Ativo Certo

Educação financeira e investimentos para decisões mais seguras

Ativo Certo

Educação financeira e investimentos para decisões mais seguras

Uncategorized

Guerra Irã-EUA reconfigura o tabuleiro: como petróleo, juros e câmbio pressionam os investimentos do brasileiro

A escalada da guerra entre Estados Unidos e Irã, que já dura mais de seis meses desde o ataque conjunto de EUA e Israel em 28 de fevereiro, deixou de ser apenas manchete de política internacional para se tornar variável direta na formação de preços de ativos no Brasil. No fim de semana, os dois países trocaram ataques contra petroleiros e navios de guerra — uma escalada que, segundo a consultoria de inteligência marítima Marisks, “enfraqueceu substancialmente a distinção anterior entre confronto militar e transporte marítimo comercial”. Petroleiros comerciais viraram, na prática, instrumento de pressão econômica recíproca.

Petróleo em disparada e o estreito de Ormuz

O reflexo mais imediato apareceu no petróleo. Em 10 de setembro, o Brent saltou 6,34% e fechou a US$ 107,63 o barril, com o WTI avançando 6,7%, a US$ 102,48 — maior valor em três meses. No acumulado de setembro, o Brent já subia 18%. O agravante geográfico é o estreito de Ormuz, por onde passam entre 20% e 30% da produção mundial de petróleo. Uma nota técnica do Trading Economics chegou a registrar bloqueio quase total do fluxo por ali, e nem a liberação de 400 milhões de barris das reservas estratégicas dos EUA foi suficiente para conter os preços. Militantes houthis tomaram a cidade portuária de Mokha, no Iêmen, ampliando o controle sobre outra rota sensível, o Bab al-Mandeb. E o horizonte não é de solução rápida: assessores alertaram Trump que o conflito pode se estender até 2029, e o próprio presidente americano admitiu que a guerra provavelmente segue além das eleições de meio de mandato de novembro.

Selic, Copom e o dilema da renda fixa

É nesse contexto tenso que o Copom se reúne nesta terça e quarta-feira (15 e 16 de setembro), com decisão à noite. Depois de cortar a Selic de 14,75% para 14% em agosto, o comitê manteve a taxa parada em setembro, em postura cautelosa. O mercado projeta novo corte de 0,25 ponto, para 13,75%, embalado pelo IPCA de agosto, que surpreendeu com deflação de 0,32% — puxada, vale destacar, por um efeito temporário ligado ao crédito extraordinário do Bônus de Itaipu na conta de energia elétrica. O acumulado em 12 meses caiu para 4,22%, dentro da banda de tolerância, mas ainda longe do centro da meta de 3%. Para quem vive de renda fixa, a diferença entre 14% e 13,75% parece pequena no papel, mas tem efeito concreto: uma aplicação de R$ 10 mil renderia R$ 1.400 brutos no primeiro caso e R$ 1.375 no segundo. O Focus projeta juros ainda elevados por bastante tempo — 13,75% no fim de 2026, 12% em 2027 — o que sugere que a renda fixa segue como parte relevante de qualquer carteira, mesmo em trajetória de queda gradual da Selic.

O contraponto externo: petróleo pressionando o Fed

Enquanto o Brasil comemora um respiro inflacionário doméstico, o cenário externo trabalha na direção oposta. O juro do título americano de dez anos está perto de 4,9%, maior nível desde 2023, depois que o PPI de agosto subiu 0,4%, puxado por diesel e gasolina — reflexo direto da alta do petróleo. Isso cria um paradoxo para o Federal Reserve, que se reúne nesta semana com o mercado precificando 83% de chance de corte de 0,25 ponto, segundo a Polymarket, mesmo com a inflação de custos energéticos batendo à porta. Esse cabo de guerra entre fraqueza do mercado de trabalho americano e pressão de custos via energia é algo que o investidor brasileiro precisa acompanhar, porque qualquer sinalização mais dura do Fed tende a pressionar o câmbio por aqui.

Dólar, Bovespa e a variável eleitoral

Por ora, o dólar tem resistido à tensão geopolítica: fechou a R$ 5,1013 em 10 de setembro, em leve baixa, enquanto o Ibovespa subia 1,42% no mesmo pregão. O índice, aliás, acumula alta de 31,51% no ano, com dispersão setorial expressiva — Ultrapar (UGPA3) lidera as altas com +85,10%, enquanto Hapvida (HAPV3) amarga queda de 83,21%. Some-se a isso o fator eleitoral: pesquisas Quaest e BTG/Nexus mostram Lula e Flávio Bolsonaro em empate técnico para um eventual segundo turno, cenário que deve manter os mercados sensíveis a qualquer nova rodada de pesquisas ao longo do segundo semestre.

Bitcoin e ouro: os “portos seguros” que não convenceram

Curiosamente, os ativos tradicionalmente associados a proteção geopolítica não estão reagindo como o script sugeriria. O Bitcoin segue lateralizado entre US$ 75 mil e US$ 80 mil desde o fim do verão no hemisfério norte, cotado nesta manhã a R$ 399.823,93 (US$ 78.191, alta de 1,9% em 24 horas). A CryptoQuant aponta a média móvel de 365 dias, em US$ 81.700, como o próximo grande teste técnico — historicamente, é acima desse patamar que novos ciclos de alta costumam começar. O Índice de Medo e Ganância marca 63 pontos, ainda em zona de ganância, mas distante da euforia de novembro de 2024, quando o BTC bateu recorde de mais de US$ 93 mil.

Já o ouro, que vinha de um rali histórico ao longo de 2026, também perdeu fôlego: fechou a US$ 4.348 por onça nesta segunda-feira, queda de US$ 81 na semana, com dificuldade de se sustentar acima do suporte de US$ 4.400. É um patamar muito acima da faixa de US$ 2.000 a US$ 2.700 vista em anos anteriores, o que mostra que o metal já havia embutido boa parte do prêmio de risco geopolítico antes mesmo da escalada mais recente — e agora parece fazer uma pausa técnica.

O quadro que se desenha é de um investidor brasileiro pressionado por duas forças opostas: um alívio inflacionário doméstico que abre espaço para cortes de juros, e uma tensão geopolítica externa que pode reverter esse alívio a qualquer momento via petróleo e câmbio. Não há atalho simples nesse ambiente — apenas a necessidade de acompanhar de perto tanto a decisão do Copom desta semana quanto os próximos capítulos do conflito no Oriente Médio.

Conteúdo produzido com apoio de inteligência artificial, com curadoria editorial de Maickel.

— Maickel, colunista de finanças

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *