O Trade Eleitoral: como o 1º turno fez o dólar despencar e o Ibovespa bater recorde em 24 horas
Raramente o mercado brasileiro teve um choque tão rápido e tão nítido quanto o desta segunda-feira, 5 de outubro. Bastou o resultado do primeiro turno — Flávio Bolsonaro (PL) à frente com 47,37% dos votos válidos contra 44,76% de Lula, segundo a apuração com cerca de 97% das seções totalizadas — para o câmbio e a bolsa se moverem como se o país tivesse mudado da noite para o dia. Não mudou. Mas o mercado, como sempre faz, precificou o futuro antes de ele acontecer.
O tombo do dólar
A moeda americana fechou a sexta-feira (2/10) a R$ 5,2238 e, na segunda, despencou para R$ 4,9859 — queda de 4,55% em um único pregão, segundo dados oficiais do PTAX do Banco Central. Foi a leitura mais direta possível do resultado eleitoral: como resumiu Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, “o mercado passou a precificar uma chance maior de alternância de poder e, com ela, de uma trajetória fiscal mais crível a partir de 2027”. Bancos estrangeiros já revisaram suas projeções e falam em dólar na faixa de R$ 4,80 a R$ 4,95 nas próximas semanas — um contraste e tanto com relatórios de véspera de eleição que ainda apontavam risco de o dólar superar R$ 5,20 ou R$ 5,30.
Ibovespa: recorde, volume histórico e uma dose de ceticismo
Do lado da renda variável, o movimento foi igualmente espetacular. O Ibovespa fechou a segunda-feira com alta de 7,70%, aos 206.911,89 pontos — acumulando 11,04% só em outubro e 28,42% no ano — e chegou a tocar máxima histórica de 209.606 pontos. O volume de negócios também explodiu: mais de 5 milhões de negócios na sessão, ante uma média diária de 1,2 milhão. Casas como Morgan Stanley já projetam 250 mil pontos para o índice, e o BTG fala em potencial de até 45% em cenário mais otimista.
Mas vale um alerta trazido pela CEO da MA7 Capital, André Matos: “é um pregão que o dólar saiu de 5,22 para menos de 5,00 e a bolsa saltou de 192 mil para a casa dos 200 mil pontos, mas nada na economia real mudou entre sexta e segunda”. É uma observação importante para o investidor: o mercado reagiu a uma mudança de probabilidades políticas, não a um dado novo de PIB, emprego ou produção. Na quarta-feira, aliás, já havia sinal de acomodação, com o Ibovespa recuando 0,67% e voltando à casa dos 205 mil pontos — um lembrete de que movimentos dessa magnitude tendem a ter solavancos pelo caminho.
Juros e inflação: o pano de fundo que não desapareceu
Enquanto câmbio e bolsa reagiam à política, a Selic segue em 13,75% ao ano, após o quinto corte consecutivo promovido pelo Copom em setembro. O Boletim Focus projeta 13,50% para o fim do ano, com trajetória de queda mais lenta prevista para os próximos anos (12,00% em 2027, 10,50% em 2028). A novidade, segundo a Forbes, é que o cenário político pós-primeiro-turno virou oficialmente mais um componente nas projeções de juros — ao lado da inflação e da atividade econômica.
E a inflação, aliás, deu um susto em setembro: o IPCA-15 subiu 0,70%, maior alta desde abril, revertendo a deflação de -0,32% registrada em agosto. Mas há um detalhe técnico que merece nuance antes de qualquer alarme: boa parte dessa alta veio do fim do bônus de Itaipu na conta de luz, que havia inflado artificialmente a queda de agosto. Sem o efeito da energia elétrica, como lembrou o economista Roberto Luis Troster, da Fipe, o índice teria ficado em 0,41%, não 0,70%. É um bom exemplo de como um único fator pontual pode distorcer a leitura de um mês inteiro — vale lembrar isso antes de tirar conclusões precipitadas sobre a trajetória inflacionária. O IPCA cheio de setembro sai em 9 de outubro e deve esclarecer melhor o quadro.
Como o mercado está se posicionando no “entreturnos”
Com o segundo turno marcado para 25 de outubro, casas como o Andbank já alertam para volatilidade elevada pela frente, citando o risco de “ataques, escândalos, boatos e acusações” entre os candidatos. Entre as leituras táticas que circulam, o Santander citou o Itaú (ITUB4) como uma alternativa considerada mais defensiva dentro do setor bancário, num raciocínio de realocação de carteira — não uma recomendação de compra, mas um retrato de como os analistas enxergam o apetite a risco neste momento.
E o investidor conservador?
Para quem não quer surfar essa montanha-russa, a renda fixa segue como opção relevante enquanto a Selic permanece em dois dígitos — CDBs pós-fixados, LCIs, LCAs isentas de IR, Tesouro IPCA+ e debêntures incentivadas aparecem no radar dos especialistas. É sempre bom lembrar dois pontos práticos: o Tesouro Selic tem isenção de taxa de custódia da B3 até R$ 10 mil por CPF, e a cobertura do FGC — que vale para CDB, LCI, LCA e poupança, mas não para Tesouro Direto — vai até R$ 250 mil por instituição. A planejadora financeira Nayra Sombra sugere, para perfis mais conservadores, uma lógica de 80% em Tesouro Selic, 15% em IPCA+ e no máximo 5% em prefixado.
De qualquer forma, o mercado parece já ter decidido que uma virada no segundo turno é pouco provável. Mas os rendimentos dos títulos soberanos permanecem próximos de máximas de vários anos — sinal de que, por trás da euforia cambial e acionária, ainda há cautela de longo prazo com inflação e endividamento. Entre a euforia de curto prazo e a cautela estrutural, fica a lição de sempre: decisão de investimento não se toma no calor de um único pregão, por mais histórico que ele tenha sido.
Conteúdo produzido com apoio de inteligência artificial, com curadoria editorial de Maickel.
— Maickel, colunista de finanças