Mercado em foco — perspectivas para 28 de agosto de 2026
A sexta-feira chega com a B3 operando normalmente, mas com o mercado inteiro de olho em Wyoming. O motivo é simples: às 11h de Brasília, Kevin Warsh sobe ao púlpito de Jackson Hole pela primeira vez como presidente do Federal Reserve, e esse discurso tem potencial para ditar o humor dos mercados muito além do pregão de hoje.
A ressaca (boa) da Nvidia
Antes de falar do Fed, vale registrar o que moveu Wall Street na quinta-feira: a Nvidia. A empresa entregou receita de US$ 96,2 bilhões no segundo trimestre, alta de 106% na comparação anual, e lucro por ação de US$ 2,22, número que pulverizou o consenso do mercado. O resultado empurrou as ações da companhia a uma alta de quase 9% no pós-balanço e contaminou positivamente todo o setor de tecnologia — S&P 500 e Nasdaq tiveram seu melhor dia desde 4 de agosto. Na Ásia, o entusiasmo com IA também se espalhou na quinta, com as bolsas chinesas subindo 1%, embora a manhã desta sexta já mostre um quadro mais misto por lá, com Hong Kong e Coreia do Sul no vermelho.
Jackson Hole: o verdadeiro catalisador do dia
Dito isso, o que realmente importa hoje é outra coisa. A euforia com IA foi ofuscada, já na própria quinta, por um dado de inflação americana (PCE) mais forte que o esperado, que voltou a pressionar os juros dos Treasuries e fortaleceu o dólar globalmente. É nesse contexto tenso — com o Treasury de 30 anos tendo fechado em 5,31% há poucos dias, no maior nível desde 2007, e o próprio Tesouro americano tendo intervido no mercado de títulos para conter os custos de financiamento — que Warsh fará seu discurso de estreia à frente do Fed.
A última decisão do Fomc teve dissidência de 9 a 3, a mais hawkish em quase uma década, e o mercado atribui hoje apenas uma chance em três para um novo aperto em setembro. Uma pesquisa do Bank of America mostra que 69% dos gestores já esperam um tom neutro de Warsh — o que significa que esse cenário já está precificado. Na prática, isso deixa pouca margem para surpresas: qualquer inflexão, para mais hawkish ou mais dovish, tende a provocar volatilidade acima do normal em câmbio e bolsa. Vale lembrar que não haverá comunicado de política monetária nem mudança de juros hoje — a próxima decisão do Fomc só sai em 15 e 16 de setembro.
Ibovespa: sexta alta seguida, mas fluxo estrangeiro ainda capenga
Por aqui, o Ibovespa fechou quinta-feira praticamente estável, em 174.586 pontos, marcando a sexta alta consecutiva, mesmo tendo aberto o dia em queda por conta da fuga de capital ligada à tese de IA nos EUA. O dólar subiu 0,22%, para R$ 5,151. O saldo de estrangeiros em agosto segue negativo, em torno de R$ 21,3 bilhões, mas analistas como Gabriel Mollo, da Daycoval, apontam desaceleração no ritmo de saídas, com a bolsa sendo sustentada pela percepção de desconto e pela possibilidade de retorno do investidor de fora. O UBS BB mantém recomendação overweight para ações brasileiras, apostando em espaço de reprecificação caso os juros locais comecem a ceder.
No radar setorial, chama atenção a decisão da 17ª Vara Federal do DF que suspendeu, em liminar, a cobrança do Imposto de Exportação de 12% sobre petróleo — fato que tende a beneficiar Petrobras e petroleiras no pregão de hoje. Do lado oposto, Assaí e Lojas Renner registraram quedas fortes na véspera, sinalizando reposicionamento de fundos saindo de consumo discricionário.
Agenda doméstica pesada
O dia também é carregado de indicadores locais: IGP-M, sondagens de comércio e serviços, saldo de crédito, IPP e a definição da bandeira tarifária de energia. Às 14h30, o ministro do Trabalho em exercício, Chico Macena, apresenta os dados do Caged de julho. No campo fiscal, o resultado já veio ontem, e surpreendeu: superávit primário de R$ 10,8 bilhões em julho, bem acima da expectativa de déficit de R$ 5,5 bilhões apontada pelo Prisma Fiscal — ainda que o acumulado do ano permaneça deficitário em R$ 81,3 bilhões. O desemprego também surpreendeu positivamente, caindo para 5,3% no trimestre até julho.
O que observar
Com a Selic parada em 14% ao ano e sem reunião do Copom hoje, o mercado local segue refém do exterior. Se Warsh soar mais hawkish do que o esperado, é razoável imaginar dólar em alta e pressão sobre o Ibovespa, mesmo com o pano de fundo fiscal doméstico surpreendendo positivamente. Um tom mais dovish, por outro lado, tende a aliviar o câmbio e favorecer o apetite por ativos emergentes — inclusive o brasileiro. Do ponto de vista técnico, a Safra Invest via o Ibovespa entre um primeiro suporte perto de 164.300 pontos e uma primeira resistência em 178.000. É um dia para acompanhar de perto, sem pressa para tirar conclusões precipitadas.
Conteúdo produzido com apoio de inteligência artificial, com curadoria editorial de Maickel.
— Maickel, colunista de finanças