Entre as urnas e os juros: o que explica a guinada do dólar e a pausa do Ibovespa a quatro dias do 1º turno
Faltam poucos dias para 4 de outubro, e o mercado financeiro brasileiro entrou naquele estado que todo investidor experiente reconhece: a espera tensa. Depois de um ano de recordes seguidos na bolsa e de um real que chegou a se valorizar quase 7% frente ao dólar, as últimas sessões de setembro trouxeram um recado diferente. O Ibovespa emendou três quedas seguidas, o dólar fechou na máxima em seis meses, batendo R$ 5,18, e a volatilidade implícita do câmbio para o período entre os dois turnos saltou de cerca de 15,5% para perto de 19%. Não é pânico, mas é, sem dúvida, um mercado prendendo a respiração.
Um ano que começou com recordes históricos
Vale lembrar o caminho percorrido até aqui para entender o tamanho da virada. O Ibovespa viveu 2026 quebrando marcas sucessivas: 186 mil pontos em fevereiro, depois 191 mil, depois 192 mil em abril, até os 198.657 pontos do 18º recorde nominal do ano, quase batendo na casa psicológica dos 200 mil. É bom frisar um detalhe técnico pouco comentado: segundo levantamento destacado pela imprensa especializada, essa foi a primeira vez em 18 anos que a bolsa brasileira superou seu recorde também em termos reais, descontada a inflação — não é só nominal, é poder de compra mesmo. A própria XP, que havia projetado 190 mil pontos como valor justo para o ano, viu o mercado furar essa conta rapidamente, com um cenário otimista de até 235 mil pontos ainda em aberto.
Entre os motores desse rali estiveram o ciclo de corte de juros — a Selic saiu de 15%, patamar mais alto em quase 20 anos, para 13,75% na reunião do Copom de 16 de setembro — e também fatores externos, como a alta do petróleo em meio às tensões no Oriente Médio, que empurrou o Brent para perto de US$ 96 o barril e beneficiou diretamente o peso da Petrobras no índice.
Por que o clima mudou agora
A proximidade do primeiro turno parece ser o gatilho mais evidente para a guinada recente. As pesquisas Datafolha mais recentes mostram Lula com 40% e Flávio Bolsonaro com 36% no primeiro turno, com cenário de segundo turno apertado — 47% a 45%, dentro da margem de erro. É o tipo de cenário que historicamente deixa o mercado cambial nervoso: um levantamento das últimas quatro eleições mostra que não há um padrão direcional fixo para o dólar nos 30 dias antes do primeiro turno, mas há, sim, um padrão de intensidade — e a intensidade atual é alta.
Há também um contraponto externo relevante, que às vezes passa despercebido em meio ao ruído eleitoral doméstico: o Federal Reserve elevou juros em 16 de setembro, para a faixa de 3,75% a 4% ao ano, a primeira alta desde julho de 2023, e o mercado já precifica cerca de 64% de chance de uma nova alta na reunião de 27 e 28 de outubro. Isso importa porque reduz, ainda que parcialmente, o apetite por carregar posições em mercados emergentes como o Brasil — um fator que compete diretamente com o nosso diferencial de juros, que até aqui vinha atraindo capital estrangeiro.
O “trade eleitoral” e o que vem depois do domingo
Analistas de mercado já falam abertamente em “trade eleitoral”: ativos sensíveis ao resultado das urnas, como Petrobras e Banco do Brasil, tendem a reagir com força ao desempenho dos candidatos na apuração. O precedente de 2022 é didático — um dia após aquele primeiro turno, a bolsa disparou 4,79%, a Petrobras abriu em alta de mais de 8% e o Banco do Brasil subiu 7,7%, enquanto o dólar recuou mais de 4%. Não é uma garantia de repetição, mas ajuda a entender por que o mercado se movimenta tanto nos dias que antecedem a votação.
O JPMorgan, em nota recente, trouxe uma visão que vale o contraponto ao otimismo generalizado: segundo o banco, os ativos brasileiros ainda embutem um prêmio de risco eleitoral relativamente pequeno, e uma eventual nova onda de valorização dependeria menos do resultado em si e mais de os juros convergirem para um patamar mais neutro. O banco lista o que o mercado vai realmente observar depois do pleito: o anúncio da equipe econômica, a definição de metas fiscais, a construção de uma base de apoio no Congresso e sinais de popularidade suficientes para que o governo eleito consiga de fato executar sua agenda.
Pano de fundo: inflação sob controle, mas distante da meta
Enquanto a política ocupa o centro das atenções, a inflação vem surpreendendo para o lado bom. Em agosto, o IPCA recuou 0,32%, levando o acumulado em 12 meses de 4,44% para 4,22% — abaixo do teto da meta, de 4,5%, embora ainda distante do centro, de 3%. A trajetória do ano mostra desaceleração clara: de uma alta de 0,88% em março para a deflação de agosto, puxada principalmente pelo recuo de 1,25% nos preços administrados. É esse quadro de inflação em queda que deu ao Banco Central espaço para tocar o ciclo de corte da Selic, ainda que a instituição deva calibrar o ritmo com cautela diante do risco cambial que a própria eleição impõe agora.
No fim das contas, o investidor brasileiro se vê diante de uma equação com várias variáveis simultâneas: juros em queda, inflação comportada, bolsa que bateu recordes o ano inteiro, mas também um dólar nervoso, um Fed que caminha na direção oposta e uma eleição apertada cujo desfecho só vai começar a ficar mais claro depois de domingo. É um momento para acompanhar com atenção redobrada — e sem pressa para tirar conclusões precipitadas antes que as urnas falem.
Conteúdo produzido com apoio de inteligência artificial, com curadoria editorial de Maickel.
— Maickel, colunista de finanças