Juros ainda altos, ouro em recorde e dividendos taxados: o retrato dos investimentos no Brasil em 2026
Setembro fecha com um panorama que merece atenção de qualquer investidor brasileiro: o Copom cortou a Selic, mas o alívio é modesto; a Receita Federal passou a morder uma fatia dos dividendos que há quase três décadas eram intocáveis; e o ouro segue como o grande protagonista global, mesmo depois de um mês de correção. Vamos por partes.
Selic corta, mas o custo do dinheiro continua elevado
O Copom se reuniu nos dias 15 e 16 de setembro e confirmou o que praticamente todo o mercado já esperava: um corte de 0,25 ponto percentual, levando a taxa básica de 14% para 13,75% ao ano. A ata, prevista para 22 de setembro, deve detalhar o tom do comitê sobre inflação e atividade, mas o movimento em si já sinaliza um ciclo de afrouxamento lento, não uma virada abrupta. Restam duas reuniões em 2026 — nos dias 3 e 4 de novembro e 8 e 9 de dezembro — e o mercado vai testar a cada uma delas se o Banco Central mantém o ritmo cauteloso.
Para quem guarda dinheiro na poupança, a notícia é de continuidade: como a Selic permanece acima de 8,5% ao ano, a caderneta segue rendendo 0,5% ao mês mais a Taxa Referencial, sem qualquer mudança na fórmula. Já para quem olha o horizonte mais longo, o Focus de 14 de setembro trouxe uma trajetória de queda mais lenta do que muita gente projetava meses atrás: Selic em 13,75% no fim de 2026, 12% em 2027, 10,5% em 2028 e 10% em 2029. É um cenário de juro real ainda elevado por bastante tempo — o que, de resto, ajuda a explicar por que o capital estrangeiro segue encontrando motivos para permanecer no Brasil, mesmo com o Fed sinalizando novo aperto lá fora. Vale um lembrete técnico pouco comentado: quem já está posicionado em prefixados e títulos indexados à inflação tende a se beneficiar da marcação a mercado nesse movimento de corte, enquanto quem compra agora entra com um retorno mais comprimido.
Fim de uma era: dividendos deixam de ser isentos
Se hoje eu tivesse que escolher o fato mais relevante para o investidor pessoa física em 2026, seria este: a Lei nº 15.270, sancionada em novembro de 2025, encerrou quase 30 anos de isenção total do Imposto de Renda sobre lucros e dividendos. Desde 1996, o empresário ou investidor recebia esses valores sem pagar nada a mais — a empresa já havia recolhido IRPJ e CSLL. Essa lógica mudou.
Na prática, desde janeiro deste ano, sempre que uma pessoa jurídica distribui a uma mesma pessoa física mais de R$ 50 mil em um único mês, há retenção de 10% na fonte, funcionando como antecipação do chamado Imposto de Renda da Pessoa Física Mínimo — tributo novo que passa a incidir sobre quem tem renda anual acima de R$ 600 mil. A estrutura completa do novo IRPF tem quatro pilares: isenção total até R$ 5 mil mensais, redução gradual entre R$ 5 mil e R$ 7.350, a tributação mínima para altas rendas e os 10% sobre dividendos que ultrapassam R$ 50 mil no mês, inclusive quando remetidos ao exterior.
Há uma regra de transição que vale registrar: dividendos apurados até 2025 continuam isentos, desde que a distribuição tenha sido aprovada até 31 de dezembro daquele ano, mesmo que o pagamento efetivo ocorra em 2026, 2027 ou 2028. E permanecem de fora desse novo cálculo instrumentos como LCI, LCA, CRI, CRA, debêntures incentivadas, fundos imobiliários e Fiagro — o que reforça o apelo desses papéis para quem monta carteira de renda.
Um ponto ainda em aberto, e que deveria preocupar pequenos empresários: a Receita defende que a nova tributação vale também para quem está no Simples Nacional, mas especialistas e decisões judiciais contestam, argumentando que uma lei ordinária não pode se sobrepor aos benefícios da Lei Complementar 123/2006. É um imbróglio jurídico que ainda vai render capítulo. Do lado corporativo, já se discute que empresas podem reagir com mais recompras de ações e maior reinvestimento de lucro em vez de distribuição — um fator que muda a lógica de quem investe em bolsa mirando dividendos.
Ouro: recorde histórico, mas com solavancos
Poucos ativos tiveram um ciclo tão espetacular quanto o ouro. Depois de romper US$ 4.300 em outubro do ano passado, o metal chegou a bater US$ 5.326 em janeiro de 2026 — recorde histórico e alta de mais de 90% em doze meses. Em 25 de setembro, era negociado a US$ 4.285, ainda 13,70% acima do patamar de um ano atrás, mas 6,72% abaixo do pico recente, pressionado pela possibilidade de o Fed reforçar o aperto monetário diante de dados de inflação e atividade mais resistentes nos EUA — um contraponto curioso, já que o mercado passou boa parte do ano apostando justamente no caminho oposto.
A prata seguiu o mesmo roteiro, saindo de US$ 30 para um recorde de US$ 115 em um ano. O fio condutor por trás dessa disparada, segundo analistas, é a desconfiança crescente em relação ao dólar — o índice DXY, que rondava 110 pontos no início do governo Trump, hoje opera perto de 96. Bancos como o Goldman Sachs projetam o ouro em US$ 5.400 até dezembro, citando o aperto de liquidez em Londres e as compras persistentes de bancos centrais asiáticos, com destaque para a China. Como resume Welinton dos Santos, do Corecon-SP, o momento divide opiniões entre quem prefere realizar lucro e quem aposta que a volatilidade global continuará favorecendo o metal — com a diversificação sendo, nas palavras dele, sempre recomendável.
Ibovespa: recordes nominais, mas com solavancos geopolíticos
A bolsa brasileira também teve seu ano de recordes nominais — o Ibovespa acumulou 17,52% de alta até fevereiro e chegou a bater 192.201 pontos em abril, o 14º recorde do ano. Mas o índice não andou em linha reta: em março, tensões no Oriente Médio e a alta do petróleo pesaram sobre bancos e derrubaram o Ibovespa para 181.557 pontos. Em setembro, o mercado voltou a respirar melhor, fechando o dia 22 aos 186.595 pontos, puxado por blue chips e pelo setor financeiro — um sinal de que, apesar da volatilidade externa, o apetite por ativos brasileiros segue firme.
Bitcoin: entre o medo do Fed e o alívio geopolítico
Se em janeiro o Bitcoin flertava com US$ 97 mil, em setembro a realidade era outra: no dia 9, era negociado a US$ 79.077, cerca de 38% abaixo da máxima histórica de US$ 126.080, com o mercado precificando quase 60% de chance de o Fed subir juros — não cortar — na reunião de 15 e 16 de setembro. Essa inversão de expectativa foi o gatilho da correção recente. Depois, um alívio geopolítico, com os EUA recuando de uma operação militar que se desenhava, ajudou a criptomoeda a saltar para US$ 85.174 em 21 de setembro, maior preço desde janeiro, com entrada líquida de US$ 433 milhões em ETFs de bitcoin à vista só na sexta-feira anterior. Nos dias seguintes, o fôlego arrefeceu: às 13h de 26 de setembro, o ativo operava a US$ 84.132, com variação positiva de apenas 0,5% em 24 horas — um lembrete de que, no mundo cripto, a volatilidade segue sendo a única certeza.
Conteúdo produzido com apoio de inteligência artificial, com curadoria editorial de Maickel.
— Maickel, colunista de finanças