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Juros em queda, Bolsa em recorde e ouro versus bitcoin: o retrato contraditório do dinheiro em outubro de 2026

Outubro de 2026 está entregando, em poucas semanas, material para um ano inteiro de coluna. Temos o Banco Central cortando juros em ritmo mais acelerado do que o esperado, uma reforma do Imposto de Renda que mudou a conta de quem ganha pouco e de quem ganha muito, o Ibovespa batendo recordes históricos embalado pelo clima eleitoral, e um contraste e tanto entre o ouro nas máximas e o bitcoin em plena correção. São movimentos que parecem desconectados, mas que, olhados em conjunto, mostram como o investidor brasileiro está sendo empurrado a repensar onde colocar o dinheiro.

O Copom corta, mas não larga o pé do freio

Na semana passada o Copom reduziu a Selic para 13,75% ao ano, dando sequência a um ciclo que já soma quatro cortes consecutivos — em poucas semanas a taxa básica saiu de 14% para o patamar atual. A ata divulgada na terça-feira trouxe um tom mais ameno que a anterior, reconhecendo evidências mais robustas de desaceleração da atividade, confirmadas pelo PIB do segundo trimestre e pelo enfraquecimento do crédito livre. Ainda assim, o texto não abre espaço para acelerar o ritmo de afrouxamento: o BC segue preocupado com expectativas desancoradas e riscos altistas, mantendo o discurso de que a política monetária precisa continuar restritiva por mais tempo. Um detalhe de bastidor que vale registrar: o Copom está funcionando desfalcado, já que os mandatos de dois diretores venceram no fim de 2025 e o governo ainda não enviou ao Congresso os nomes dos substitutos — um ruído de governança que não pode ser ignorado por quem acompanha a credibilidade da instituição.

Para quem vive de renda fixa, o recado é direto: Tesouro Selic, CDBs e LCIs devem perder um pouco de atratividade marginal à medida que os juros caem, mas ainda entregam retorno real positivo. É o tipo de momento em que títulos prefixados ou atrelados ao IPCA ganham espaço na conversa, já que travam uma taxa antes que ela recue ainda mais — uma lógica de portfólio, não uma recomendação de produto específico.

Reforma do IR: alívio na base, conta nova no topo

A Lei 15.270/2025, em vigor desde janeiro, ampliou a faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000 por mês — contra R$ 2.428,80 na regra anterior —, com uma faixa de transição progressiva até R$ 7.350. Estima-se que cerca de 16 milhões de pessoas passaram a ficar isentas, o que devolve fôlego de consumo e poupança para boa parte da classe média.

Do outro lado da equação, a mesma lei devolveu a tributação de dividendos depois de quase 30 anos de isenção. Passa a incidir IRRF de 10% quando uma mesma empresa distribui mais de R$ 50 mil por mês para a mesma pessoa física — e, quando isso acontece, a alíquota recai sobre o valor total, não apenas sobre o excedente. O limite é apurado por CNPJ e por CPF, o que na prática abre uma brecha relevante: quem recebe dividendos pulverizados entre várias fontes pagadoras pode escapar da retenção mesmo tendo uma renda total elevada — um convite ao planejamento via holdings que certamente vai render debate.

Foi criado também o IRPF Mínimo, que soma todos os rendimentos do ano — inclusive dividendos, aluguéis e ganhos de capital — aplicando alíquota de até 10% para quem recebe acima de R$ 1,2 milhão anual, com progressividade a partir de R$ 600 mil. Vale o destaque: poupança, LCI, LCA, CRI, CRA e certos rendimentos de FII e Fiagro ficam de fora dessa conta, o que explica por que esses papéis continuam sendo vistos como refúgio tributário por investidores de patrimônio mais alto.

Bolsa precificando eleição, não só fundamentos

O Ibovespa vive um momento raro: fechou em 209.066 pontos em 9 de outubro, com alta semanal de 8,82%, o terceiro maior avanço semanal desde 2020 — atrás só das semanas de pânico da pandemia. Segundo o consultor Einar Rivero, da Elos Ayta, o índice superou em termos reais (corrigido pelo IPCA) o recorde histórico de maio de 2008. O gatilho é claramente eleitoral: o mercado vem precificando a vitória de Flávio Bolsonaro nas pesquisas, e projeções de agentes de mercado — incluindo o Morgan Stanley — chegam a falar em 250 mil pontos no curto prazo caso esse cenário se confirme. A Genial, mais conservadora, projeta algo como 231 mil pontos até o fim deste ano. A distância entre esses números mostra um ponto de atenção real: parte do rali atual está ancorada em expectativa política, não necessariamente em fundamentos que já se concretizaram — e isso é um risco que todo investidor deveria ter em mente antes de extrapolar a tendência.

Ouro sustentado, bitcoin nervoso

O ouro segue em patamar historicamente elevado, tendo rondado a casa de US$ 4.260 por onça em outubro, sustentado por compras de bancos centrais e pela fraqueza do dólar — além de funcionar, segundo analistas, como uma espécie de proteção contra temores em torno de uma possível bolha nas ações de inteligência artificial. A Société Générale já projeta US$ 5.000 por onça em 2026.

O bitcoin conta outra história. Nesta manhã, o ativo está cotado perto de R$ 413 mil, devolvendo toda a alta da semana e caindo para a faixa de US$ 81 mil, depois de ter chegado a US$ 84.800 em questão de horas. Analistas já discutem se o suporte pode ceder até US$ 70 mil antes de uma eventual retomada rumo a US$ 100 mil. Um dado chama atenção: a demanda institucional via ETFs de bitcoin à vista nos EUA está arrefecendo, o que ajuda a explicar por que o ativo não consegue romper resistências mesmo em meio a um apetite de risco elevado na bolsa brasileira. É o retrato de um mercado cripto ainda imprevisível, mesmo depois de anos de discurso sobre “maturação institucional”.

No fim das contas, outubro de 2026 escancara um Brasil de duas velocidades: juros caindo e imposto de renda aliviando o bolso de quem ganha menos, enquanto bolsa, ouro e cripto seguem cada um na sua própria lógica de risco. Entender essas engrenagens separadamente — e como elas se cruzam — é o primeiro passo para qualquer decisão financeira mais consciente neste fim de ano.

Conteúdo produzido com apoio de inteligência artificial, com curadoria editorial de Maickel.

— Maickel, colunista de finanças

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