez: “o carrego do pós-fixado é a melhor poltrona de espera”, resume o planejador financeiro Jeff Patzlaff. Já o Tesouro IPCA+ aparece como favorito do mês entre casas como UBS e gestores como Luis Stuhlberger, com a ressalva de evitar os vencimentos mais longos, que oscilam mais.

Em termos de alocação, Mendes sugere 30% em pós-fixados, 40% em IPCA+ e 30% em prefixados, com metade da carteira em vencimentos de até dois anos. Já o especialista Casagrande trabalha com uma composição mais conservadora: 70% em Tesouro Selic, 20% em IPCA+ e 10% em prefixados. Para quem já embolsou ganhos na disparada pós-primeiro turno, a recomendação de uma assessora da Monte Bravo é direta: rebalancear e reduzir posições que cresceram além do planejado. “Colocar um pouco desse lucro no bolso faz bastante sentido”, disse.

Entre os erros mais citados na reta final estão vender Tesouro IPCA+ para dolarizar por puro nervosismo eleitoral, buscar produtos no exterior com proteção cambial, escolher FIDCs só pela taxa oferecida e concentrar toda a carteira numa única aposta de resultado das urnas. A frase que resume bem o espírito da reta final talvez seja esta: “você tem que estruturar sua carteira pensando no longo prazo, não só numa troca de governo — isso não é investimento, isso é aposta”.

Conteúdo produzido com apoio de inteligência artificial, com curadoria editorial de Maickel.

— Maickel, colunista de finanças

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