Selic em queda, dólar em compasso de espera e o fim de uma era para os dividendos: o retrato do mercado em agosto
Agosto de 2026 devolveu ao investidor brasileiro uma sensação que estava meio esquecida: a de que nem tudo sobe ao mesmo tempo. Depois de uma sequência estonteante de recordes do Ibovespa no início do ano, o mês fechou o quadro com uma Selic em novo patamar, um dólar hesitante, um Bitcoin que subiu e caiu como montanha-russa e uma mudança tributária que encerra quase três décadas de isenção sobre dividendos. Vale a pena destrinchar cada peça desse quebra-cabeça.
Selic a 14%: o corte que já era esperado, mas sem pressa para o próximo
O Copom cortou a Selic para 14,00% ao ano na reunião de 4 e 5 de agosto, quarta redução seguida de 0,25 ponto percentual, em decisão unânime dos sete membros do comitê. O mercado já precificava esse movimento havia semanas, então a surpresa não estava no “quanto”, mas no “tom”. A ata da reunião, divulgada dias depois, reforçou que o Banco Central não tem pressa para acelerar o ritmo de cortes, priorizando a convergência da inflação à meta de 3%. O Focus projeta a Selic fechando o ano em 13,75%, ou seja, o mercado ainda espera novos cortes pontuais, mas nada de afrouxamento repentino.
Isso importa na prática de duas formas opostas. Para quem deve, um corte de juro básico não se traduz automaticamente em parcelas mais leves — cada linha de crédito tem seu próprio ritmo, e o rotativo do cartão segue folgadamente acima de 50% ao ano, um lembrete de que dívida cara continua sendo o pior inimigo do orçamento doméstico. Para quem investe em renda fixa, a Selic ainda em dois dígitos altos mantém um cenário historicamente favorável, e por isso título prefixado e papel atrelado ao IPCA seguem no radar de quem quer travar taxas enquanto elas ainda estão elevadas — sempre pesando o horizonte de cada um, sem que isso seja uma indicação de compra específica.
Ibovespa: do recorde histórico à correção de 11 pregões
O contraste do ano é gritante. Em fevereiro, o índice emendava recordes sucessivos, chegando a 191 mil pontos com o setor financeiro e a Petrobras puxando a fila, embalado por fluxo estrangeiro forte e dólar mais fraco. Agosto, porém, trouxe uma correção de outra magnitude: o Ibovespa chegou a orbitar os 170 mil pontos, encerrando uma sequência de 11 fechamentos negativos. Na reta final do mês, o índice voltou a subir, com o mercado global relativamente calmo mesmo diante de sanções ampliadas dos EUA contra o Irã e da expectativa pelo resultado da Nvidia.
O detalhe mais curioso é o comportamento do capital estrangeiro: mesmo com a bolsa em alta nos últimos dias, os dados mostram semanas de saída recorde de recursos estrangeiros, com apenas uma retração pontual entre 20 e 21 de agosto. Isso deixa uma pergunta em aberto — quem está sustentando a alta, se não é o investidor de fora? Um paradoxo que vale acompanhar nos próximos boletins.
Câmbio: real forte até aqui, mas com sinais de virada
O real foi uma das moedas de melhor desempenho do mundo no primeiro semestre, acumulando valorização de 8,48% frente ao dólar até início de agosto. Só que as projeções para o segundo semestre já não são tão animadoras: análises apontam dólar podendo encerrar o ano entre R$ 5,40 e R$ 5,60, muito em função do calendário eleitoral, que historicamente pressiona a moeda americana para cima entre abril e outubro. No fim de agosto, a cotação rondava R$ 5,14, dentro de uma faixa considerada “delicada” por analistas de tesouraria.
Dividendos: acabou a isenção de quase 30 anos
Talvez a mudança mais estrutural do ano seja silenciosa para o pequeno investidor, mas pesada para quem vive de grandes distribuições de lucro. Desde 1996, dividendos eram isentos de Imposto de Renda para pessoa física. A Lei nº 15.270/2025 muda isso: quem recebe mais de R$ 50 mil por mês de uma mesma empresa passa a sofrer retenção de 10% na fonte sobre o valor total do mês — não apenas sobre o excedente. Para quem recebe valores menores ou tem carteira pulverizada, nada muda. Paralelamente, nasce o Imposto de Renda da Pessoa Física Mínimo, mirando rendas anuais acima de R$ 600 mil, com alíquota mínima de 10% acima de R$ 1,2 milhão. Há uma regra de transição que preserva a isenção para lucros já aprovados até 31 de dezembro de 2025, mesmo pagos depois. A medida já é questionada na Justiça, mas a Receita defende que a cobrança é universal.
Bitcoin: intervenção do Tesouro americano turbina rali de curto prazo
No universo cripto, agosto foi de sacudidas fortes. Um anúncio do Tesouro dos EUA sobre recompra de títulos longos ajudou a disparar o Bitcoin em mais de 10% em um único dia, com liquidação recorde de posições vendidas. Dias depois, o ativo superou os US$ 75 mil, embalado também por sinalizações da Casa Branca em torno de regulação mais clara para o setor. Após realização de lucros, o Bitcoin voltou a subir, negociado a US$ 80.063 em 27 de agosto, sustentado por sete dias seguidos de entrada em ETFs spot — a semana mais forte do ano nesse quesito. Ainda assim, o preço segue quase 37% abaixo do topo histórico, um lembrete de que volatilidade continua sendo a marca registrada da classe.
O retrato de agosto, portanto, é de um mercado em transição em várias frentes ao mesmo tempo: juros caindo devagar, câmbio testando um novo patamar, bolsa buscando direção e uma reforma tributária redesenhando o cálculo de quem vive de dividendos. Para o investidor, a lição prática é a de sempre: entender o contexto, calibrar expectativas e não confundir movimento de curto prazo com tendência definitiva.
Conteúdo produzido com apoio de inteligência artificial, com curadoria editorial de Maickel.
— Maickel, colunista de finanças