Mercado em foco — perspectivas para 24 de agosto de 2026
A semana começa em compasso de espera na B3, e não é por falta de assunto — é justamente o contrário. O pregão desta segunda-feira, 24 de agosto, funciona normalmente, sem feriado no calendário, mas o mercado local chega com a sensação de quem está segurando fôlego para os capítulos mais importantes, que só vêm a partir de quarta-feira. Antes disso, o que temos é digestão de dados recentes e uma agenda doméstica enxuta, com destaque isolado para o Boletim Focus, às 8h25.
O que ficou da sexta-feira
Vale entender o pano de fundo antes de olhar para hoje. Wall Street fechou a sexta-feira em alta — o Dow Jones subiu cerca de 1%, para 53.277,01 pontos, e o S&P 500 avançou 0,4%, para 7.674,37 pontos —, mas isso não foi suficiente para evitar a segunda semana consecutiva de perdas nos principais índices americanos. O alívio pontual veio puxado por um resultado mais forte que o esperado da Ross Stores e por um relatório de atividade empresarial positivo, mas o verdadeiro centro das atenções em Wall Street continua sendo a volatilidade no mercado de títulos públicos, os Treasuries, que segue pressionando o humor dos investidores globais. A tensão entre Estados Unidos e Irã, com o petróleo reagindo à escalada retórica de Trump, é outro ingrediente que mantém o mercado em alerta.
No Brasil, o cenário foi mais animador: o Ibovespa fechou a sexta-feira em alta de 1,85%, aos 171.031,73 pontos, embalado pelas ações bancárias e pelo humor positivo em Nova York. Foi o terceiro pregão seguido de ganhos depois de uma sequência de 11 quedas diárias consecutivas, a pior desde 2023 — e a recuperação foi expressiva o suficiente para deixar a semana com ganho acumulado de 2,45%. O dólar acompanhou o movimento de alívio, recuando 0,93% na sexta, para R$ 5,1451, embora na semana ainda tenha fechado com alta de 1,21% frente ao real. Os juros futuros também cederam em todos os vencimentos, com o DI para janeiro de 2027 encerrando em 13,710%.
O que ainda pesa no radar
Por trás da recuperação recente, alguns pontos de atenção seguem vivos e merecem ceticismo saudável de quem acompanha o mercado. O mais relevante é a saída de capital estrangeiro: foram R$ 22 bilhões retirados da bolsa brasileira em agosto até o dia 19, um número que ajuda a explicar por que, mesmo com o rali dos últimos pregões, o mês segue no campo negativo para o fluxo estrangeiro. Some-se a isso o ruído político-eleitoral, com pesquisas mostrando aproximação entre Lula e Flávio Bolsonaro na corrida de 2026 e o Citi tendo retirado o real da cesta de carry trade para emergentes por conta da percepção de risco político — decisões desse tipo tendem a ter efeito prático sobre o apetite de investidores institucionais pelo ativo brasileiro. Do lado positivo, a reabertura de um canal diplomático direto entre Lula e Trump, após telefonema na sexta-feira, é um fato que pode contribuir para um ambiente menos hostil no curto prazo, embora seus efeitos práticos ainda sejam incertos.
Os verdadeiros catalisadores estão por vir
Se hoje a agenda é fraca, o resto da semana promete compensar. Na quarta-feira sai o IPCA-15, com expectativa de deflação mensal de 0,31% e alta anual de 4,34%, número que deve refletir a queda nos preços de energia por conta do bônus de Itaipu. No mesmo dia, nos Estados Unidos, o PCE de julho — a métrica de inflação preferida do Federal Reserve — deve mostrar avanço de 0,2% no núcleo. Mas o evento que concentra as atenções de todas as mesas de operação é a sexta-feira, 28 de agosto, quando Kevin Warsh, o novo presidente do Fed desde maio, com reputação de “falcão” na luta contra a inflação, fará seu discurso de estreia no Simpósio de Jackson Hole. O contexto que antecede a fala é peculiar: uma recompra fracassada do Tesouro americano, um FOMC dividido em votação de 9 a 3 e apostas de alta de juros em setembro reduzidas a uma chance em três já sinalizam um mercado que não sabe exatamente o que esperar — e é exatamente esse tipo de incerteza que costuma gerar movimentos mais bruscos no dólar e no Ibovespa.
Por ora, o investidor brasileiro segue de olho em desdobramentos corporativos que vêm ganhando capítulos ao longo dos últimos dias — como a possível venda de fatia da Rumo pela Cosan, mudanças na diretoria da Suzano e o desfecho favorável à Hapvida junto à ANS — mas sem grandes catalisadores de balanço previstos especificamente para hoje, já que a temporada de resultados do segundo trimestre está em sua reta final. A leitura mais honesta para esta segunda-feira é a de mercado tático, testando níveis, enquanto aguarda as definições que só virão a partir de quarta.
Conteúdo produzido com apoio de inteligência artificial, com curadoria editorial de Maickel.
— Maickel, colunista de finanças