Guerra, Selic e eleição: o tabuleiro que está redesenhando a carteira do investidor brasileiro
Tem semana em que o mercado parece movido por um único assunto, e tem semana em que três ou quatro fios se entrelaçam ao mesmo tempo. Estamos numa dessas. De um lado, a escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã continua jogando gasolina — literalmente — nos preços de energia e no humor do investidor. De outro, o Banco Central se prepara para mais uma rodada de cortes na Selic, num ciclo que começou o ano com expectativas otimistas e foi obrigado a se reajustar diante da instabilidade geopolítica. E, no meio disso tudo, cripto e renda fixa brigam por espaço na carteira de quem tenta proteger patrimônio sem perder rentabilidade.
O barril de petróleo como termômetro da tensão
Desde março, quando Israel atacou instalações de gás e petróleo no Irã e o Brent disparou para 110 dólares o barril, o mercado global vive sob o risco de novos choques energéticos. A Guarda Revolucionária iraniana chegou a classificar infraestruturas do Golfo como “alvos legítimos”, e o bloqueio efetivo de petroleiros no Estreito de Ormuz levou países como Kuwait, Iraque e Emirados Árabes Unidos a reduzir produção. Uma estimativa da época chegou a apontar que quase um quinto da oferta global de petróleo e gás natural estava comprometido.
O capítulo mais recente é de dois dias atrás: em 9 de setembro, o dólar avançava 0,38%, cotado a R$ 5,108, enquanto o Ibovespa recuava 1,10%, aos 185.296 pontos — dia em que a Guarda Revolucionária iraniana afirmou ter atacado dez navios e disparado mísseis contra uma base na Jordânia usada pelas forças americanas. Some-se a isso os desdobramentos da crise no STF, e fica claro por que Leonel Oliveira Mattos, analista da StoneX, avalia que “a crise institucional prolongada representa um risco para a credibilidade do país”. O mecanismo é conhecido: choques desse tipo afetam energia, inflação esperada e percepção de segurança, e historicamente levam o mercado a vender moedas emergentes e ações, migrando para dólar, Treasuries e ouro.
Selic: corte à vista, mas sem pressa
A taxa básica começou 2026 em 15%, com expectativa de queda de até 3 pontos percentuais no ano — projeção que se desfez rapidamente diante da guerra. Ainda assim, o Copom já promoveu quatro cortes consecutivos: de 15% para 14,50% em março, depois para 14,25% em junho e para 14% em agosto, sempre citando o conflito no Oriente Médio como fator que pressiona combustíveis e alimentos e dificulta reduções mais rápidas.
Na próxima semana, dias 15 e 16 de setembro, o comitê volta a se reunir, e o mercado precifica um novo corte, para 13,75%. A ata sai em 22 de setembro, e ainda restam dois encontros em 2026 — novembro e dezembro. O Boletim Focus projeta Selic em 13,75% no fim deste ano, 12% em 2027 e patamares de dois dígitos até 2029. Ou seja: o ciclo de afrouxamento é real, mas lento, e os juros devem seguir elevados por bastante tempo.
Um respiro na inflação
O IPCA-15 de agosto trouxe uma surpresa positiva: queda de 0,40%, acima do que o mercado esperava (-0,30%). O resultado foi puxado por habitação, transportes e alimentação, com destaque para quedas expressivas de passagem aérea e energia elétrica em Curitiba. Em Belo Horizonte, um detalhe curioso: o “Bônus de Itaipu”, desconto aplicado nas contas de luz, teve papel relevante na desaceleração do índice na região. No acumulado de 12 meses, a inflação medida pelo indicador caiu para 4,24%, ante 4,52% no período anterior — um sinal de alívio, mas ainda distante da meta.
Renda fixa segue atrativa, mas exige atenção aos prazos
Com a Selic ainda em 14%, a renda fixa continua remunerando bem. Simulações mostram que CDBs de bancos médios, pagando até 105% do CDI, superam a poupança com folga num horizonte de 30 meses. Vale lembrar que a poupança só passaria a render 70% da Selic mais TR se a taxa básica caísse para 8,5% ao ano ou menos — cenário ainda distante. Prefixados permitem travar taxas atuais diante da perspectiva de novos cortes, enquanto o Tesouro IPCA+ protege o poder de compra combinando taxa fixa e correção inflacionária. O alerta que cabe aqui: a tentação de alongar prazos apostando em cortes futuros pode sair caro para quem não avalia a própria necessidade de liquidez — resgatar título longo antes do vencimento pode significar perda real.
Bitcoin: fundos compram, varejo vende
Um dos dados mais interessantes do mês vem da criptoeconomia. Em agosto, o Bitcoin subiu quase 25%, movimento puxado quase inteiramente por fundos institucionais — ETFs spot captaram US$ 3,52 bilhões no mês, revertendo uma perda acumulada de mais de US$ 5 bilhões entre janeiro e julho. O varejo, por outro lado, esteve do lado vendedor. Nos dias mais recentes, o ativo voltou a recuar, negociado perto de US$ 78 mil, ainda distante da máxima histórica. O Índice de Medo e Ganância, em 69 pontos, mostra que o mercado segue otimista, mesmo com a volatilidade recente — um retrato de como a tensão geopolítica também tem influenciado o apetite por ativos digitais.
O pano de fundo eleitoral, com pesquisas mostrando corrida acirrada para 2026, só adiciona mais uma camada de incerteza a esse quadro. Juntando guerra, juros e urnas, o investidor brasileiro termina o ano tendo que equilibrar cautela e oportunidade — sem atalhos fáceis.
Conteúdo produzido com apoio de inteligência artificial, com curadoria editorial de Maickel.
— Maickel, colunista de finanças