Ativo Certo

Educação financeira e investimentos para decisões mais seguras

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O ano em que a eleição virou o maior gestor de carteira do Brasil

Faltam poucos dias para o segundo turno de 2026, e já dá para afirmar algo incomum: o resultado das urnas foi, até aqui, o maior vetor de preço dos ativos brasileiros neste ano. Mais do que a inflação, mais do que o rumo da Selic, mais do que o balanço das empresas — o que moveu bilhões de reais em bolsa, câmbio e renda fixa nas últimas semanas foi a percepção de quem vai sentar na cadeira da Presidência a partir de 2027.

O choque do primeiro turno

Quando o senador Flávio Bolsonaro surpreendeu as pesquisas e terminou o primeiro turno à frente do presidente Lula, o mercado reagiu como se tivesse recebido uma notícia corporativa extraordinária. O Ibovespa chegou a disparar 8,46% em um único pregão, aos 208.359 pontos. Analistas batizaram o movimento de “trade Flávio”: a tese de que uma eventual alternância de poder traria uma equipe econômica mais comprometida com o ajuste fiscal, abrindo espaço para juros mais baixos e um real mais forte. Max Bohm, estrategista da Nomos, resumiu o racional: o mercado tem apreciado o avanço da oposição por entender que isso pode viabilizar uma política fiscal mais equilibrada. Já um analista da Ouro Preto Investimentos foi direto ao ponto: o cenário eleitoral virou um dos principais fatores de precificação dos ativos no país.

Nem todo mundo compra essa narrativa, vale o registro. Há quem argumente, com razão, que o “trade eleitoral” é um fenômeno exagerado — ou mesmo inexistente como força estrutural — e que boa parte do movimento é ruído especulativo de curto prazo, não uma mudança real de fundamentos.

Recorde de 18 anos

Os números da semana de 5 a 9 de outubro, de todo modo, foram de fato históricos. O Ibovespa fechou aos 209.066,90 pontos, maior patamar nominal da história, com alta semanal de 8,82% — a mais forte de 2026 e o terceiro maior ganho semanal desde 2020, atrás apenas dos picos da pandemia. Mais simbólico ainda: corrigido pela inflação, o índice superou o recorde real que resistia desde maio de 2008, ficando cerca de 3% acima daquele patamar depois de 18 anos. A sessão de 5 de outubro também bateu recorde de volume, com mais de 5 milhões de negócios — mais de quatro vezes a média diária usual.

André Matos, CEO da MA7 Capital, deu o tom cético que vale carregar como lembrete: em um único pregão o dólar caiu de R$ 5,22 para menos de R$ 5,00 e a bolsa saltou de 192 mil para a casa dos 200 mil pontos, mas nada mudou na economia real entre sexta-feira e segunda-feira.

Dólar, projeções e apostas

O dólar caiu para R$ 4,98 na mesma semana. Bancos grandes elevaram suas projeções: o Morgan Stanley mira 250 mil pontos para o Ibovespa, e o BTG calcula espaço de alta de até 20% em cenário-base, podendo chegar a 45% no cenário mais otimista, avaliando que a bolsa brasileira ainda está barata frente à média histórica. Mercados preditivos como o Polymarket chegaram a precificar 85% de chance de vitória de Flávio Bolsonaro — número que pode ter mudado até a publicação desta coluna, mas que ilustra o quanto o apetite especulativo já embute o resultado das urnas nos preços.

O freio fiscal

Nem tudo é euforia linear. O anúncio de reajuste do Bolsa Família escancarou o outro lado da moeda: o ajuste fiscal considerado necessário para 2027 se torna praticamente inevitável, independentemente de quem vencer a eleição. Isso já derrubou a bolsa em pregões específicos — em 17 de setembro, o Ibovespa chegou a acumular perda intradiária de 3 mil pontos antes de fechar com alta de apenas 0,24% frente à abertura. É um retrato de como a volatilidade eleitoral pode confundir — e machucar — o investidor pessoa física que opera no calor do momento.

Juros ainda nas alturas

Por trás de tudo isso, a Selic segue em trajetória de queda, mas em patamar historicamente elevado. O Banco Central reduziu a taxa de 15% para 13,75% ao ano entre março e setembro, no quinto corte seguido do ciclo. Como a inflação em 12 meses está em 4,22%, o juro real passa de 9% ao ano — ainda um dos maiores do mundo. A próxima decisão do Copom sai em 4 de novembro, dias depois do segundo turno, num calendário que praticamente força o mercado a decidir, ao mesmo tempo, se acredita na urna e nos juros.

Para onde vai o dinheiro do brasileiro

Enquanto gestores e bancos de investimento calibram projeções, o brasileiro comum está mudando de comportamento de forma estrutural. Hoje cerca de 60,6 milhões de pessoas têm algum dinheiro aplicado em produtos financeiros, mas a poupança perdeu espaço: caiu de 75% para 61% da preferência dos investidores em cinco anos, enquanto CDBs e letras de crédito saltaram de 8% para 20%. O volume em CDBs de pessoas físicas, segundo a Anbima, chegou a R$ 1,33 trilhão ao fim de 2025, crescimento de 27,7% no ano.

Na bolsa, o quadro é mais complexo do que parece. A participação da pessoa física no volume negociado caiu para 10,90% em 2026, o menor nível da série histórica iniciada em 2018. Mas, em termos estruturais, o pequeno investidor na verdade ampliou sua fatia do free float, para 19,5%, acima da média histórica — só que ainda pequena demais para mover o mercado sozinha. Quem de fato dita o rumo da bolsa brasileira continua sendo o investidor estrangeiro, dono de 40,4% do free float. Rodrigo Azevedo, da Ibiuna, resumiu um viés clássico do investidor brasileiro: ele só costuma gostar de bolsa quando ela já está cara.

A lição dos IPOs

Um dado merece virar aula de educação financeira: em 35 das últimas 37 aberturas de capital na B3 desde 2021, quem comprou o índice como um todo teria saído na frente de quem apostou na ação individual da estreante. Apostar numa estreia específica só valeu a pena em duas ocasiões entre 37. É um argumento forte a favor da diversificação — e um alerta contra o impulso de perseguir a próxima “queridinha” do mercado.

Enquanto isso, lá fora

O contraste com outras classes de ativos ajuda a entender que 2026 é um ano de movimentos simultâneos e, muitas vezes, contraditórios. O ouro bateu mais de 12 recordes históricos no início do ano, chegando a US$ 5.405 por onça-troy em janeiro, para depois desabar mais de 25% até junho e seguir em queda — negociado a US$ 4.166,39 em meados de outubro. O Banco Central brasileiro, aliás, é protagonista nesse mercado: fechou março com 172,4 toneladas de ouro em reserva, a maior posição da América Latina. O bitcoin, por sua vez, segue longe de sua máxima histórica, operando perto de US$ 81.600 neste fim de semana, depois de ter recuado quase 36% do topo dias atrás.

O retrato final é o de um investidor brasileiro navegando entre um rali doméstico histórico, alimentado em boa parte por expectativa política, e um apetite por risco global mais cauteloso. Os próximos dias — segundo turno em 25 de outubro, Copom em 4 de novembro — vão dizer se o que vimos foi o início de um novo ciclo de valorização sustentada pelos fundamentos, ou apenas mais um capítulo do “trade eleitoral” que, como lembram os céticos, pode ser menor do que parece.

Conteúdo produzido com apoio de inteligência artificial, com curadoria editorial de Maickel.

— Maickel, colunista de finanças

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