Ouro nas alturas, Ibovespa em recorde e bitcoin capenga: a grande rotação de 2026 chega com nova tributação de dividendos
Se 2026 tivesse que ser resumido em uma imagem, seria a de um investidor olhando para três telas ao mesmo tempo: o ouro batendo recorde atrás de recorde, o Ibovespa emendando máximas históricas em sequência inédita, e o bitcoin, o queridinho do ciclo anterior, patinando bem abaixo do seu próprio topo. Some a isso uma Selic que finalmente começa a ceder e uma reforma tributária que devolve ao Brasil algo que não existia desde 1996 — o imposto sobre dividendos — e temos um dos anos mais ricos em movimentação de portfólio que já vi cobrir nesta coluna.
Selic: o corte que ainda não veio, mas pode vir
A Taxa Selic está em 14% ao ano, definida na reunião do Copom de 5 de agosto. O mercado vinha de um patamar de 15% ao ano entre junho de 2025 e março de 2026 — o maior nível em quase duas décadas — e só começou a cortar em março, quando a inflação deu sinais de arrefecimento. Mas a trajetória não tem sido um caminho reto: em abril, o próprio comitê citou as incertezas geopolíticas no Oriente Médio e o risco de inflação mais persistente como motivo para reduzir o ritmo de corte. A próxima decisão sai em 16 de setembro, e até a última leitura do mercado de juros futuros a probabilidade de manutenção da Selic em agosto rondava 92%, com o mercado dividido sobre o que vem em setembro. É o tipo de dado que muda de um dia para o outro, então vale desconfiar de qualquer certeza sobre o próximo passo do Banco Central.
Ibovespa: um ano de recordes que já supera a régua de 2025
Enquanto isso, a bolsa brasileira não para de bater teto. Só nos primeiros meses de 2026, o Ibovespa acumulou 10 recordes históricos em menos de um mês e meio — quase um terço de tudo que 2025 entregou, ano em que o índice subiu 34% e renovou máximas 32 vezes. Em 20 de fevereiro, o índice rompeu pela primeira vez os 190 mil pontos; quatro dias depois, fechou aos 191.490 pontos, com giro financeiro de R$ 33 bilhões no pregão — sinal de que não é só otimismo pontual, tem dinheiro pesado entrando. Em abril, novo recorde nominal, aos 192.201 pontos. O combustível dessa alta combina entrada de capital estrangeiro, dólar mais fraco (a bolsa acumulava 17,52% de alta até fevereiro, com o dólar no menor valor em 21 meses) e uma decisão da Suprema Corte americana que considerou ilegais as tarifas comerciais de Trump — evento que, curiosamente, também ajuda a explicar o próximo capítulo desta história.
Ouro: o grande vencedor, filho de uma crise de confiança institucional
Se hoje eu tivesse que escolher o ativo símbolo de 2026, seria o ouro. Em 2 de setembro, a onça fechou a US$ 4.382,95, alta de 1,25% no dia, 8,08% no mês e 23,14% em 12 meses. Dias depois, já operava acima de US$ 4.400, embalado por uma retração do dólar e dos rendimentos do Tesouro americano. Em algum momento de 2026 o metal chegou a superar US$ 5.000 a onça, com máximas de 52 semanas acima de US$ 5.400 — números que, há poucos anos, pareceriam ficção. Parte disso é conjuntura: um relatório de emprego ADP mais fraco que o esperado (38 mil vagas privadas em agosto, abaixo das 47 mil projetadas) e falas do presidente do Fed de Nova York sobre desaceleração da inflação reforçam a aposta em juros mais baixos nos EUA, o que historicamente favorece o ouro. Mas o pano de fundo é mais profundo: em janeiro, Powell revelou que o Departamento de Justiça abriu investigação criminal contra ele por declarações ao Congresso sobre a reforma da sede do Fed, em meio ao embate com Trump, que já vinha pressionando o banco central por juros mais baixos e chegou a ameaçar demitir o presidente da instituição. O episódio, encerrado em abril quando o caso foi encaminhado ao Inspetor-Geral do Fed, foi suficiente para investidores reduzirem exposição a ativos americanos e correrem para o ouro e a prata como proteção. O enfraquecimento do dólar completa o quadro: o índice DXY caiu de cerca de 110 pontos no início do governo Trump para perto de 96, o dólar recuou 11% em 12 meses e fechou a R$ 5,20, menor patamar em 20 meses. Bancos centrais — inclusive o brasileiro e, com destaque, o chinês — seguem comprando ouro, mas segundo economistas ouvidos pela Agência Brasil, o movimento mais forte vem mesmo de investidores buscando diversificação em meio à desconfiança institucional.
Bitcoin: o contraste do ano
Enquanto ouro e Ibovespa colecionam recordes, o bitcoin conta uma história bem diferente. Em 1º de setembro, era negociado a US$ 78.337,99 — bem distante da máxima histórica de US$ 126.073,42, atingida em outubro de 2025. Agosto trouxe uma recuperação forte, de 24,95%, mas o ativo ainda operava 9,62% abaixo de onde começou o ano. O detalhe mais interessante é quem comprou essa alta: praticamente só fundos institucionais, via ETFs à vista nos EUA, que captaram US$ 3,52 bilhões em agosto — revertendo sozinhos os US$ 5,30 bilhões em saques líquidos acumulados de janeiro a julho. Investidor de varejo, ao que tudo indica, vendeu durante a alta. É um lembrete de como o perfil de quem movimenta o bitcoin mudou nos últimos anos, e de como esse mercado segue mais volátil e menos previsível que ouro ou bolsa.
A nova tributação de dividendos: o capítulo que mexe com o bolso do investidor
Paralelamente a tudo isso, entrou em vigor em 1º de janeiro a reforma do Imposto de Renda sancionada em novembro de 2025. Ela amplia a isenção para cerca de 15 milhões de brasileiros que ganham até R$ 5 mil por mês, com uma faixa intermediária de alívio parcial até R$ 7.350. A contrapartida vem de cima: quem ganha a partir de R$ 50 mil mensais passa a pagar mais IR, e dividendos que superem esse valor mensal ficam sujeitos a uma alíquota fixa de 10%, retida na fonte — o retorno da tributação sobre lucros e dividendos que não existia desde 1996. Ao todo, o governo estima que 141 mil brasileiros passarão a pagar mais imposto. Para quem tem renda anual acima de R$ 600 mil, a lei ainda cria uma Tributação Mínima (IRPFM), com alíquotas progressivas que chegam a 10% sobre a base ajustada, incluindo dividendos integralmente nesse cálculo — embora um “Redutor da Tributação Mínima” busque evitar bitributação quando a carga combinada de empresa e pessoa física ultrapassar certos limites setoriais.
Um ponto de atenção para quem estrutura investimentos via holding ou é sócio de empresa: dividendos referentes a lucros apurados até 2025 só continuam isentos se a distribuição tiver sido aprovada até 31 de dezembro daquele ano — regra que já gera questionamento sobre possível efeito retroativo. E há uma frente de disputa em andamento envolvendo microempresários do Simples Nacional, que contestam a aplicação da nova regra com base na Lei Complementar 123/2006; já existe pelo menos uma liminar suspendendo a retenção de 10% para uma empresa nessas condições, mas ainda não há uma posição consolidada dos tribunais superiores.
O que fica de 2026, até aqui, é a sensação de que o mercado está reprecificando risco em várias frentes ao mesmo tempo — geopolítica, autonomia de bancos centrais, juros e tributação — e que cada um desses movimentos carrega consequências bem concretas para quem organiza carteira, empresa ou planejamento sucessório. Vale acompanhar de perto as próximas decisões do Copom e os desdobramentos jurídicos da reforma tributária, porque o desenho final desse quebra-cabeça ainda está sendo montado.
Conteúdo produzido com apoio de inteligência artificial, com curadoria editorial de Maickel.
— Maickel, colunista de finanças