Ibovespa bate 200 mil pontos, dólar despenca e Master ainda assombra: o raio-x do investidor após o 1º turno
A semana que começou nesta segunda-feira (5) entrará para os livros de história do mercado financeiro brasileiro. Um dia depois do primeiro turno das eleições presidenciais, o Ibovespa disparou 7,70% no fechamento, após tocar a máxima intradiária de 209.605,70 pontos — recorde histórico. Foi a primeira vez que a bolsa paulista fechou acima dos 200 mil pontos, encerrando o pregão a 206.911,89. No câmbio, o choque foi na direção oposta: o dólar caiu 4,12%, para R$ 5,0022, o maior recuo diário em mais de oito anos.
O gatilho foi o resultado das urnas de domingo (4), com vantagem do senador Flávio Bolsonaro (PL), que obteve 47,03% dos votos válidos contra 45,16% de Lula (PT) — uma diferença de pouco mais de 2,2 milhões de votos. O segundo turno está marcado para outubro, embora ainda valha a pena confirmar a data exata junto ao TSE, já que há divergência entre fontes sobre o dia 25 ou 26.
Por que o mercado reagiu assim
Analistas ouvidos no mercado associam o movimento a uma reprecificação do risco fiscal brasileiro. Rebecca Nossig, estrategista da Nomad, resumiu o clima afirmando que o resultado das urnas trouxe uma melhora nas perspectivas para a trajetória da dívida pública, ancorando a confiança em um cenário mais estável a partir de 2027. Já André Matos, da MA7 Capital, destacou que o mercado vinha projetando o dólar a R$ 5,20 havia 16 semanas seguidas — e a quebra abaixo de R$ 5 em um único pregão sinaliza uma virada relevante na percepção de risco.
Bancos estrangeiros já trabalham com uma nova faixa para o câmbio, entre R$ 4,80 e R$ 4,95 nas próximas semanas, podendo recuar ainda mais se houver sinalização concreta de ajuste fiscal. Vale o alerta: essas são projeções condicionadas à evolução do cenário político, não uma trajetória garantida.
No pregão de segunda, o setor financeiro liderou as altas: BTG Pactual subiu 31,5%, Bradesco avançou 14,5% e Banco do Brasil ganhou 12,94%. A Petrobras também surfou o otimismo, com PETR4 subindo 8,19%. Nos juros futuros, os DIs de longo prazo desabaram mais de 130 pontos-base, enquanto o mercado de curto prazo passou a precificar cerca de 15% de chance de um corte mais agressivo da Selic em novembro.
Fica aqui uma reflexão importante para quem investe: um movimento de 9% em um único pregão é mais do que a variação anual de muitos fundos conservadores. É o tipo de episódio que lembra por que decisões de alocação de patrimônio não deveriam ser tomadas no calor de um dia de euforia ou pânico — o segundo turno ainda está por vir, e a volatilidade pode se repetir.
Selic em queda, mas crédito ainda pesa no bolso
Um dia antes da disparada da bolsa, o Copom cortou a Selic para 13,75% ao ano, no sexto corte consecutivo desde o pico de 15% registrado em janeiro — o maior patamar desde 2006. A próxima reunião do colegiado está marcada para 4 de novembro, bem perto do possível segundo turno, o que deve manter a tensão em alta no noticiário econômico. Vale lembrar que, mesmo com a Selic em dois dígitos, a escolha da modalidade de crédito ainda faz diferença relevante no orçamento das famílias — a distância entre as taxas praticadas no mercado pode representar economia significativa ao longo de um contrato de empréstimo.
O “efeito Master” ainda não acabou
Enquanto o mercado comemora recordes, o sistema financeiro carrega uma cicatriz recente: o colapso do Banco Master, que em novembro de 2025 culminou na prisão do banqueiro Daniel Vorcaro — detido no aeroporto de Guarulhos quando tentava embarcar rumo a Dubai, com escala em Malta — e na liquidação da instituição pelo Banco Central. O rombo é estimado entre R$ 41 bilhões e R$ 55 bilhões, a depender da fonte, o maior já registrado no Fundo Garantidor de Créditos.
O caso virou estudo de caso obrigatório sobre risco em renda fixa: o Master oferecia CDBs com taxas de até 140% do CDI, vendidos sob o argumento da garantia do FGC — proteção que cobre até R$ 250 mil por CPF em caso de liquidação. Rentabilidade muito acima da média de mercado deveria sempre acender um sinal de alerta, não de euforia.
O episódio já gerou efeito regulatório: o senador Ciro Nogueira apresentou uma PEC, apelidada de “emenda Master”, para quadruplicar a cobertura do FGC, de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por CPF. E as ondas de choque seguem: o Banco Pleno, que herdou cerca de R$ 6 bilhões em CDBs do Master, enfrenta dificuldades para honrar os papéis, quase um ano depois do estouro do escândalo. Mesmo preso, Vorcaro conseguiu votar no primeiro turno, já que presos provisórios sem condenação definitiva mantêm os direitos políticos.
Ouro e Bitcoin: proteção com solavancos
No câmbio das reservas de valor internacionais, o ouro também teve um ano de montanha-russa. Depois de bater recorde histórico de US$ 5.326 a onça em janeiro, o metal caiu cerca de 27% até o fim de junho, estabilizando-se depois entre US$ 4.300 e US$ 4.600. Nesta segunda-feira, era negociado a US$ 4.153,56, sustentado por compras recordes de bancos centrais — 289 toneladas só no segundo trimestre, cinco vezes mais que no primeiro.
Já o Bitcoin segue um “Uptober” morno: negociado perto de US$ 86 mil, ainda está 32,6% abaixo da máxima histórica de US$ 126 mil, atingida em outubro de 2025. O movimento recente de alta tem sido puxado por entradas institucionais em ETFs e por um mercado de trabalho americano mais fraco do que o esperado, fatores que reacenderam o apetite por ativos de risco.
O retrato de outubro de 2026, portanto, é de um investidor brasileiro cercado de sinais contraditórios: euforia na bolsa, alívio no câmbio, juros ainda altos, memória recente de um calote bilionário em renda fixa e ativos internacionais buscando um novo equilíbrio. Mais do que nunca, é um momento para observar o cenário com atenção — e sem pressa para tirar conclusões definitivas antes do segundo turno.
Conteúdo produzido com apoio de inteligência artificial, com curadoria editorial de Maickel.
— Maickel, colunista de finanças