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O paradoxo brasileiro: Bolsa nas alturas, Selic em queda e famílias mais endividadas do que nunca

Tem dois Brasis convivendo no noticiário econômico de 2026, e eles quase não se falam. Um deles é o Brasil da Faria Lima, que assiste ao Ibovespa emendar recorde atrás de recorde e comemora um ciclo de corte de juros que já dura meses. O outro é o Brasil da fatura do cartão, do rotativo que não para de crescer e do orçamento doméstico cada vez mais apertado. Como colunista, confesso que é raro ver esse contraste tão nítido nos números — e ele merece ser destrinchado com calma.

O ciclo de cortes e a cautela do Copom

O Copom reduziu a Selic de 14% para 13,75% ao ano em 16 de setembro, quinto corte consecutivo do ano, sempre no ritmo de 0,25 ponto percentual. A taxa vinha de 15% desde junho de 2025, e a ata da reunião deixou claro que não há espaço, por ora, para acelerar o passo. O mercado, segundo dados da B3, via em meados de setembro cerca de 57% de chance de mais um corte em novembro, contra 35% de manutenção. O calendário que resta em 2026 tem duas paradas: 3 e 4 de novembro, e 8 e 9 de dezembro. O Focus projeta uma queda lenta e prolongada — 13,75% ainda neste ano, indo a 12% em 2027 e 10% só em 2029. Um detalhe técnico que costuma passar batido: a poupança segue rendendo 0,5% ao mês mais TR enquanto a Selic estiver acima de 8,5%, então por enquanto nada muda na velha caderneta.

Ibovespa: recordes que parecem estruturais

A bolsa brasileira viveu um início de ano histórico, com dez renovações de recorde só em fevereiro — quase um terço de tudo que 2025 registrou no ano inteiro. A consultoria Elos Ayta chamou atenção para o caráter estrutural do movimento, e não apenas episódico. O índice chegou a bater 192.624 pontos em fevereiro, com o dólar recuando ao menor patamar em 21 meses. Em 24 de setembro, mais recente, o Ibovespa fechava acima de 191 mil pontos, acumulando 18,85% no ano, puxado pelo setor financeiro: Santander avançou 3,41%, Banco do Brasil 1,76%, Itaú 1,52%, e mesmo com petróleo em baixa lá fora, Petrobras subiu mais de 2%. O fluxo estrangeiro, somado ao real mais forte, é apontado como o principal combustível dessa festa — mas vale lembrar que em março o próprio índice caiu 1,45% num único pregão, quando inflação e tensão geopolítica lembraram que nem tudo é linear.

Câmbio sob pressão de fatores cruzados

O dólar começou setembro perto de R$ 5,14, mas o consultor Fábio Murad, da Wiser Asset, resume bem o risco à frente: se os EUA elevarem juros enquanto o Brasil segue cortando, o diferencial que sustentou o real em 2026 encolhe. Some-se a isso eleições se aproximando e discussões fiscais no radar, e a volatilidade cambial tende a ganhar força justamente quando parte do mercado se acostumou com a moeda mais estável.

O Brasil que não está na festa

Aqui mora o contraponto mais duro. O comprometimento de renda das famílias com dívidas bateu 28,9% em junho, recorde da série histórica do Banco Central iniciada em 2011. A PEIC/CNC mostrou 80,9% das famílias endividadas em abril — 8 em cada 10 lares. O vilão de sempre é o rotativo do cartão, com juros próximos de 428% ao ano, e a Serasa contabiliza 71,45 milhões de inadimplentes. Como bem explicou Fernando Rocha, do BC, a política monetária está fazendo o efeito esperado sobre o crédito, mas a trajetória de comprometimento de renda segue subindo mesmo assim — um lembrete de que juro alto por muito tempo deixa cicatrizes.

Onde o dinheiro está migrando

Do lado do investidor, a poupança perde espaço — saques superaram depósitos em R$ 7,15 bilhões só em julho —, enquanto Tesouro Selic, fundos DI, CDBs e o novo Tesouro Reserva ganham fôlego. Especialistas como Rafael Costa, da Cash Wise, apontam que o juro real ainda alto mantém a renda fixa atrativa mesmo com a Selic caindo, e o BTG já sinaliza prazos específicos, como prefixados de dois a três anos, como possíveis beneficiários do fechamento da curva.

Pix parcelado: solução ou nova armadilha?

Por fim, um capítulo em construção: o Pix parcelado, ainda sem regulamentação do Banco Central, já é oferecido por grandes bancos e fintechs, com CET podendo chegar a 8% ao mês. É uma ferramenta com potencial de inclusão financeira relevante, mas que também pode repetir, em nova roupagem, o mesmo problema do rotativo do cartão se o custo não for bem entendido pelo consumidor.

No fim das contas, os números mostram dois movimentos legítimos e simultâneos: o mercado financeiro reagindo a fundamentos melhores, e o consumidor brasileiro pagando a conta de anos de juros elevados. Não é contradição — é o retrato de uma economia em transição, com velocidades bem diferentes para quem investe e para quem apenas tenta fechar o mês.

Conteúdo produzido com apoio de inteligência artificial, com curadoria editorial de Maickel.

— Maickel, colunista de finanças

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