Selic, Bolsa e câmbio já votam: o mercado brasileiro na contagem regressiva para as urnas
O Comitê de Política Monetária do Banco Central encerra nesta quarta-feira, 16 de setembro, mais uma reunião com decisão sobre a Selic marcada para a noite. Em qualquer outro momento do ciclo econômico recente, esse seria o evento da semana para o mercado financeiro. Mas em 2026 até o Copom parece ter perdido protagonismo diante de um fator que hoje comanda praticamente todas as classes de ativos no Brasil: a corrida presidencial que chega ao primeiro turno em 4 de outubro.
O corte que (quase) todo mundo espera
O Boletim Focus de segunda-feira mostrava expectativa consolidada de corte de 0,25 ponto na Selic, que sairia de 14% para 13,75% — o quinto corte consecutivo depois de um ciclo de aperto que levou a taxa a 15%, o maior nível em quase 20 anos. Marcelo Bassani, da Boa Brasil Capital, lembra que esse patamar de 13,75% é a mediana do Focus há cinco semanas e argumenta que o tom mais duro do Banco Central em agosto sinaliza cautela, não necessariamente uma pausa no ciclo. Augusto Parente, da AW Capital, segue a mesma linha, mas aponta o petróleo — que voltou a superar US$ 100 o barril em meio a tensões no Oriente Médio — como o gatilho capaz de acelerar ou travar os próximos cortes. Para ele, porém, o fator estrutural mais observado pelo mercado continua sendo o fiscal, não a inflação de curto prazo. Uma reportagem publicada há duas semanas chegou a apontar cenário de pausa em setembro, o que mostra que a decisão de hoje à noite não era unânime nem óbvia até pouco tempo atrás.
Do lado da inflação, os números recentes ajudam a explicar o otimismo com o corte: o IPCA de agosto registrou deflação de 0,32%, e o IPCA-15 do mesmo mês recuou 0,40%. O Focus já capturava essa melhora, revisando a projeção de inflação para 2026 para 4,90%. Para os próximos anos, o consenso do mercado projeta Selic em 12% em 2027, 10,50% em 2028 e 10% em 2029 — uma trajetória de queda que, no entanto, está condicionada ao resultado das urnas, como veremos mais adiante.
Poupança perde, mas a regra não muda
Vale um lembrete de educação financeira: com a Selic ainda muito acima de 8,5% ao ano, a poupança continua rendendo 0,5% ao mês mais a TR, regra que só mudaria se a Selic caísse para 8,5% ou menos — cenário fora do radar do Focus. Simulações recentes mostram a poupança perdendo para CDBs e Tesouro Selic em qualquer prazo. Em uma aplicação hipotética de R$ 10 mil por três meses, a poupança rendeu cerca de R$ 200 líquidos, enquanto CDB e Tesouro Selic entregaram algo em torno de R$ 260 a R$ 270 líquidos, mesmo após o IR de 22,5%. A diferença é modesta em valores absolutos, mas relevante em termos percentuais — e todo corte de 0,25 ponto na Selic reduz ainda mais essa margem: uma aplicação de R$ 10 mil a 14% renderia R$ 1.400 em um ano; a 13,75%, R$ 1.375.
Ibovespa: recordes emendados, mas com nervos à flor da pele
A Bolsa brasileira viveu um 2026 de recordes sucessivos — dez apenas nos dois primeiros meses do ano, com o índice superando os 186 mil pontos em fechamento e os 187 mil em máxima intradia já em fevereiro. Janeiro fechou com alta de 12,56%, o melhor desempenho mensal desde novembro de 2020, puxado por uma entrada de capital estrangeiro de R$ 26,3 bilhões só naquele mês — mais do que todo o saldo positivo de 2025. A XP revisou sua projeção de valor justo para 190 mil pontos em 2026, com um cenário otimista chegando a 235 mil.
Mas setembro trouxe uma dose extra de volatilidade eleitoral. Em 2 de setembro, o Ibovespa saltou 3,05% em um único pregão, a maior alta diária desde março; dias depois, headlines já falavam em 188 mil pontos sob “otimismo eleitoral”. Por outro lado, em 4 de setembro, o índice recuou depois que uma pesquisa Datafolha indicou vitória de Lula no segundo turno com 46% das intenções de voto. Esse vaivém ilustra bem o que o estrategista Matheus Spiess, da Empiricus, chama de volta da “tese do rali eleitoral” — movimento ligado ao fortalecimento de candidaturas de oposição nas pesquisas, já que a questão fiscal continua sendo a principal preocupação dos agentes financeiros.
Os cenários eleitorais que fazem tremer qualquer projeção
Se há um número capaz de resumir a tensão do momento, é este: em um cenário sem ajuste fiscal, a Empiricus projeta o Ibovespa caindo dos atuais 186 mil pontos para menos de 100 mil. Já em um cenário de reancoragem fiscal — o mais favorável —, o índice poderia tocar 300 mil pontos. Em um cenário de ruptura institucional mais severa, a Selic chegaria a 19% e o dólar superaria R$ 7. É uma amplitude de resultados enorme, que mostra o quanto o mercado brasileiro hoje precifica menos fundamentos econômicos de curto prazo e mais expectativas sobre o desenho fiscal do próximo governo.
Esse nervosismo eleitoral também já apareceu no mercado de opções, com posições que antes só seriam montadas depois do pleito migrando para outubro — reflexo, segundo analistas, da percepção de que uma disputa mais equilibrada nas pesquisas pode gerar reprecificação rápida dos ativos brasileiros. Some-se a isso um pano de fundo político turbulento, com o agravamento da crise no STF, incluindo o afastamento determinado pelo ministro André Mendonça do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência, Leandro Almada — episódio que Spiess relaciona ao aumento do “sentimento antissistema” que pode tornar a eleição ainda mais apertada do que a de 2022.
Câmbio parado, mas Focus não muda o discurso
O dólar tem oscilado abaixo de R$ 5,20 nas últimas semanas, distante da máxima do ano (R$ 5,3287, em março) e da mínima (R$ 4,8869, em maio). O Focus mantém a projeção de R$ 5,20 para o fim de 2026 há treze semanas consecutivas — uma estabilidade que soa quase artificial frente à amplitude dos cenários eleitorais descritos acima, e que pode ser rapidamente desafiada dependendo do resultado das urnas em outubro.
Fundos imobiliários também de olho no calendário
Os FIIs vivem seu próprio momento de popularização: em março, o setor já somava 3,13 milhões de investidores, com o IFIX subindo 2,4% no mês. É um universo ainda pequeno frente à Bolsa como um todo, mas que tende a sentir os mesmos efeitos de qualquer reprecificação de juros e risco fiscal que vier a se desenhar depois do primeiro turno.
No fim das contas, o investidor brasileiro passou a operar com uma bússola dupla: os números tradicionais de inflação, juros e atividade de um lado, e o humor das pesquisas eleitorais do outro. Neste mês de setembro, a segunda bússola tem apontado com muito mais força para onde o mercado se move.
Conteúdo produzido com apoio de inteligência artificial, com curadoria editorial de Maickel.
— Maickel, colunista de finanças