Ativo Certo

Educação financeira e investimentos para decisões mais seguras

Ativo Certo

Educação financeira e investimentos para decisões mais seguras

Uncategorized

Ouro bate recorde, dólar derrete e Selic ainda alta: o quebra-cabeça do investidor brasileiro em 2026

Outubro de 2026 está entregando um raro alinhamento de sinais contraditórios para quem investe no Brasil. O ouro opera perto de máximas históricas, com a onça-troy na faixa de US$ 4.150 a US$ 4.220 — chegou a tocar US$ 4.422,10 nas semanas mais recentes. Ao mesmo tempo, o dólar derreteu depois do primeiro turno das eleições, caindo mais de 4% e voltando para abaixo de R$ 5. A Selic, por sua vez, segue em trajetória de corte, mas ainda está em 13,75% ao ano, e a inflação oficial furou o teto da meta. É um cenário que não cabe em respostas simples, e vale a pena desmontá-lo peça por peça.

Por que o ouro não para de subir

O gatilho mais recente é conhecido: tensão comercial entre Estados Unidos e China, somada a um certo desconforto dos investidores globais com o tamanho dos investimentos em inteligência artificial. Na sessão de 15 de outubro, o ouro teve sua maior alta diária em mais de duas semanas — 1,6% — justamente em um momento de pressão vendedora sobre as ações de tecnologia ligadas a IA. É o clássico movimento de fuga para proteção quando o apetite por risco cai. O Bank of America já havia projetado, ainda em outubro de 2025, que o metal poderia chegar a US$ 5.000 por onça em 2026, com média de US$ 4.400 no ano — projeção que, diga-se, parece cada vez menos exagerada, embora o ano tenha mostrado volatilidade considerável: houve um pico de US$ 5.608,35 em janeiro, seguido de recuo para a casa dos US$ 4.000 em junho.

Bancos centrais comprando como nunca

Mas o que sustenta essa alta não é só nervosismo de curto prazo — há um movimento estrutural por trás. A China vem comprando ouro há 22 meses consecutivos, e em agosto fez sua maior adição mensal desde 2023: 20,2 toneladas, levando o estoque a cerca de 2.387 toneladas. O ritmo está acelerando: 480 mil onças em junho, 640 mil em julho, 650 mil em agosto. A Polônia lidera as compras do ano, com 98 toneladas, perto de bater sua meta de 700 toneladas em reservas. No mundo todo, os bancos centrais compraram 863 toneladas líquidas em 2025 e já somaram 289 toneladas só no segundo trimestre de 2026. Uma pesquisa do World Gold Council mostrou que 45% dos bancos centrais pretendem aumentar reservas de ouro nos próximos 12 meses. É difícil não ler isso como parte de um movimento mais amplo de desdolarização de reservas, especialmente depois do precedente do congelamento de ativos russos em 2022 — a Rússia, aliás, tem feito o caminho inverso, vendendo ouro neste ano.

O detalhe cambial que muda tudo para quem investe daqui

Aqui mora a armadilha mais interessante para o investidor brasileiro. O ouro é cotado em dólar, mas o real está se valorizando com força: o dólar foi de R$ 5,5024 no fechamento de 2025 para R$ 5,0119 em 8 de outubro, uma valorização de quase 9% da moeda brasileira. Isso significa que quem investiu em ouro via ETF sem proteção cambial — caso do GOLD11, que segue o LBMA Gold Price em dólares — sentiu dois movimentos opostos ao mesmo tempo: alta do metal, mas perda na conversão para reais. Já quem optou por produtos como OURO11 ou GOLB11, que replicam o mercado futuro brasileiro em reais, tem uma dinâmica diferente. Existem hoje ao menos cinco ETFs de ouro na B3 — GOLD11, OURO11, GOLB11, GOLX11 e GLDX11 entre eles —, cada um com estrutura, índice de referência e exposição cambial distintos. Vale notar que nenhum deles goza da isenção de R$ 20 mil mensais do day trade com ações: a tributação é de 15% sobre ganho de capital em operações comuns e 20% em day trade.

Juros ainda altos, inflação acima do teto

Enquanto isso, o custo de oportunidade de carregar ativos que não pagam renda — caso do ouro e do Bitcoin — segue elevado no Brasil. A Selic caiu de 15% para 13,75% entre março e setembro, no quinto corte consecutivo do ano, mas ainda está em patamar de dois dígitos, e o Focus projeta o fechamento de 2026 entre 13,25% e 13,50%. O problema é que a inflação não está cooperando: em setembro, o IPCA acumulado em 12 meses chegou a 4,58%, acima do teto da meta de 4,5%. Dos 137 participantes do Focus consultados, nenhum projeta inflação abaixo do teto para o ano — a mais otimista é 4,50%, a mais pessimista, 5,88%. É uma reversão clara frente a 2025, quando a inflação fechou em 4,26%, dentro do intervalo.

E o Bitcoin, que também promete proteção?

Vale o contraponto cripto. O Bitcoin opera hoje a US$ 83.486, com alta de 2,5% nas últimas 24 horas, mas ainda 33,8% abaixo da máxima histórica de US$ 126.080. Depois de um terceiro trimestre forte — saltou de US$ 62 mil para quase US$ 87 mil —, a criptomoeda ainda acumula queda de cerca de 24% em 12 meses, um contraste evidente com a disparada do ouro no mesmo período. É um lembrete de que “ativo de proteção” não é sinônimo único, e que os dois caminham por lógicas bem diferentes.

Diante desse quadro — ouro em alta estrutural puxado por bancos centrais, real valorizado, juros ainda elevados e inflação resistente — a composição de carteira ideal não tem resposta pronta. O que dá para afirmar é que 2026 tornou mais caro ignorar qualquer uma dessas variáveis isoladamente.

Conteúdo produzido com apoio de inteligência artificial, com curadoria editorial de Maickel.

— Maickel, colunista de finanças

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *