Mercado em foco — perspectivas para 2 de setembro de 2026
O pregão desta quarta-feira começa sob um contraste que já vem marcando o humor dos investidores brasileiros nas últimas semanas: de um lado, um Ibovespa que insiste em subir mesmo quando o mundo lá fora treme; de outro, um cenário externo que voltou a ficar bem mais desconfortável depois da escalada militar entre Estados Unidos e Irã. É esse tensionamento entre fluxo doméstico e aversão a risco global que deve ditar o tom dos negócios hoje.
A véspera que ficou para trás
Na terça-feira, primeiro pregão de setembro, o Ibovespa emplacou sua décima alta consecutiva, fechando em 179.722,48 pontos, alta de 1,30%, depois de ter chegado a bater 181.060,89 pontos na máxima do dia. O movimento foi puxado pelo cenário eleitoral e por uma forte alta da Petrobras, e destoou frontalmente do que se via lá fora. O dólar acompanhou o otimismo por aqui e recuou para R$ 5,16, enquanto os juros futuros operaram sem direção única.
O pano de fundo doméstico, porém, não é só de boas notícias. O PIB do segundo trimestre, divulgado ontem, cresceu 0,5% ante o trimestre anterior — uma desaceleração em relação ao 1T26 que reforça a leitura de que a economia brasileira está mais sensível aos juros altos do que se imaginava. Some-se a isso o PMI industrial de agosto, que caiu para 46,3 (de 47,5 em julho), marcando a segunda deterioração mensal seguida e a contração mais acentuada em 40 meses. A economista Pollyanna De Lima, da S&P Global, resumiu bem o clima ao afirmar que os próximos meses parecem desafiadores, com os fabricantes lidando com incertezas eleitorais, demanda fraca e tensões geopolíticas.
Irã, petróleo e o susto em Wall Street
Lá fora, o clima virou de vez. Wall Street fechou terça-feira em queda firme — Nasdaq recuou 1,03%, Dow Jones caiu 0,79% e S&P 500 cedeu 0,71% — depois que o Comando Central dos Estados Unidos anunciou nova onda de ataques contra o Irã, mirando alvos da Guarda Revolucionária Islâmica. A resposta veio em meio a tentativas iranianas de ofensivas contra embarcações no Estreito de Ormuz e contra militares americanos na região, um gatilho geopolítico que rapidamente se transformou em gatilho de mercado.
O efeito colateral mais visível foi nos preços do petróleo, que dispararam com o temor de disrupção no fornecimento, e nos juros longos americanos: o rendimento da Treasury de dez anos subiu para 4,78%, patamar não visto desde o início de 2025. Esse movimento nos treasuries, aliás, tem alimentado uma reprecificação nas apostas sobre a política monetária americana — as fontes de mercado indicam que a probabilidade embutida para uma alta de juros em setembro nos EUA subiu para 67%, um cenário que, se confirmado, muda bastante a régua para quem acompanha o diferencial de juros e o fluxo para ativos emergentes como o Brasil.
Ásia e Europa já refletiram esse desconforto: Nikkei e Shanghai Composite caíram 0,2% cada, Hang Seng recuou 0,9%, enquanto na Europa o DAX despencou 1,1%, o CAC 40 cedeu 0,4% e o FTSE 100 caiu 0,3%. Os futuros de Wall Street para a abertura de hoje também apontavam cautela, com o Nasdaq 100 recuando mais de 1% na indicação futura.
O que olhar no radar doméstico de hoje
O grande destaque da agenda local é a Produção Industrial de julho, divulgada pelo IBGE às 9h. Depois de um recuo de 1,8% em junho e de um PMI que já sinalizou piora acentuada em agosto, o dado de hoje ajuda a compor o quadro de como a indústria está reagindo ao ciclo de juros ainda elevado — informação relevante para calibrar expectativas em torno do Boletim Focus e da própria trajetória da Selic, já que o Copom só volta a se reunir nos dias 15 e 16 de setembro.
Vale ficar de olho também em dois temas setoriais: a suspensão das importações de carne bovina brasileira pela União Europeia, que passa a valer amanhã e pode pressionar frigoríficos como JBS, Marfrig e Minerva já no pregão de hoje; e a Petrobras, que segue como motor de alta do Ibovespa e tende a reagir a qualquer novo capítulo na escalada do petróleo.
Câmbio e bolsa: a pergunta que fica no ar
Até o fechamento das apurações desta manhã, os números de abertura do dólar e do Ibovespa para hoje ainda não estavam consolidados. A pergunta que o mercado se faz é se o fluxo doméstico — sustentado por cenário eleitoral e pela força da Petrobras — vai continuar blindando o Ibovespa da turbulência externa, como vem fazendo nas últimas dez sessões, ou se o tensionamento geopolítico e a alta dos juros americanos finalmente vão contaminar os ativos brasileiros. Com o payroll americano batendo à porta na sexta-feira, e uma bateria de indicadores do mercado de trabalho dos EUA saindo ao longo da semana, a volatilidade tende a ganhar corpo antes mesmo da decisão do Fed.
Conteúdo produzido com apoio de inteligência artificial, com curadoria editorial de Maickel.
— Maickel, colunista de finanças