Mercado em foco — 13 de agosto
O pregão de quarta-feira fechou mais uma vez no vermelho para o Ibovespa, que recuou 0,23% e encerrou aos 167.491 pontos — a sétima sessão negativa consecutiva do principal índice da bolsa brasileira. O dólar comercial, na direção oposta, subiu 0,36% e fechou cotado a R$ 5,179, embora tenha operado em queda ao longo da manhã, refletindo a leitura mais tranquila que o mercado global fez dos dados de inflação americana divulgados no dia.
Uma sequência de quedas que já incomoda
Sete pregões seguidos de perdas é o tipo de estatística que começa a chamar atenção mesmo de quem não acompanha o mercado diariamente. Na minha leitura, o movimento tem menos a ver com um evento único e mais com o acúmulo de incertezas: câmbio pressionado, cautela em torno do noticiário fiscal e uma temporada de balanços que, embora traga números fortes em alguns setores, está longe de ser unânime. É o tipo de contexto em que o mercado sobe a régua de exigência para qualquer notícia boa e pune com rigor qualquer sinal de fraqueza.
Selic em 14% e o pano de fundo doméstico
O Copom cortou a Selic para 14,00% ao ano no início do mês, a quarta redução consecutiva do ciclo iniciado em março, dessa vez por decisão unânime. O comunicado, no entanto, veio com tom mais cauteloso, citando a indefinição sobre conflitos no Oriente Médio e as dúvidas em torno da política monetária em economias avançadas como fatores que ainda pedem parcimônia. O mercado, via boletim Focus, projeta a Selic encerrando o ano em 13,75%, o que embutiria só mais um corte — provavelmente em novembro. Juros ainda em patamar elevado seguem sendo o principal contraponto a qualquer entusiasmo mais forte com a renda variável por aqui.
A temporada de balanços separa vencedores de perdedores
Estamos no meio da temporada de resultados do segundo trimestre, e o quadro que vem se desenhando é de dispersão setorial. Projeções do mercado apontam crescimento relevante para o lucro agregado do Ibovespa na comparação anual, puxado sobretudo por petroleiras, distribuidoras e exportadoras de commodities, que se beneficiam de preços internacionais favoráveis. Do outro lado, o varejo segue enfrentando um ambiente mais difícil, com o endividamento das famílias e a migração de parte da renda disponível para apostas online pesando sobre o consumo. Essa divergência ajuda a explicar por que o índice como um todo patina mesmo com balanços individuais robustos: o mercado está precificando setores, não só o país.
O que vem de fora
Nos Estados Unidos, o CPI de julho veio em linha com o esperado — alta de 0,1% no mês e 3,4% em doze meses, com o núcleo subindo 0,2% e acumulando 2,5% no ano. Um dado sem surpresas costuma ser boa notícia para o apetite a risco, e foi o que se viu: S&P 500, Dow Jones, Nasdaq e Russell 2000 fecharam em alta na sessão. Os futuros de juros no Federal Reserve seguem precificando a manutenção da taxa básica no curto prazo, com o mercado deslocando a atenção para as reuniões do fim do ano como o momento mais provável de uma nova movimentação. Esse pano de fundo externo mais estável tende a dar algum fôlego para ativos de risco em mercados emergentes como o Brasil, ainda que não seja suficiente, sozinho, para reverter a cautela local.
Minha leitura
Sete quedas seguidas soam mais dramáticas do que talvez sejam: em termos percentuais, o recuo acumulado é moderado, e boa parte do movimento reflete realização de lucros depois de um ciclo de alta e ajuste fino de expectativas em torno da Selic e dos balanços. O que vale observar daqui para frente é se a dispersão setorial que mencionei acima vai se manter — com commodities e exportadoras sustentando o índice enquanto setores domésticos sofrem — ou se algum gatilho, doméstico ou externo, muda esse equilíbrio. Como sempre, o convite aqui não é para prever o próximo movimento do Ibovespa, e sim para entender os fatores em jogo e manter a disciplina diante do ruído de curto prazo.
Maickel