Juros caindo, bolsa nas alturas, dólar mais fraco: o ano em que os sinais se inverteram no mercado brasileiro
Se alguém pediu um resumo de 2026 em uma frase, eu diria: é o ano em que os ativos brasileiros pararam de se mover na direção que o manual de mercado ensina. A Selic cai, mas ainda é a maior do mundo em termos reais. O dólar cai, o Ibovespa sobe, e os dois “portos seguros” que dominaram as conversas de investimento em 2025 — ouro e bitcoin — estão em plena correção. Como colunista, confesso que é raro ver tanta dissonância ao mesmo tempo, e vale a pena destrinchar peça por peça.
O ciclo de juros que ainda não convence de vez
O Copom cortou a Selic pela quarta vez seguida em 2026, levando a taxa de 14,25% para 14,00% ao ano na reunião de 4 e 5 de agosto, decisão unânime. É o menor patamar desde o início do atual ciclo de aperto, mas ninguém no Banco Central está tratando isso como sinal de festa: o nível ainda é considerado restritivo, acima do que se julga neutro para a economia. O IPCA acumulado em 12 meses fechou julho em 4,44%, acima do centro da meta de 3%, mas dentro da banda de tolerância. A próxima decisão sai em 15 e 16 de setembro, e o Focus projeta a Selic terminando o ano em 13,75%.
O dado que mais chama atenção, na minha leitura, é o do juro real: descontada a inflação, o Brasil paga cerca de 9,30% ao ano, o maior do mundo entre 40 economias pesquisadas, à frente de Rússia e Colômbia. É um prêmio generoso, mas que já vem encolhendo — os quatro cortes deste ano tiraram 1 ponto percentual dessa vantagem. Ainda assim, o diferencial entre Brasil e Estados Unidos gira em torno de 10,4 pontos percentuais, e é esse spread que segue puxando capital estrangeiro para cá.
Um real que surpreende no cenário global
O dólar saiu de R$ 5,4372 em janeiro para a casa de R$ 5,08 no início de agosto, com o real acumulando valorização de 8,48% no ano até o dia 3 — a segunda maior alta entre moedas relevantes no mundo, atrás só do peso colombiano. Volatilidade não faltou: tensões no Oriente Médio, guerra tarifária dos EUA e postura dura do Fed mexeram com o câmbio o ano inteiro. O Focus projeta o dólar fechando 2026 perto de R$ 5,20, mas há um alerta histórico que vale registrar: em anos de eleição presidencial, a moeda americana costuma subir entre abril e outubro. Ou seja, a trajetória de queda não está garantida até dezembro.
Ibovespa: recorde atrás de recorde, com um soluço no meio
A bolsa brasileira teve um dos melhores anos de sua história recente, com mais de uma dezena de recordes. Em fevereiro, o índice fechou pela primeira vez acima dos 191 mil pontos, acumulando alta de quase 19% no ano até aquele momento, puxado principalmente por bancos e Petrobras, além de forte fluxo estrangeiro somado ao dólar mais fraco. Mas nem tudo foi linear: em agosto, o Ibovespa chegou a orbitar os 170 mil pontos, em meio a uma sequência de 11 fechamentos negativos. É um lembrete útil de que tendência de alta estrutural não significa ausência de correção — e que quem acompanha o mercado de perto sabe que essas oscilações fazem parte do jogo, não o invalidam.
O tarifaço que não some do radar
A tarifa de 50% sobre bens brasileiros, imposta pelos EUA em agosto de 2025, seguiu sendo revisada ao longo do ano. Aeronaves, energia, suco de laranja e outros setores foram poupados, e em fevereiro houve nova rodada de isenções. Mas a queda de braço não acabou: mesmo com a Suprema Corte americana derrubando a tarifa geral, aço e alumínio seguem sob sobretaxa de 50%, e uma investigação sobre “trabalho forçado” elevou a tarifa final de diversos produtos brasileiros a 37,5%. O resultado prático já aparece no chão de fábrica de estados como Mato Grosso do Sul, Espírito Santo e Paraná, com suspensão de embarques e férias coletivas — mesmo com o Brasil batendo recorde histórico de exportações em 2025, US$ 348,7 bilhões. É o tipo de contradição que mostra como a economia real nem sempre acompanha os números agregados.
Isenção do IR: alívio no bolso, mas não ainda na declaração
A Lei 15.270/2025, sancionada em novembro passado, isenta do Imposto de Renda quem ganha até R$ 5 mil por mês e dá desconto a quem recebe até R$ 7.350, beneficiando mais de 15 milhões de contribuintes — mais de 10 milhões deixarão de pagar o tributo e outros 5 milhões terão redução. A medida já vale na folha desde janeiro, mas quem declara IR este ano precisa ficar atento: a declaração de 2026 trata do ano-calendário 2025, então o efeito completo só aparece na declaração de 2027. Como contrapartida, foi criado um imposto mínimo para quem ganha acima de R$ 50 mil por mês.
Ouro e bitcoin: a narrativa de proteção que rachou
Depois de um 2025 espetacular, o ouro caiu cerca de 26% entre o pico de janeiro, perto de US$ 5.600 a onça, e o começo de julho, quando operava perto de US$ 4.165 — seu pior trimestre em 13 anos. Goldman Sachs e JPMorgan cortaram suas projeções para o metal, citando saída de fluxo em ETFs e adiamento de cortes de juros pelo Fed. O bitcoin seguiu roteiro parecido: mesmo com repique mensal, acumula queda de mais de 30% no ano e cerca de 75% desde o pico, cotado perto de US$ 78 mil em 22 de agosto. É um contraste interessante para quem pensa em diversificação: os ativos tidos como “reserva de valor” em 2025 não estão performando como tal em 2026, o que reforça a importância de olhar para além da narrativa do momento antes de montar qualquer carteira.
No fim das contas, 2026 está entregando um quebra-cabeça pouco convencional: juro real recorde, bolsa em máximas, câmbio favorável e proteções tradicionais em baixa. Não é um cenário simples de interpretar, e qualquer decisão de alocação exige olhar para o perfil e o horizonte de cada investidor — não existe fórmula pronta quando os sinais do mercado se comportam de um jeito tão pouco habitual.
Conteúdo produzido com apoio de inteligência artificial, com curadoria editorial de Maickel.
— Maickel, colunista de finanças