Selic a 13,75%, Bitcoin acima de US$ 85 mil e ouro em correção: o retrato dos investimentos às vésperas da eleição
A semana que termina hoje resume bem a complexidade do momento para quem tem dinheiro aplicado no Brasil. De um lado, o Copom deu sequência ao ciclo de corte de juros, mas manteve a Selic em dois dígitos. De outro, o mercado financeiro já negocia o resultado da eleição de outubro antes mesmo de as urnas abrirem, o ouro corrige depois de um rali histórico e o Bitcoin voltou a surpreender com uma disparada de fim de semana. Vamos por partes.
Juros: alívio, mas sem pressa
Na 281ª reunião, realizada nos dias 15 e 16 de setembro, o Copom cortou a Selic de 14% para 13,75% ao ano — o quarto corte consecutivo desde março e o menor patamar de juros de 2026. O movimento já era esperado pelo mercado e foi puxado por um dado forte: a inflação oficial de agosto veio negativa, em -0,32%, o menor índice em quatro anos. Ainda assim, o Boletim Focus projeta inflação de 4,9% para o fim de 2026, acima do teto de 4,5% da meta contínua, e o PIB do ano foi revisado para baixo, a 1,89%.
O comunicado do Copom chamou atenção para os riscos externos — os conflitos no Oriente Médio e a política monetária de economias avançadas — e para uma atividade doméstica que “modera gradualmente”, mas com mercado de trabalho ainda aquecido. O cenário-base do comitê trabalha com dólar a R$ 5,15.
Para quem acompanha o bolso, dois pontos práticos: a poupança não muda, porque a regra de remuneração só é alterada quando a Selic cai abaixo de 8,5% ao ano — longe da realidade atual. E, segundo o Focus, o ritmo de queda dos juros deve ser lento: 13,75% no fim de 2026, 12% em 2027, chegando a 10% só em 2029. Ou seja, a renda fixa segue como opção relevante por bastante tempo, ainda que o apetite por risco tenha aumentado nas últimas semanas. A ata da reunião de setembro sai hoje, e o Copom ainda se reúne mais duas vezes este ano, em novembro e dezembro.
Bolsa e câmbio: a eleição já está no preço
Um levantamento da Real Time Big Data, divulgado no início de setembro, mostrou Lula e Flávio Bolsonaro em empate técnico, com 44% cada — uma reviravolta em relação à vantagem que o presidente tinha em junho e julho. Analistas de mercado não escondem que isso pesa nas cotações: Bruno Perri, economista-chefe da Fórum Investimentos, chegou a dizer que uma eventual virada de Flávio Bolsonaro em pesquisas de segundo turno poderia provocar valorização “bem significativa” da bolsa e queda do dólar.
Os números recentes já dão pistas desse movimento. Em 2 de setembro, o Ibovespa saltou 3,05%, maior alta diária desde março, fechando no melhor nível desde maio. Dias depois, no início do mês, o índice voltou a testar os 181 mil pontos intradiários. O dólar, por sua vez, recuou por três pregões seguidos, chegando a R$ 5,109, embora tenha voltado a rondar R$ 5,18 em meados do mês — muito influenciado também pela tensão no Oriente Médio, que levou o petróleo a se aproximar dos US$ 100 o barril após ataques de rebeldes do Iêmen contra a Arábia Saudita.
Ouro: do recorde histórico à correção
Vale lembrar a trajetória do ouro neste ano, porque ela é impressionante. Em 28 de janeiro, a onça troy chegou a US$ 5.326, recorde histórico, após uma valorização de mais de 90% em doze meses — um movimento que os analistas associam à combinação de incertezas geopolíticas e à trajetória de alta iniciada ainda em 2025. Só que, passados esses meses, o metal perdeu força: nesta segunda-feira (21/9), operava perto de US$ 4.350 a onça, praticamente 1.000 dólares abaixo do pico. No Brasil, a grama do ouro 24k estava cotada em R$ 720,53 — ainda bem acima dos R$ 521,94 de 2024, mas mostrando que o rali perdeu ritmo. Mesmo com a correção, o preço atual segue coerente com a projeção que o Bank of America havia feito em 2025, de uma média de US$ 4.400 para o ouro em 2026.
Bitcoin: virada de rota em pleno fim de semana
Depois de semanas travado entre US$ 75 mil e US$ 80 mil, o Bitcoin surpreendeu no fim de semana. Saiu de cerca de US$ 76.200 em 16 de setembro para US$ 81.217 no dia 18, rompeu os US$ 80 mil de resistência e, ontem, chegou a US$ 87.032 — alta de mais de 10% em sete dias e o maior preço à vista desde janeiro. A capitalização de mercado da moeda voltou a superar US$ 1,7 trilhão. Ainda assim, o ativo está 32,3% abaixo da máxima histórica de US$ 126.080, o que mostra que o movimento, embora relevante, não significa necessariamente a virada para uma nova fase de alta prolongada — o próprio noticiário especializado faz essa ressalva.
No plano institucional, chama atenção que a Strive tenha comprado 469 BTC na semana, enquanto a Strategy mantém posição estável. Já no Congresso americano, a Lei de Clareza do Mercado de Ativos Digitais não avançou no Senado, o que deve postergar uma regulação cripto mais ampla nos EUA. Para o cofundador da BitMEX, Arthur Hayes, isso é secundário: o que deve mover o próximo grande ciclo de alta é liquidez global e o rumo da política monetária americana, não a legislação.
O quadro geral, portanto, é de um investidor brasileiro navegando entre juros ainda altos, uma eleição que já move preços antes da votação, um ouro que corrigiu depois do exagero e uma cripto que voltou a testar patamares que pareciam distantes há poucas semanas. Nenhum desses movimentos garante repetição — cabe a cada investidor avaliar seu perfil e horizonte diante desse cenário mais volátil do que o habitual.
Conteúdo produzido com apoio de inteligência artificial, com curadoria editorial de Maickel.
— Maickel, colunista de finanças