Ativo Certo

Educação financeira e investimentos para decisões mais seguras

Ativo Certo

Educação financeira e investimentos para decisões mais seguras

Uncategorized

Ouro perde 25% da máxima, mas brasileiro segue correndo para o metal em ano de Selic em queda e eleição na mira

Tem uma cena que resume bem o nervosismo do investidor em 2026: enquanto o Copom corta juros, a bolsa bate recorde e depois recua, e o dólar volta a subir por causa de pesquisa eleitoral, um número quieto vem crescendo no meio disso tudo — 1,6 milhão de brasileiros, segundo o Raio X do Investidor Brasileiro (Anbima/Datafolha), já têm ouro na carteira. Não é maioria, é 1% da população economicamente ativa. Mas é um movimento que não existia com essa força há poucos anos, e ele diz muito sobre o clima do mercado agora.

O contraste que não fecha na conta

Selic a 14% ao ano, IPCA em 4,44% nos últimos 12 meses até julho — ou seja, juro real ainda robusto, com o Banco Central mantendo a taxa em patamar que ele próprio classifica como restritivo. Em tese, esse é o pior cenário possível para o ouro, um ativo que não paga um centavo de juro e cujo único retorno vem da valorização do próprio metal. Mesmo assim, o interesse brasileiro cresceu justamente no momento em que o ouro vivia sua fase mais espetacular: contratos futuros passando de US$ 5.200 por onça-troy no início do ano. A explicação não é só apetite por retorno — é proteção. Quando o investidor não confia plenamente nem na moeda, nem na geopolítica, ele historicamente busca um ativo que nenhum banco central consegue imprimir.

Da euforia à ressaca: o que aconteceu com o ouro em 2026

O rali foi de tirar o fôlego. Depois de sair de US$ 2.060 em 2024 e subir 65% em 2025, o ouro emplacou mais de 12 máximas históricas só nos primeiros meses de 2026, tocando US$ 5.405 por onça segundo o World Gold Council — com fontes de mercado registrando picos ainda mais altos, próximos de US$ 5.600. Entre os gatilhos: cortes de juros do Federal Reserve, movimento de países como China e Índia reduzindo dependência do dólar em suas reservas, e um episódio raro de instabilidade institucional nos EUA, com a notícia de investigação criminal contra o presidente do Fed, Jerome Powell, que empurrou investidores para ouro e prata como refúgio. A Tether, emissora de stablecoin, chegou a confirmar plano de alocar entre 10% e 15% de sua carteira em ouro físico — um sinal de que até o mundo cripto estava correndo para o metal.

Só que o cenário virou. Da máxima de janeiro para o fim de agosto, o ouro já acumula queda superior a 25%, negociado agora numa faixa entre US$ 4.440 e US$ 4.600. O motivo é quase o espelho do que gerou a alta: o consenso de mercado deixou de apostar em corte de juros americano e passou a projetar o oposto — pelo menos uma alta do Fed até outubro, com inflação nos EUA perto de 3,9%. Juro mais alto lá fora encarece o custo de oportunidade de segurar um ativo que não rende nada. Ainda assim, o otimismo não desapareceu: pesquisa da Kitco News aponta que 73% dos analistas seguem projetando alta do metal, e o rompimento recente da marca de US$ 4.500 foi puxado por anúncios do Tesouro americano sobre compra de títulos longos e por uma desvalorização do dólar.

Quem entrou tarde no rali sente o solavanco

Vale um alerta prático para quem comprou perto do pico: entrar em um ativo depois de uma valorização de mais de 150% em dois anos — e ver uma correção de um quarto do valor em poucos meses — é lição de manual sobre volatilidade, mesmo em ativos considerados “seguros”. Ouro protege contra certos riscos, mas não é imune a ciclo de juros nem a mudança de humor do mercado.

Como o brasileiro acessa isso sem sair do país

Na B3, o caminho mais direto é o GOLD11, primeiro ETF de ouro listado no Brasil, que replica o LBMA Gold Price via posições no ETF americano iShares Gold Trust (IAU). Existe também o GOLB11, da BTG Pactual, que segue o Índice de Futuro de Ouro da B3 usando contratos futuros negociados localmente — estrutura diferente, com custos de rolagem que podem gerar retorno ligeiramente distinto do GOLD11. Um ponto que merece atenção redobrada: os dois produtos carregam risco cambial. Mesmo que o ouro fique parado em dólar, a variação do real frente à moeda americana entra na conta do investidor brasileiro — são instrumentos híbridos, expostos ao metal e ao câmbio ao mesmo tempo.

O Banco Central também está na fila

Não é só pessoa física. O Banco Central do Brasil fechou março de 2026 com 172,4 toneladas de ouro em reservas, equivalente a 7,1% do total das reservas internacionais — a maior posição da América Latina, à frente de México (120,1 toneladas) e Argentina (61,7 toneladas). É parte de um movimento global de bancos centrais diversificando reservas para além do dólar.

O dinheiro nunca circulou tanto — nem esteve tão nervoso

O apetite por ouro é só uma fatia de um fenômeno maior. A indústria de fundos no Brasil teve captação líquida de R$ 184,7 bilhões entre janeiro e junho de 2026, quase 120% acima do mesmo período de 2025, com patrimônio total batendo R$ 11,1 trilhões. Os ETFs, especificamente, bateram recorde histórico da série iniciada em 2006: R$ 34,1 bilhões captados no ano até julho, superando em 47% todo o resultado de 2025. Os Fiagros também engordaram, com R$ 6,2 bilhões captados no acumulado do ano. Ao mesmo tempo, o Ibovespa, que tocou recorde de 192.624 pontos em fevereiro, já mostrava sinais de fadiga em março, recuando para 181.557 pontos.

O fator eleitoral entra na equação

Some a isso o calendário político. Notícias de fim de agosto mostraram o dólar subindo a R$ 5,19 e forte demanda por opções de compra do Ibovespa em meio à redução da vantagem de Lula sobre Flávio Bolsonaro nas pesquisas. Ano eleitoral no Brasil historicamente aumenta a demanda por proteção — dólar, ouro, renda fixa — e 2026 não foge à regra. Com o Copom se reunindo de novo em 15 e 16 de setembro, e o Focus já projetando Selic em 13,75% para dezembro, o investidor brasileiro segue tentando equilibrar juro real elevado, câmbio nervoso e um ativo internacional que, depois de bater recorde atrás de recorde, agora testa até onde vai sua correção.

Conteúdo produzido com apoio de inteligência artificial, com curadoria editorial de Maickel.

— Maickel, colunista de finanças

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *