Ouro nas alturas, bitcoin em queda e Ibovespa nas nuvens: o mês em que o dinheiro global entrou em parafuso
Outubro de 2026 vai entrar para a história recente do mercado como um mês de contrastes extremos. Enquanto o ouro dispara para recordes sucessivos e o Ibovespa bate máximas históricas em reais, o bitcoin patina em correção profunda e Wall Street começa a se perguntar, em voz alta, se os bilhões investidos em inteligência artificial vão realmente se transformar em lucro. São quatro movimentos que, à primeira vista, parecem desconexos — mas contam a mesma história: a de um investidor global que está, simultaneamente, eufórico e com muito medo.
O ouro como termômetro do nervosismo
Na sexta-feira (16/10), o ouro à vista subiu para US$ 4.174,76 a onça, com os futuros avançando a US$ 4.195,87, após fechar o pregão anterior em alta de 1,6% — o maior ganho diário em mais de duas semanas. O movimento tem explicação direta: a queda dos rendimentos dos títulos do Tesouro americano, entre 12 e 15 pontos-base, e a desvalorização do dólar tornaram o metal mais atraente justamente no momento em que as ações de tecnologia ligadas à IA começaram a derreter. No Brasil, o ouro também bateu recorde, cotado a R$ 680,73 por grama (24 quilates) em meados do mês. Para dar dimensão ao tamanho do rali, basta olhar o intervalo de 52 semanas do contrato futuro: de US$ 3.890,70 a US$ 5.626,80. Curiosamente, nem tudo foi festa dentro do próprio universo do ouro: enquanto um investidor relatou ganhos de 42% em ETC de ouro e 86% em ETF de mineradoras no acumulado, outubro isoladamente foi um mês ruim para as commodities, com o metal perdendo cerca de 3% no período e mineradoras e prata recuando perto de 11%. Ou seja, mesmo dentro do “porto seguro” há volatilidade.
A desconfiança com a IA que assustou o mercado
O gatilho por trás da corrida ao ouro tem nome e sobrenome: bolha de inteligência artificial. Em 15 de outubro, os futuros do Nasdaq 100 recuaram 1,2% depois que a Anthropic revelou a investidores um crescimento trimestral de US$ 16,8 bilhões — número robusto, mas que sinalizou desaceleração. No dia seguinte, o estresse ganhou um símbolo: a CoreWeave, companhia de computação em nuvem avaliada em US$ 39 bilhões e apoiada pela Nvidia, viu suas ações recuarem mais de 15%, enquanto os rendimentos de seus títulos com vencimento em 2030 saltaram 500 pontos-base, batendo cerca de 16%. Microsoft e Oracle somaram alertas sobre atrasos em data centers, gargalos de energia e componentes e até planos de big techs de desenvolver chips próprios para driblar a dependência da Nvidia. O estrago foi global: as fabricantes de semicondutores dos EUA perderam, juntas, mais de um bilhão de dólares em valor de mercado em uma semana, e na Ásia SK Hynix e Samsung caíram mais de 10% em uma única sessão. Um dado técnico resume bem o tamanho do exagero: o índice CAPE, criado por Robert Shiller, está em cerca de 42 vezes — mais que o dobro da média histórica e só comparável à bolha da internet de 1999, quando chegou a 44 vezes. Vale o contraponto: o S&P 500 como um todo negocia a 19 vezes o lucro projetado, perto da média de dez anos, o que sugere que o excesso está concentrado nas gigantes de IA, não no mercado inteiro.
Bitcoin: a ressaca de um ano depois
Enquanto o ouro brilha, o bitcoin sofre. A criptomoeda, que bateu máxima histórica de US$ 126.080 em outubro de 2025, negociava na faixa de US$ 82.500 a US$ 83.400 em meados deste mês, após cair abaixo de US$ 81 mil no dia 14, puxado por dados de inflação americana que dispararam pressão vendedora — com liquidações de futuros cripto somando US$ 927,3 milhões em um único dia. A coincidência de datas é simbólica: o tombo acontece quase no aniversário do flash crash de 10 de outubro de 2025, quando o bitcoin despencou de US$ 122 mil para US$ 105 mil em minutos, após ameaças de tarifas de Donald Trump zerarem posições compradas e liquidarem mais de US$ 19 bilhões em apostas digitais. Um detalhe técnico ajuda a entender a fragilidade atual: os ETFs de bitcoin à vista nos EUA, que durante boa parte de 2026 funcionaram como comprador estrutural absorvendo cada queda, inverteram o sinal e registraram saídas líquidas de US$ 484,9 milhões só no dia 7 de outubro. Com menos esse colchão, as quedas doem mais.
Brasil: euforia eleitoral na B3
Na contramão do nervosismo global, o Ibovespa viveu um outubro de recordes. No dia 9, o índice fechou em alta de 1,38%, aos 209.066 pontos, após bater máxima intradiária de 209.713 — o terceiro maior avanço semanal desde janeiro de 2020, segundo a Elos Ayta Consultoria. O gatilho foi o desfecho do primeiro turno das eleições presidenciais, que animou investidores e levou o índice a disparar mais de 8% em um único pregão. Em termos reais, corrigido pelo IPCA, o patamar supera o recorde histórico de maio de 2008 em cerca de 3,03%. Mas a euforia não eliminou a volatilidade: dias depois, na terça-feira (13/10), o Ibovespa abriu em queda de 1,16%, marcando 206.633 pontos, no mesmo momento em que o FMI revisava para baixo a projeção de crescimento do PIB brasileiro, de olho em 2,2% em 2026 e 1,9% em 2027.
Selic: cortes graduais, sem pressa
No pano de fundo monetário, o Banco Central segue reduzindo os juros com cautela. Depois de cortar a Selic pela quinta vez seguida, por unanimidade, para 13,75% ao ano, o Copom sinalizou na ata mais recente que o ritmo de 0,25 ponto percentual por reunião deve continuar — mas sem espaço para acelerar. A autoridade monetária reconheceu sinais mais claros de desaceleração da atividade, confirmados pelo PIB do segundo trimestre e pelo enfraquecimento do crédito livre, mas mantém o discurso de cautela: o balanço de riscos segue assimétrico para cima, por causa da desancoragem das expectativas de inflação, da resiliência da inflação de serviços e das incertezas fiscais e externas.
O lembrete que não pode ser esquecido: o caso Master
Em meio a tanta volatilidade nos mercados de risco, vale reforçar uma lição que o investidor brasileiro aprendeu (ou deveria ter aprendido) há quase um ano: nem todo rendimento alto é gratuito. A liquidação do Banco Master, em novembro de 2025, gerou um rombo estimado em R$ 41 bilhões ao Fundo Garantidor de Créditos — o maior da história do fundo. O modelo de negócio, baseado em CDBs de alta remuneração lastreados em ativos de baixa liquidez, foi descrito pelo próprio ex-controlador, Daniel Vorcaro, como “100% baseado no FGC”. A Operação Compliance Zero, que prendeu Vorcaro em novembro de 2025, já soma sete fases até maio de 2026, e o caso segue gerando desdobramentos — inclusive políticos, com a repercussão em setembro sobre a relação do banqueiro com o ministro Alexandre de Moraes, do STF.
O retrato de outubro de 2026, portanto, é o de um sistema financeiro global tentando precificar, ao mesmo tempo, o fim de um ciclo de otimismo com IA, uma correção de criptoativos, uma eleição que anima a bolsa brasileira e um Banco Central que segue afrouxando os juros com o pé no freio. Para o investidor, a lição prática não é sobre qual ativo escolher, mas sobre entender que extremos de euforia e de medo convivem no mesmo mês — e que diversificação e cautela com o risco de crédito, como mostrou o caso Master, continuam sendo os fundamentos mais básicos e, ainda assim, os mais ignorados.
Conteúdo produzido com apoio de inteligência artificial, com curadoria editorial de Maickel.
— Maickel, colunista de finanças