Selic cai, dólar recua e Bitcoin derrete: o que o novo ciclo de juros revela sobre o apetite a risco no Brasil
O Copom confirmou na semana passada o que o mercado já vinha precificando: o início de um ciclo de corte de juros no Brasil. A taxa Selic caiu para um novo patamar, numa quarta redução consecutiva de 0,25 ponto percentual, encerrando um longo período de juros elevados usado para conter a inflação. É importante um registro de transparência aqui: há divergência entre fontes sobre o valor exato pós-corte, se 14% ou 14,75% ao ano. O fato relevante, de qualquer forma, é o desenho da trajetória — cortes graduais, sem sinal de aceleração.
Um corte cauteloso, não um afrouxamento generalizado
A ata do Banco Central que embasou decisões recentes do Copom é clara ao reforçar um cenário de cortes graduais, mas sem abrir espaço para acelerar o ritmo. Mesmo com a inflação corrente melhorando e a atividade econômica mostrando sinais de desaceleração — confirmados pelo PIB do segundo trimestre e pelo enfraquecimento do crédito livre, especialmente nas linhas mais sensíveis a juros —, o comitê manteve o discurso de cautela diante de expectativas de inflação ainda desancoradas. Na prática, isso significa que quem aplica em CDB, Tesouro Direto ou fundos de renda fixa não deve esperar uma virada abrupta de cenário: o juro real continua elevado, mesmo com a Selic nominal recuando.
Chama atenção também o pano de fundo institucional da decisão: o Copom funcionou desfalcado, já que os mandatos dos diretores de Organização do Sistema Financeiro e de Política Econômica expiraram no fim de 2025 sem que o governo tenha enviado substitutos ao Congresso. É um detalhe que mereceria mais atenção pública — um colegiado tomando decisões de política monetária com cadeiras vagas. Some-se a isso a troca de comando no Ministério da Fazenda, com a posse de Dario Durigan no lugar de Fernando Haddad, prometendo continuidade fiscal num momento em que o mercado observa de perto qualquer sinal de ruptura.
Inflação ainda resistente, fiscal sem rumo
O Boletim Focus mais recente trouxe a mediana do IPCA de 2026 estável em 5,22%, bem acima do teto da meta de 4,5%. Pior: a expectativa para 2027 piorou, subindo para 4,32%, enquanto a projeção de crescimento da economia para o próximo ano foi reduzida para 1,32%. O relatório aponta fatores concretos pressionando a inflação de serviços, como o fim da escala 6×1, além de contas públicas sem rumo claro — o próprio Focus projeta déficit primário de 0,40% do PIB em 2027 e dívida pública em 74% do PIB. Esse é o tipo de combinação que mantém a curva de juros longa pressionada, mesmo com a Selic caindo na ponta curta.
Dólar em recuo, mas sem euforia
O real vem de uma recuperação relevante em outubro: o dólar fechou a R$ 5,05 na segunda-feira, acumulando queda de 2,44% no mês. Olhando mais à frente, porém, o próprio Focus não vê uma valorização estrutural do real — a projeção para o fim de 2027 é de um dólar em R$ 5,22, sugerindo que o mercado trata o movimento recente como ajuste, não como mudança de tendência.
Ouro e Bitcoin: o termômetro do nervosismo global
Enquanto o cenário doméstico se ajusta, o contraste entre ouro e Bitcoin ilustra bem o humor do investidor global. O ouro passou por um ano de recordes, oscilando entre US$ 3.890,70 e US$ 5.626,80 na banda de 52 semanas, muito puxado pela desconfiança sobre a escala dos investimentos em infraestrutura de inteligência artificial nos Estados Unidos. Já o Bitcoin viveu o oposto: depois de se aproximar dos US$ 126 mil, caiu para US$ 81.350,00 nesta terça-feira, 35,5% abaixo da máxima histórica, com o Índice de Medo e Ganância recuando, embora ainda em zona de ganância. É uma espécie de fuga para ativos considerados mais “reais” diante da incerteza sobre a bolha de IA — um movimento que vale acompanhar com cautela, já que boa parte das leituras mais otimistas ou pessimistas sobre cripto vem de analistas isolados, não de consenso de mercado.
E a bolsa, como fica?
O Ibovespa colecionou recordes ao longo de 2026, chegando a renovar máximas históricas por mais de dez vezes só até fevereiro, com giro financeiro robusto. Mas essa trajetória não foi linear: em abril, o índice chegou a cair mais de 1% em um único pregão, em meio a choques geopolíticos e disparada do petróleo após frustração com as negociações no Oriente Médio. É um lembrete de que, mesmo em um ciclo de juros mais baixos, a bolsa brasileira segue exposta a fatores externos que escapam ao controle do Copom — e que o otimismo de 2026 convive, lado a lado, com fontes de volatilidade que não desaparecem com um corte de Selic.
Conteúdo produzido com apoio de inteligência artificial, com curadoria editorial de Maickel.
— Maickel, colunista de finanças