Juros em queda, bolsa nas máximas e cripto em festa: o mapa de onde o dinheiro está indo em 2026
O investidor brasileiro termina setembro de 2026 diante de um quebra-cabeça e tanto. A Selic caiu pela quinta vez seguida, o Ibovespa flerta com recordes históricos, o Bitcoin voltou à casa dos US$ 85 mil depois de oito meses de ressaca, e um mercado quase desconhecido do grande público — o de ativos tokenizados — multiplicou por dez seu tamanho em apenas um ano. São movimentos que, juntos, contam uma história só: a de um sistema financeiro em transição, buscando novo equilíbrio depois de anos de juro alto.
O corte de juros e o novo patamar da renda fixa
Em decisão unânime, o Copom reduziu a Selic para 13,75% ao ano, o quinto corte consecutivo desde março, quando o ciclo começou a partir dos 15% mantidos desde junho de 2025. O movimento já era esperado pelo mercado e foi puxado pela desaceleração da inflação: o IPCA de agosto caiu 0,32%, e a prévia (IPCA-15) recuou 0,40% no mês, embora o índice acumulado em 12 meses ainda rode em 4,22%, acima do centro da meta. O Boletim Focus projeta Selic em 13,75% até o fim deste ano, 12% em 2027, 10,5% em 2028 e 10% em 2029 — mas há quem aposte em um corte mais agressivo: o BofA já trabalha com Selic de 11,25% no fim de 2027. O próprio Banco Central, porém, evita prometer velocidade constante nos próximos cortes, e ainda há duas reuniões do Copom neste ano, em novembro e dezembro.
Na prática, isso já reconfigura a renda fixa. Simulações mostram CDBs de bancos médios pagando até 105% do CDI, com boa rentabilidade em prazos de seis a trinta meses, e o Tesouro Selic ainda entregando retorno relevante mesmo líquido de impostos. A poupança, por outro lhe lado, segue travada pela regra que só muda quando a Selic cai a 8,5% ao ano — hoje distante — mantendo seu rendimento pouco competitivo. O recado dos especialistas é que a renda fixa não perdeu atratividade com a Selic em dois dígitos; o que muda é a exigência de mais critério na escolha de prazo, liquidez e risco de cada papel.
Ibovespa nas máximas, mas travado por um cabo de guerra
A bolsa brasileira teve um 2026 de recordes sucessivos, com o Ibovespa superando os 186 mil pontos em janeiro e chegando a se aproximar dos 200 mil em abril, época em que o capital estrangeiro respondia por mais de 60% dos negócios da B3. Agosto trouxe uma saída líquida pesada de estrangeiros e o índice recuou para a casa dos 177 mil pontos, mas setembro reverteu parte do quadro: até 21 de setembro, o estrangeiro voltou a comprar, com entrada líquida de R$ 9,6 bilhões no mês, enquanto institucionais domésticos seguiram vendendo, retirando R$ 6,9 bilhões no período. O resultado é um índice que sobe e trava ao mesmo tempo — fechou a 185.814 pontos em 23 de setembro, em meio a uma disputa eleitoral tecnicamente empatada entre Lula e Flávio Bolsonaro e a incertezas fiscais que ainda não têm desfecho claro. A XP eleva a régua para o fim do ano, projetando o Ibovespa a 190 mil pontos no cenário-base e até 235 mil em um cenário mais otimista — mas o dado que mais chama atenção é que o investidor pessoa física brasileira segue afastado desse rali, mesmo com os recordes.
Bitcoin: retomada rápida depois de meses de queda
Depois de rodar perto de US$ 79 mil no início de setembro — cerca de 38% abaixo da máxima histórica —, o Bitcoin surpreendeu ao cruzar os US$ 85 mil em apenas 12 dias, alcançando o maior preço desde janeiro. A escalada é atribuída à melhora de liquidez global, com o Tesouro americano dobrando recompras de títulos longos, à retomada de fluxo para ETFs à vista e a sucessivos short squeezes que empurraram o preço para cima. Fatores geopolíticos também ajudaram, com o mercado de olho na reunião entre Trump e Xi Jinping. O Ethereum acompanhou o movimento, subindo para perto de US$ 2.747.
Tokenização: o mercado que multiplicou por dez em um ano
Talvez o dado mais silencioso — e mais relevante para quem acompanha tendências — seja o salto do mercado brasileiro de ativos tokenizados, que passou de cerca de R$ 1 bilhão para mais de R$ 10 bilhões em 12 meses, um crescimento dez vezes maior que o do mercado global no mesmo período. Quase 90% desse volume está em crédito privado tokenizado, e o Brasil já lidera a atividade de tokenização na América Latina, atraindo interesse crescente de fundos de venture capital. A regulação também está migrando: o regime simplificado de crowdfunding, que ajudou a destravar o setor, começa a mostrar limites para operações maiores, abrindo espaço para estruturas mais robustas, como a Resolução CVM 160. Ainda assim, é preciso relativizar: mesmo com esse crescimento acelerado, a tokenização representa hoje uma fração muito pequena do crédito privado total do sistema financeiro nacional — um mercado nascente, mas que caminha rápido.
Conteúdo produzido com apoio de inteligência artificial, com curadoria editorial de Maickel.
— Maickel, colunista de finanças