Mercado em foco — 17 de agosto
A bolsa brasileira encerrou a última sexta-feira, dia 14, com o que já é a sua nona sessão seguida de perdas. Não é um recuo dramático isoladamente — o Ibovespa cedeu apenas 0,10%, fechando aos 166.934,20 pontos —, mas a sequência importa mais do que o número de um único pregão. Quando um mercado acumula quase duas semanas incapaz de emplacar uma alta consistente, o sinal costuma estar menos no “quanto” e mais no “porquê”.
Dólar em alta e juros que competem com a renda variável
O dólar comercial subiu 0,52% na sexta, encostando em R$ 5,22, depois de já ter avançado em pregões anteriores. Parte da explicação é simples: com a Selic mantida em 14% ao ano, a renda fixa segue extremamente competitiva, e boa parte do capital que poderia migrar para ações prefere continuar rendendo com segurança. Não é à toa que só na primeira quinzena de agosto o fluxo estrangeiro para a B3 ficou negativo em cerca de R$ 7 bilhões. Investidor internacional, de forma geral, não gosta de remar contra um custo de oportunidade tão alto.
Ruído eleitoral entra no radar
Some-se a isso um ingrediente que tende a ganhar peso nos próximos meses: a política. Uma pesquisa Quaest divulgada na própria sexta-feira mostrou o presidente Lula com 43% das intenções de voto num eventual segundo turno contra o senador Flávio Bolsonaro, com 40%. Cenário apertado. Mercado não gosta de indefinição, e quanto mais próximo o páreo eleitoral, maior tende a ser a volatilidade — não porque um resultado ou outro seja necessariamente melhor ou pior para os ativos, mas porque incerteza, por si só, já é precificada como risco.
O cenário externo também não colabora
Do lado de fora, a fotografia da sexta não foi de otimismo. Em Nova York, o S&P 500 caiu 0,17%, o Dow Jones recuou 0,20% e a Nasdaq perdeu 0,28%, pressionados por dados de varejo americano mais fracos do que o esperado. Ao mesmo tempo, o petróleo segue perto de US$ 90 o barril, com o mercado monitorando de perto a tensão entre Estados Unidos e Irã envolvendo o Estreito de Ormuz — um ponto de atenção que, se escalar, tem potencial para reverberar em inflação global e, por tabela, em política monetária mundo afora.
O que fica de lição
Nenhum desses fatores isolados seria suficiente para justificar nove sessões de fraqueza. Juntos, formam um quadro de cautela bem racional: juros domésticos elevados, ruído político crescente e um pano de fundo externo que também não está livre de tensões geopolíticas. Na minha leitura, isso não é motivo para pânico, mas também não é hora de ignorar o óbvio. Momentos como este costumam recompensar quem mantém a carteira diversificada, evita decisões movidas pelo humor do noticiário e lembra que ciclos de juros altos são, historicamente, passageiros — mesmo quando parecem eternos enquanto duram. Paciência, neste momento, é tão importante quanto qualquer outra estratégia.
— Maickel