Ouro, bitcoin e Selic em queda: onde fica a proteção do patrimônio do brasileiro em 2026
Depois de um ano em que ouro e bitcoin bateram recordes históricos quase ao mesmo tempo, outubro de 2026 chega com os dois ativos em correção, a Selic caindo no Brasil e uma inflação que voltou a dar trabalho. O resultado é um quebra-cabeça para quem quer proteger patrimônio sem cair em armadilhas de euforia ou de desinformação — e vale a pena entender as peças antes de tirar qualquer conclusão precipitada.
O Copom corta, mas a inflação não colabora
O Banco Central encerrou o ciclo de juros altíssimos que manteve a Selic em 15% entre junho de 2025 e março de 2026 — o maior patamar desde julho de 2006. De lá para cá, o Copom cortou a taxa em cinco reuniões seguidas, sempre em 0,25 ponto, até chegar aos atuais 13,75% em setembro. A próxima decisão sai em 4 de novembro, e o mercado vai acompanhar com lupa.
O motivo da atenção redobrada é simples: o IPCA de setembro veio mais forte do que o esperado, com alta de 0,82% no mês (ante projeção de 0,73%) e acumulado de 12 meses em 4,58%, também acima das estimativas. A energia elétrica puxou a conta, com alta de 7,98% após o fim do Bônus de Itaipu nas faturas, e as passagens aéreas subiram quase 10%. O Focus já projeta inflação de 5,01% para o fechamento de 2026 — acima do teto da meta de 4,5%. Na prática, isso reduz o espaço para o Copom seguir cortando juros no mesmo ritmo, e reabre a dúvida sobre até onde vai esse ciclo de afrouxamento.
A poupança continua perdendo, e por uma margem enorme
Enquanto o debate sobre juros segue aberto, um fato não muda: a caderneta de poupança continua sendo a pior opção disponível para quem quer preservar valor. Com a Selic ainda em dois dígitos, a poupança rende cerca de 6,17% ao ano, travada pela regra que a mantém em 0,5% ao mês mais TR sempre que a Selic supera 8,5%. Um CDB que paga 100% do CDI, por comparação, entrega perto de 14,85% bruto ao ano — mais que o dobro.
Em números concretos, R$ 2.000 aplicados por um ano rendem R$ 123,40 na poupança contra R$ 269,56 em uma LCI a 92% do CDI. É uma diferença que ultrapassa 115% a mais de rendimento líquido em produtos como CDB a 110% do CDI, segundo simulações recentes. Mesmo com o IPCA pressionado, instrumentos como Tesouro Selic e CDB ainda entregam ganho real expressivo, enquanto o Tesouro IPCA+ segue como alternativa para quem quer travar juro real acima de 7% ao ano no longo prazo.
Ouro: do recorde histórico à acomodação forçada pelo Fed
O ouro viveu talvez o ciclo mais dramático do ano. Depois de subir 65% em 2025 — o melhor desempenho anual desde 1979 — o metal ultrapassou os US$ 5.000 por onça já em janeiro de 2026, em meio a incertezas políticas nos Estados Unidos, chegando a bater recorde nominal acima de US$ 5.500 no fim daquele mês. Casas como Goldman Sachs e Bank of America chegaram a projetar alvos de US$ 5.400 e até acima de US$ 6.000.
A realidade foi outra: a partir de fevereiro, o ouro entrou em correção prolongada, caindo cerca de 27% até tocar o fundo em junho, perto de US$ 3.994. Hoje, o metal opera pressionado pela sinalização do Federal Reserve de nova alta de juros ainda em outubro ou dezembro — o que encarece o custo de oportunidade de manter um ativo que não paga juros nem dividendos. As projeções de curto prazo apontam oscilação entre US$ 4.000 e US$ 4.300 por onça. No Brasil, a grama do ouro 24 quilates foi cotada em R$ 667,85 em 12 de outubro.
Bitcoin: do “Uptober” à maior liquidação da história
O bitcoin seguiu um roteiro parecido, só que mais acelerado. O ativo começou outubro em alta, superando os US$ 86 mil e reforçando o padrão sazonal conhecido como “Uptober”, puxado por entradas líquidas de mais de US$ 134 milhões em ETFs spot americanos. Mas em 10 de outubro o mercado foi surpreendido pelo maior evento de liquidação da história das criptomoedas, após ameaças tarifárias do presidente americano Donald Trump, o que empurrou o ativo para um território de bear market.
O resultado é que o bitcoin, que chegou a bater máxima histórica de US$ 126.080, opera agora na faixa de US$ 82-83 mil — cerca de 35% abaixo do pico. A capitalização do mercado cripto como um todo recuou para US$ 2,81 trilhões, com o bitcoin ainda dominando 59,3% desse total. As opiniões sobre o resto do ano divergem: o JPMorgan ainda projeta novo recorde, com alvo de US$ 170 mil, enquanto gestores como Theodoro Fleury, da QR Asset Management, veem 2026 como um ano mais desafiador, em linha com o padrão histórico do ativo após ciclos de euforia.
O que fica desse retrato
Ouro e bitcoin mostraram em 2026 que nenhum ativo é imune a correções bruscas, mesmo quando carregam a fama de “reserva de valor”. Juros americanos, decisões políticas e expectativas de mercado pesam tanto quanto o apetite por proteção. No Brasil, o contraste entre a Selic ainda elevada e uma inflação que resiste acima da meta mantém a renda fixa como protagonista discreta, mas eficiente, na preservação de patrimônio — enquanto a poupança segue sendo, teimosamente, a escolha menos vantajosa entre todas.
Conteúdo produzido com apoio de inteligência artificial, com curadoria editorial de Maickel.
— Maickel, colunista de finanças